quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Sinto sua falta

Doeu como dói uma punhalada o sorriso cínico a mim dirigido. Doeu como dói uma machadada o seu olhar frio, úmido. Doeu como dói uma martelada a indiferença sua para comigo. Doeu e ainda dói muito, mas você não saberá, porque não sabe o que se passa (apesar de achar que sim). Você espera coisas que não posso dar e então, a flor que eu te dei você deixa cair e não a pega de novo e o lírio fica caído e seca com o sol duro a sufocar. Sua vingança é cruel. Pena que eu nunca quis te magoar, pena que você não vê isso. Você virou as costas para mim e tudo que posso fazer é ver você partir. Você não sabe, você não vê, mas estou bem atrás torcendo para que um dia você pense em retornar o caminho ou até mesmo, apenas olhar para trás e então verá que, ao invés do que você pensava, eu nunca virei as costas, estava apenas brincando de rodar com os braços abertos só para ver se um pouco do mundo entrava pelos meus pulmões e me deixasse sorrir por um segundo que fosse.


Paula Cristina.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Feliz 2011

Tinha me decidido a não fazer nenhum texto sobre o ano novo, tinha me decidido a deixar esse 2010 no passado, sem texto, sem lembranças. (In)felizmente me deparei com um dos textos mais pessoal e lindo e sincero que eu já tinha visto. Os textos de ano novo são tão clichês com os mesmos "que esse ano que vem seja melhor que o anterior" ou coisas do tipo e eu não queria algo clichê, porque o clichê remete ao passado e eu não queria relacionar um ano novo com um ano passado, com o passado. Mas este tinha um "que" a mais, uma inovação tentadora, um sorriso escondido, um metrô com explosivos, uma esperança escondida nas cicatrizes do mundo. E então de súbito eu me perguntei: "porque não um texto meu, sem esperança, sem medo, apenas um texto falando de uma mudança, de uma caminhada que muda a cada vírgula introduzida?" O passado sempre faz parte e eu não posso mudá-lo ou me esconder, lembranças são essenciais e no fundo eu sempre soube disso.
Esse ano que passou foi um pesadelo e um sonho. Não sei dizer se foi bom ou ruim, apenas foi. Foi um ano em que chorei, sorri, senti a chuva escorrer pelo meu corpo. Esse ano eu dancei, cantei, li, escrevi, bebi, comi, estudei, descansei, dormi, criei, comprei, fiz festas e jantares, fui a festas e jantares. De cada coisa que fiz, por algumas eu me apaixonei, por outras tomei repulsa e por outras ainda, me vi indiferente. Mas em cada uma delas, me permitiu olhar para dentro de mim e sentir cada pedaço que compõe esse ser que sou eu. Me emocionei, fui a recitais e concertos. Sorri para pessoas e vi pessoas sorrindo para mim. Algumas dessas pessoas eu conhecia outras eram apenas estranhos com a intenção de trazer um pouco de alegria ao mundo (e funcionou, todas as vezes um sorriso me escapou dos lábios, mesmo quando estava extremamente irritada).
Esse ano me trouxe antigos amores e novos amores e todos me foram tirados pelo destino (sendo eu ou eles a dar as costas um para o outro ou mesmo tomarmos caminhos diferentes). Conheci também amigos novos e alguns deles se mantiveram ao meu lado, outros foram apenas "amigos de estação". Encontrei antigos amigos e alguns eu mantive e estreitei os laços, outros ficaram no passado. Perdi pessoas queridas para a tão chamada morte e com isso descobri partes minhas que eu já não lembrava mais. Esse ano (re)aprendi a importância dos melhores amigos e dos irmãos e descobri que eu posso ser a pessoa mais odiosa ou a mais amada quando eu quero. Esse ano eu percebi o quanto tenho que caminhar para chegar aonde quero e comecei a caminhada. Aprendi a jogar coisas inúteis fora - tanto físicas quanto mentais (as histórias épicas em minha cabeça vão continuar sendo apenas histórias, não importa o quanto eu queira que não seja verdade). Esse ano novo pude ser tudo que eu amo ser e que sempre quis ser sem magoar ou assustar alguém que não esteja preparado para escutar minha verdade. Esse ano eu amei muito tudo ao meu redor e tive momentos de ódio mundial também. Esse ano eu me superei nas dores, nos amores, nas alegrias. Aprendi que sou mais forte com pessoas ao meu lado. Esse ano mudei tantos hábitos e tantas vezes mudei até de opinião, que acabo por confessar ser uma pessoa nova a cada manhã. Esse ano eu me apaixonei por mim pela primeira vez e o espelho me sorriu de volta contando que esse ano que passou não foi perfeito, mas se fosse eu não estaria aqui, dessa forma. Sem esse ano eu não sei quem eu seria por um dia, sem esse ano jamais teria o próximo. E o próximo não será perfeito, mas será lindo à sua maneira e eu espero que eu consiga ver sua beleza nos dias de tristeza, por que como todo ano, esse ano que vem agora trará sorrisos e lágrimas e suspiros assustados de quem se encontra em uma situação completamente inesperada. Neste 2011 eu desejo a você e a mim sabedoria, além de tudo.


Paula Cristina.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Saber sentir-se

Assim como Clarice Lispector lutava por sentir-se gente, cada um tem uma luta por sentir-se algo. Não sou diferente. Quereria eu sentir-me... A necessidade do sentir leva o ser humano ao ápice de ser, de viver. Sentir-se está entra as coisas mais sublimes e mais difíceis. Me admiraria conhecer alguém que sinta-se por completo. Teria essa pessoa como mestre espiritual de alto escalão e procuraria aproveitar ao máximo tudo que me dissesse, pois este é um dos maiores mistérios para os homens: saber sentir-se.


Paula Cristina.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Feliz Natal, Merry Christmas, Frohe Weihnachten, Joyeux Noël, God jul, Mutlu Noeller


O tempo lindo, a brisa leve, a chuva querendo cair, a comida assando, as músicas tocando, os sorrisos estampados, a paz (mesmo quando os dias passaram ardidos, pesados, doloridos, difíceis). O natal por si só tem a paz esculpida. Até o dia (talvez) não se sente nada, mas o dia chega e tudo parece leve e tranquilo de novo. A casa ao longe lembrando tempos perdidos de hobbits e elfos, a casa ao lado lembra o natal brasileiro, a outra lembra o natal americano e a outra, o natal alemão. Todos em seu próprio estilo entram na séria brincadeira de deixar o natal entrar em suas casas e tocar seus corações. O vinho esperando ser aberto, o champagne esperando ser aberto, o whisky e a cerveja esperando serem deliciados, a leitoa, o peru, o chester, as saladas, o arroz de forno, todos esperando para serem provados. A festa começa, as pessoas conversam, riem, rezam, dançam, bebem, comem. Tudo é uma festa. O dia é uma festa. Que dia, que dia! Feliz Natal!
Paula Cristina.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Jantar entre amigos.

Todos sentados à mesa, as velas postas delicadamente nas extremidades do centro, de modo a iluminar toda a sala. Os sorrisos lindos, meigos, carentes de afeto e de ternura. As vozes se alternavam pouco a pouco, de acordo com a conversa, de acordo com o interesse. A tarde foi linda. A noite foi perfeita. Todos divertiram-se.


Paula Cristina.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Lembrança embaçada

Cinco anos esperando aquele ano chegar para que pudesse cantar aquela música tão ouvida por tanto tempo, para no final das contas se esquecer da música, da letra, da sensação. A noite gélida entrou pelo quarto aquecendo seu coração e a música começou a tocar por mero acaso... mas já não era a mesma, o torpor, a emoção já não eram dela. Aquela música já não era deles, era de alguém mais, de alguém desconhecido. Ele já não existia, não fazia diferença... ele já não era amor, apenas lembrança embaçada de um coração partido.
Paula Cristina.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A satisfação

Silêncio. Desejo. Tentação. A boca suavemente percorreu suavemente cada parte do corpo, cada pedaço de carne exposta. O cheiro. O desejo. O silêncio. A tentação. A mão deslizando sobre a seda crua, procurando, apalpando, segurando tudo que era de direito seu. A respiração. O cheiro. O desejo. O silêncio. A tentação. O sussurro pausado guiando os momentos mais íntimos, sensuais, perversos. O gemido. A respiração. O desejo. O silêncio. A tentação. Os olhares se encontram para arderem no beijo louco, promíscuo, pedinte. A língua. O gemido. A respiração. O desejo. O silêncio. A tentação. A maçã caída no carpete, o champange pela metade na mesa de centro, a música sensual, a noite estrelada, a brisa noturna adentrando a parte do vestido que ela ainda tem em seu corpo, o corpo dele por cima, conhecendo cada parte do corpo dela. A sensualidade. A língua. O gemido. A respiração. O desejo. O silêncio. A tentação. As unhas arranhando as costas dele, os movimentos contínuos, passivos. O orgasmo. A sensualidade. A língua. O gemido. A respiração. O desejo. O silêncio. A tentação. A satisfação.
Paula Cristina.

Esquecer

As moedas pesavam em seu bolso, mas insistiu no caminhar calmo e desestimulante. Os olhos eram todos nela, a mente insistia em esquecer tudo que se passara algumas poucas horas atrás. Doía pensar na infidelidade que a acometera como uma dor de dente quando apossa da boca cariada. As lágrimas insistiam em cair, os nós dos dedos ensanguentados de raiva, dor, insanidade. Gritou tanto que os músculos da garganta pareciam ter saído do lugar e começar uma luta pessoal contra as paredes que as prendiam àquele corpo. Jogou o cigarro no ralo, não servia de muito naquele momento. Ao invés, pegou a belladonna e passou nos olhos quantidade suficiente para ficar cega por algum momento indefinido e esquecer do que viu, do que sentiu de toda a dor que causava dores musculares além da conta. Tomou um comprimido para a dor que a pertubava e entrou em transe para esquecer de si, do mundo, dele. Esquecer. Esquecer. Esquecer.
Paula Cristina.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Minha alma de artista

De tudo que vivi, de tudo que passei, a coisa mais linda que fica em mim é a minha própria alma. Essa alma que vive, que reza, sorri e chora tem sua própria forma de se dizer, de se fazer reconhecida no exterior da minha pessoa e essa forma é a arte. A música cantada, dançada, tocada, os textos interpretados ou escritos, todos com o mais profundo sentimento. É assim que a alma se expressa e quando outra alma sente e se emociona com a expressão da outra, é nessa hora que o mundo se torna ínfimo, bonito, transparente. Tudo parece ficar claro, calmo, óbvio: o mundo é lindo, o mundo é mágico. Vou e volto e nunca sei para onde irei daqui a algum tempo. Tenho tanta coisa para fazer, tanta coisa para conhecer que me perco em vontades e me esqueço da vontade da minha alma, esqueço que a vontade de minha alma é vontade do meu eu. Mas então, de alguma forma, o mundo se encarrega de me levar de volta àquilo que tanto amo, àquilo que às vezes me esqueço ser essencial em minha vida. As sapatilhas, as roupas soltas ao corpo, a bolsa enorme que cabe milhares de fantasias e milhares de quinquilharias que só um artista sabe guardar. A música começa tocar ao longe e tudo que eu tenho que fazer é subir no palco e deixar minha alma soltar do corpo e me carregar pelo palco. É isso que eu sou: artista. A música enche o teatro, as pessoas sentadas na platéia, o "nervosismo pré-apresentação", a apresentaçãoem si: as luzes altas te fazendo enchergar o palco e uns poucos metros além dele. Aquelas pessoas estão ali para me ver desnudar a alma, para ver seu ser refletido em meus olhos, em meus movimentos, em minhas respirações. Eu estou ali para fazerem-nas relaxar por alguns minutos e isso é lindo! A sensação de paz que se espalha após a apresentação, a saudade que o palco deixa, que os ensaios deixam. E assim eu vou, seguindo de um ensaio a outro, dando tudo de mim e deixando ir, mas sempre procurando um outro palco, uma outra platéia, uma outra música. E quando me afasto disso já não sou mais eu, mas alguém que faz o que esperam que faça. Eu adormeço por algum tempo. Acordei mais uma vez, finalmente. Por favor, não me tirem de mim. Por favor, que eu não me tire de mim.
Paula Cristina.

sábado, 20 de novembro de 2010

Palavras

É tão complicado a expressão do mundo em palavras. Elas são tão pequenas, tão insignificantes diante do sentimento que as contém e das diversas surpresas que o mundo pode nos oferecer. O que é uma palavra, senão a tentativa de expressão de algo muito maior, muito mais complexo e com a visão de um lado só. As pessoas esperam da palavra uma verdade absoluta, mas a palavra pertence a quem as pronunciou e essa pessoa não tem o conhecimento da verdade por inteira, apenas da alienada visão de mundo que têm, que aprendeu, que conheceu. Como fazer então? Além desse "mínimo" problema, existe outro: a palavra dita versus a palavra interpretada, versus a palavra lembrada. É tudo tão além do que pensamos saber, do que pensamos conhecer. De repente tudo fica confuso com tantas verdades partidas ao meio, quantas certezas com mais de um lado e quantas luzes no túnel apagadas por uma visão distorcida, por um tampão bloqueando (dos olhos) a entrada da luz... é preciso usar as palavras para reconstruir, mas se as palavras não são tão eficazes, nos final das contas tudo que nos resta é a reconstrução contínua, a simples verdade de que acabamos sempre em ruínas e a partir delas reconstruímos algo que se tornam ruínas e o círculo continua em um infinito imcompreendido, mas a certeza de que a palavra nunca será tão fiel quanto se acredita estará sempre lá. Porque a palavra é expressão da alma, de uma alma que nem sabe quem é e, portanto, a palavra se torna inacabada, perdida. Amo palavras, mas para mim elas se tornaram ruínas. Lindas, desejadas, admiradas, modelos para novas palavras, mas ainda assim ruínas perdidas no tempo, impossíveis de decifrar por completo. Mistério. Silêncio.
Paula Cristina.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O seminário

Foi tudo muito calmo, tranquilo, leve e solto até aquele momento crucial. O momento que veriam o que eu sabia de tudo que eu tinha certeza que não sabia. Juro, queria sair correndo, mas de tão paralizada, tudo que consegui fazer foi respirar fundo e dar um jeito de enganar todos. Contar para eles que eu sabia um pouco daquilo que nada sabia. E as palavras foram saindo, os olhos passavam por cada linha, cada pedaço de letra que transparecia em minha frente. Todos os olhos voltados para mim (eu que não sabia nada). E a medida que as palavras saíam eu descobria que sabia um pouco daquele nada que acreditava não saber. Do mínimo que exigia que os outros soubessem, mas que eu mesmo nunca sabia. E com o decorrer do tempo me vi inteiramente envolvida com algo que nem eu sabia que existia dentro de mim: uma mente pensante que sabe um pouco (o mínimo), mas o suficiente para fazê-los compreender. O medo, a vergonha, o desconcerto se transformavam e uma calma e uma serenidade fora do normal. Coisa que eu só havia sentido no palco (eu, meu personagem e o mundo imaginário que me mantinha ligada ao meu mais profundo ser). Achei graça daquilo, continuei falando. Percebi que ninguém percebia, depois de um tempo, o mar de aflição e pensamentos que passavam por mim, que me mantinha loucamente sã durante aquele seminário. Parecia tudo simples, mas não podia ser tão simples assim (nunca é!). Terminei a apresentação (eu disse apresentação? seminário. Será que acabei por me ver como em um palco no final das contas?). Começaram as perguntas e, a medida que iam perguntando, eu me perguntava se seria capaz de responder e ia respondendo cada pergunta com um medo crescente de estar fazendo papel de idiota (imagina, todos perceberem que nada sei... é por isso que é mais fácil só fazer um personagem, ninguém sabe do personagem e eu posso mudar o rumo das coisas, me virar, criar algo fora de senso e ainda assim, fazer as pessoas acreditarem que eu realmente fiz tudo do jeito certo. Mas um seminário? É algo muito mais elaborado... Não tem como você criar teorias: ou você sabe ou você não sabe e eu nunca sei...). Felizmente, respondi todas as perguntas e aquilo foi se tornando mais tranquilo do que imaginei ser, quando me dei conta estava sorrindo para as paredes. Tinha passado no teste, consegui saber algo que eu não sabia (ou pensava que não sabia, já não sei mais ao certo). Descobri outra forma de apresentação, uma arte mais sutil e mais difícil: saber algo. A arte, no final das contas, está em todos os lugares. Estou abismada comigo. Estou abismada com a própria descoberta de arte que eu fiz. Provavelmente dirão que sou louca, mas venhamos e convenhamos, ficar ali de pé "monologando" sobre alguma coisa, tentando deixar aquele assunto se tornar interessante, manter a atenção de todos e ainda assim se lembrar de tudo que estudou? Exige uma puta arte por parte do cara que está lá em cima e eu não sabia disso até hoje. A arte é definitivamente o fenômeno mais louco que eu conheci. Estou abismada.
Paula Cristina.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Sem direção

O carro virou a Quinta Avenida de alguma cidade qualquer. Não tinha noção de onde estava, só pretendia sumir daquele estado (a alguma horas atrás desligou o celular, pegou as roupas, os cds, os livros e seu caderno, checou se ainda tinha crédito suficiente no banco e pegou o carro. Sem direção que estava foi escolhendo as estradas e rodovias que pareciam mais bonitas e agradáveis). Deu em um cemitério todo iluminado, bonito de se ver. Ao lado do cemitério havia uma pequena capela, um pouco diferente das outras. Achou curioso o que viu (só podia ser o destino pregando alguma peça de mal gosto). Gravado, em cima da porta, haviam as seguintes palavras: "mate alguém em pensamento ao entrar, ore por essa pessoa aqui dentro e siga em frente ao sair". Era exatamente o que precisava fazer matá-la de uma vez. Pensou bem forte "você se foi e é passado para mim, você morreu". Manteve essas palavras em mente durante todo o percurso até a cadeira que escolheu sentar. Sentou e começou seu discurso interno: "Perdoe-me por tantas vezes que te fiz chorar (se é que fiz alguma vez realmente), eu perdoei você por todas as vezes pelas quais chorei por você e a culpei (no final das contas, minhas lágrimas foram expectativas minhas e não, de fato, falta de tato sua). Mas agora preciso ir embora, seguir em frente, porque você já não mais pode existir no meu mundo, não há espaço para você, mas o mesmo se aplica a você também e acho, que de uma forma ou de outra, já sabe disso. Não sei mais o que dizer, portanto, seja feliz, eu te amei muito, agora é apenas questão de saudade, carência." Levantou, olhou para os lados. Era estranho, de algumaforma se sentia melhor, mas não gostaria de ver que pessoas o viram fazendo isso, portanto saiu o mais rápido dali, garantindo que ninguém o tinha visto saindo dali. Ligou o carro, o som e se pôs a dirigir. Agora o peso desconfortável havia saído, sumido, como num passe de mágica. Escolheu o melhor hotel, e ficou ali, sabe-se lá quantos dias, perdeu as contas. Já não sabia o horário. No tempo certo, no seu tempo certo, voltaria para casa.
Paula Cristina.

Ao léu

A noite escura, os passos largos, o banco da praça escondido pelas sombras, a cerveja numa mão, o cigarro na outra. Soltou o cabelo, a medalinha na mão. Riu de si e de seus meros surtos, aqueles tão antigos que nem se lembra quando foi a última vez que os deixou se apoderarem. Fechou os olhos e recitou, utilizando toda a energia restante, aquele poema tão antigo quanto sempre soubera. Enquanto recitava bebericava da garrafa de cerveja, sentindo o líquido escorrer pela garganta, leve, solto, ondulante. Cansou do cigarro, mas deixou-o ali, queimando, apenas para sentir o cheiro da fumaça dançando sobre seu corpo. Lembrou daquela canção que cantava quando estava feliz, riu-se. Onde já se viu: triste, lembrar de momentos felizes. Não fazia um pingo de sentido, mas mais uma vez, nunca fez sentido, nem mesmo para si. Assistiu a morte chegando devagar e impossibilitando um gato na rua. Não moveu um músculo, não se importava, pelo menos não hoje. Fuzilou a noite com um olhar avassalador. Quem a noite pensa que é para encobrir suas pegadas dessa forma? Absurdo, atrocidade, exaustão. Nada mais faz sentido, nem importa. Levanta, anda, a cerveja ainda na sua mão. O cigarro é arremessado para dentro da lata de lixo. Tira o casaco, a noite está quente. Anda horas a fio, sem saber para onde, sem saber quanto tempo se passou. Pára em frente a uma casa cheia de plantas, senta na calçada e fica a observar cada centímetro. Nunca havia notado uma entradinha com cara de jardim secreto ao lado da casa. Nem nota quando a moça do brinco de pérola olha pela cortina da janela aquela estranha parada na porta de sua casa. Uma lágrima pousa em sua bochecha: lágrima de anjo. Continua andando. Ao longe a casa cheia de plantas se torna escura, agora existe outra casa, ela não pára, não quer mais parar, quer correr, gritar. Não faz nada disso, ao invés tira as roupas e se atira no lago mais próximo. Sempre teve medo de lagos, mas que se dane, chegou ao fundo do posso e ou é isso ou é jogar a medalinha fora. Sai do lago, pega suas roupas, mas não as veste. Vai andando assim: seminua para casa. Já não sabe mais o caminho de casa, deparou com a casa cheia de plantas mais uma vez. A casa cheia de plantas não é sua casa, onde está sua casa? Continua andando, encontra-a finalmente, entra na casa, senta exausta no sofá e adormece ali mesmo, o sol já nascia lá fora, as pessoas iam acordando aos poucos. Ela, começava a dormir, perderia mais um dia de trabalho. Mais um dia perdido. Mas então, o que não era perdido em sua vida? Ela nem se lembrava do caminho de casa, chegou por uma mera coincidência, uma mera ocasião. Boa noite mundo.
Paula Cristina.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Uma noite.

A taça vermelha de contraste com a toalha branca. Os dedos ágeis esperando o momento oportuno para mudar de direção. A água passava levemente por seu corpo e tudo parecia diferente, afetado. Era tudo lindo, inusitado, fácil. Era fácil ficar ali, esperando, olhando, observando, absorvendo cada detalhe, cada pedaço de tempo, de momento, de paixão descontrolada que a abordava como um temporal. Vulnerável da forma mais louca, da forma mais surreal, na realidade mais obscura e sem futuro certo. Não importava, desde o sussurro saindo de seus lábios ou de seu olhar penetrante. Ele sabia quem ela era, mesmo quando ela pensava estar escondida dele. Não importava aquilo agora, nada importava além da sensação de extrema calma que a invadia. A cautela não existia por um momento, não porque havia sumido, mas porque não precisava dela. Fechou os olhos, sentiu o cheiro. Abriu os olhos, sentiu a luz. Falou, ouviu, riu, emudeceu. Era muito fácil ser ao lado dele, era muito fácil estar com ele.
Paula Cristina.

domingo, 31 de outubro de 2010

Eu te amo, só por hoje.

Você veio, você partiu, mas voltou. Sonhei todos os dias para esse dia voltar, mesmo que não admitisse (admitir que se ama quando não se percebe correspondido dói muito...). Virei as costas, revoltei, jurei para eu mesma que jamais voltaria a amar. Não porque não quisesse, mas porque não achava que valia a pena a dor. Passei noites a fio escondendo de mim o quanto queria um romance, o quanto queria amar e ser amada. Não sei se já o sou, mas você voltou e quebrou todo o gelo que eu tinha construído com tanto trabalho pesado, noites insones, lágrimas em vão. Você voltou e tudo que já não mais era natural se tornou de uma naturalidade ridiculamente impressionante. Acordei e me percebi em um mar de alegrias que já não mais conhecia. O mundo tinha mudado com um piscar de olhos. O sorriso insiste em aparecer no rosto, mesmo quando se tenta contê-lo. Mas isso também me traz medo. E se você me machucar de novo? Terá tudo isso valido a pena? E se você se for? Na verdade, no final das contas já não faz tanta diferença. Você me faz bem. Você me faz tão bem que eu nem acredito.
Sinto sua falta e nem passou um dia direito. Sua voz me acalma e sua presença me matém em plena serenidade. Se eu pudesse, manteria você ao meu lado para sempre. Mas eu aprendi que às vezes as pessoas seguem caminhos diferentes, mesmo quando pensavam que não o fariam. Não quero que isso aconteça entre a gente, mas confesso que uma parte de mim morre de medo desse dia chegar e eu não estar preparada para deixá-lo ir. Se isso acontecer vai doer, doer muito. Mas você sempre teve essa mania de cuidar de mim, de me proteger, de me alertar e, quem sabe se algum dia viermos a nos separar você terá me preparado para isso.
Mas chega de tanto medo, de tanta preparação para coisas sem sentido. Esse texto não foi para falar de meus medos infantis, mas do quanto eu te amo mais do que pensei poder amar e do quanto espero ser correspondida. Você mesmo, talvez, nunca chegue a ler isso e, se ler, será porque você não se foi, você ficou e isso já me deixa mais calma, feliz e com certeza mais apaixonada. Quem sabe você será meu maior amor? Quem sabe você será meu romance mais lindo?
Eu te amo, só por hoje.


Paula Cristina.

sábado, 30 de outubro de 2010

Onde está o inusitado?

Por favor, comprem uma bengala decente para o indivíduo de boné à minha frente. Alguma coisa marcante, bonita, polida, entre "não estou nem aí, mas olhem para mim, assim mesmo."Algo de exibicionista por natureza, mas que mantenha o mistério. Por favor, tragam o mistério de volta ao mundo. Existe algo de extraordinário no mistério, talvez porque as pessoas insistem em ignorá-lo por completo. Não se vê mais o interesse por coisas que o despertam, que nos deixa intrigados, interessados. O mundo está anestesiado. Onde está o mistério, a descoberta, o burlesco, o mágico, o bonito, o diferente dentro de nós? Eu quero o inusitado! Onde está o inusitado?
Paula Cristina.

O jantar

Acordou, escolheu a melhor lingerie, tomou um banho, vestiu uma roupa, tomou café, fumou um cigarro. Resolveu ir ao mercado e comprar ingredientes para uma refeição deliciosa e para sobremesa, também. Ligou para o primeiro nome que veio em sua cabeça e convidou a voz do outro da linha para um jantar. Organizou tudo, deu comida para o gato, decorou a mesa, cozinhou, tomou um banho, vestiu o corselet, abriu a porta de casa e, com o copo de whisky na mão, esperou sua visita chegar. O jantar foi agradável e a conversa extremamente calorosa, Amigos fazem bem. Deitou a cabeça na almofada do sofá e adormeceu. Já passava do meio-dia.
Paula Cristina.

sábado, 23 de outubro de 2010

Lugar vago

O telefone tocou e um suspiro agudo saiu das gargantas, pesando o ar a volta. doeu no peito, nos olhos, nos ouvidos e deixou muda a boca que tanto falava. Lá fora, o céu de um azul radiante contrastava com a notícia que ouvia. Aos poucos todas as lembranças foram se tornando opacas, embassadas, distorcidas e tudo mudou de um vermelho para um cinza tão claro que era quase impossível notar.O barco, antes à deriva, agora posto ao mar, navegando, distanciando daquela terra que tanto se pensou. Algum lugar além daquele alguma coisa esperava por ele. Alguma coisa que ninguém jamais soube o que era. A luz do farol se apagou, ele jamais voltaria, por escolha também dela. As cortinas foram fechadas e o jantar posto à mesa, como sempre fora. Agora com uma simples diferença, o lugar estava vago e fora tomado.


Paula Cristina.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A inconstância que flui como vida no ar que respiro

Minha insconstância às vezes me prega peças de mal gosto. Falo algo que realmente penso do fundo de meu ser, mas em cinco minutos provavelmente não lembrarei e não concordarei com aquilo que pensei como mais verdadeiro e que pronunciei como se fosse imutável. A única coisa que não muda em mim com o tempo é o amor, o carinho que sinto. A forma de expressá-los pode mudar e, com certeza, vai mudar, mas o sentimento fica ali imutável, estável. O resto é passageiro, imoral, perdido no tempo e no espaço. O que fui a nove minutos atrás deixou de ser. Isso causa rebuliço e revolta naqueles que tem o espírito estável. Nunca entendi pessoas que morrem sem mudar de idéia, de vida, de mundos. Parece que nunca aprendem, que não sabem o que é ser de outra forma e isso é triste (assim EU o penso). Queria dizer a essas pessoas que sinto muito por ser tão inconstante, mas a verdade é que estaria mentindo pra elas. Adoro essa dialética que nunca me deixa parada, asfixiada, esquecendo de mim e de todas as personalidades que fui, que sou e que serei um dia.
Paula Cristina.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Fétido

Ele passou, o coração acelerou, mas nada podia fazer. Aprendeu da forma mais fétida e podre que as pessoas se deixam sofrer por amores. Não podia mais amar, porque quem ela amava era proibido. A dor foi relutante, queimou por dentro, tirou o sono, tirou alegias e os risos soltos que saíam de sua garganta todos os dias. Tudo que via eram formas embaçadas por trás das lágrimas que teimavam em cair. Ninguém sabia a dor que era pra ela causar sofrimento, especialmente sem nunca ter pretendido e jamais pensado que aquilo poderia acontecer. A noite adentrava deixando tudo doído fétido, perdido. Fétido. Essa era a descrição para a casa nesse momento. Os zumbis entravam e faziam algazarra com a carne podre que ficou espalhada depois da morte bruta que sucedeu a sua dor. A sua dor era incompreendida pela única pessoa que precisava compreender. Agora entendia o que a poção da horcrux conseguia causar nas pessoas. Dor, fétido, podre, morte, zumbi.


Paula Cristina.

domingo, 17 de outubro de 2010

Perdera-se em si mesma

Quando percebeu a realidade pesada que atingiu seu mundo particular, o ar fugiu dos pulmões, não sentia nada, não podia dizer nada. Viu o mundo desabar diante de seus olhos com tanta dor, com tanto peso de consciência. Será que era tão cruel assim? Será que seria percebida daquela forma também? Viu seus piores temores surgirem de seu mais íntimo: seria um monstro disfarçado de donzela? Um tubarão disfarçado de sereia? Doía tanto pensar assim. Não queria magoar ninguém. Principalmente ela. Era como se tivesse escolhido colocar uma barreira dura, pesada, impossível de tirar. Nunca seria a mesma coisa. Tornara-se imoral no pior sentido. Sabia que sempre fora imoral, mas dessa vez passara dos limites, inclusive para si. Como doía pensar que era a pessoa mais sem coração que poderia existir. Com doía pensar que causava tantos estragos quanto um tornado nº4. Era uma aberração dos próprios princípios, porque viveu tendo princípios, mas sempre quebrando-os em pedaços simples, pequenos, irrelevantes. Tornara-se uma lástima emocional, um ser humano desprezível, alguém sem sentimentos, sem importância, sem força, covarde, baixa. Não importava. Perdera-se em si mesma.
Paula Cristina.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

amor

Você acorda um dia e decsobre que tudo que sempre quis não foi exatamente do jeito que esperava, mas acabou se mostrando melhor do que acreditava poder ser. Olha ao redor e descobre o mar de pessoas e mundos e fantasias que se tornaram realidade em seu mundinho pequeno, naquele que você acreditava que cabia só você. Descobre sabores novos, sensações novas e tudo passa a ser lindo. Percebe que as pessoas que mais te fazem bem sempre fizeram parte de seu mundinho particular, você só não deixava que elas se apromixassem tanto por ter acreditado nas pessoas erradas. É então nessa hora que o sorriso cresce e todo o mundo vê que você é a pessoa mais feliz e sortuda da face da terra, porque você encontrou o que todo mundo procura: amor. Mas você só encontrou porque deixou aqueles pensamentos pessimistas de lado e passou a ver o lado maravilhoso de cada ser humano. Não que você goste de todas as pessoas e não se irrita com algumas, mas isso se torna raridade, porque alguma coisa de bom todo mundo tem. Descobre que as melhores histórias são as melhores, porque existe cumplicidade na conversa e muito, muito carinho de ambas as partes. Aprende que o amor fraternal existe em todo lugar e que é só uma questão de deixá-lo fazer parte de sua vida. Aprende também que pode amar e não ser correspondido e nem por isso deixa de ser bonito, pelo contrário: amar por amar é muito mais sublime que qualquer coisa no mundo. Aprende que existem mundos diferentes e que, para lidar com eles, é necessário apenas um sorriso, um coração aberto e um aperto de mão. Descobre, acima de tudo, que a busca de um Deus é a busca de um amor, a busca de uma ciência é também a busca de um amor. Porque no final das contas é tudo que temos para dar e receber em qualquer situação: amor.
Paula Cristina.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Homenagem a Alaor

"A neblina amarela que roça as espáduas na vidraça,
A fumaça amarela que na vidraça o focinho esfrega
E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo,
Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta,
Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés,
Deslizou furtiva no terraço, alçou um repentino salto,
E ao perceber que era uma tenra noite de outubro,
Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu."
-T.S. Eliot-
Você se foi, assim, como num piscar de olhos. Esperou outubro, sabe-se lá porque. Seus olhos ainda pairam por todos os lugares que um dia visitou trazendo amor, paz, tranquilidade. O seu sorriso antes tão alegre e bonito não fará parte mais do futuro tão pensado ao seu lado. Você se foi e tudo que posso fazer é derramar lágrimas de conformidade e seguir em frente. Você que foi tantas vezes forte e tantas vezes guerreiro, deixou um ninho de amor ainda por ser descoberto. E o carinho que você plantou cresceu como as tantas plantas que você cultivou em nossos jardins. Não há no mundo quem te conheça e não te goste. Não há pesar maior do que o de não ter suas brincadeiras, seus sorrisos e olhares. Você com seu jeito simples de ser cativou corações e almas e se fez presente da forma mais doce possível. Você foi avô, pai, marido, amigo, sogro. Sentirei sua falta eternamente.
Paula Cristina

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O abraço

Estava ali, alheia ao mundo, sem saber por onde andar. De repente um abraço, o abraço mais lindo do mundo. Daqueles abraços espontâneos que dá vontade de retribuir e não soltar nunca. Mas o material seguro ao peito não deixou que o abraço concluísse com sucesso o seu objetivo. Que vontade daquele abraço: da sinceridade estampada no ato, do carinho, da leveza. Foi lindo, mas como tudo de mais bonito no mundo, durou apenas tempo suficiente para marcar, para mudar, revolucionar. Aquele era o abraço mais bonito do mundo!
Paula Cristina.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Uma noite perfeita

Não sabe se é dom ou maldição esse ir e vir consciente. Sabe que no fundo se importa, mas então, quando vê a dor que pode arrebatá-la e amordaçá-la, simplesmente vira na próxima esquina, se esquivando de tal forma que nem Freud explicaria. O controle se torna extremo e a tristeza de não tê-lo simplesmente paira em um "meio plano" considerado inexistente. Tudo muda e a paz instaura. A força volta de forma brutal e quando vê já não é mais a vítima, mas o caçador e tudo passa a não ter tanta importância quanto se pensava ter. Talvez a linha para a sociopatia esteja a milímetros, talvez seja apenas uma hipocondria aguda. Não sabe ao certo. As luzes começam a acender na rua. A música tocando suave um blues inconfundível, o barulho do msn, as teclas e o mouse usados compulsivamente. O livro de cabeceira em cima da mesa. O cigarro posto no cinzeiro com cuidado esperando ser reutilizado enquanto aceso. A cerveja também posta de forma a ser alcançada, o porta copo embaixo já molhado pelo tempo. A brisa leve entrando pela janela lembrando-a que existe um mundo lá fora e que ele é lindo e ela sorri por um momento enquanto mantém as mãos escrevendo, freneticamente escrevendo. Tudo parece tirá-la daquele transe que manteve por dias. Um transe inexplicável. Ela saía dele com a cabeça erguida, um sorriso no rosto e a forte vontade de sentir todas as sensações corporais possíveis. Uma boa comida, uma boa bebida, uma brisa suave, a água percorrendo seu corpo, o toque suave de uma roupa leve, limpa, o cheiro do perfume, o toque do hidratante, um livro, um silêncio, uma noite perfeita.
Paula Cristina.

domingo, 26 de setembro de 2010

Preciso

Preciso de uns dias cheios, onde não pense em nada além daquilo que preciso fazer. Preciso de uns dias sem internet, sem passadas que me levam a sua porta. Preciso de algo que me tire os pensamentos e que não me deixe louca por completo. Quem sabe um passeio pela praça e a leitura de diversificados livros ao mesmo tempo. Quem sabe um pouco de açaí misturado com um bom banho de cachoeira regados a momentos de dança e descontração. Um pouco de música ao fundo e uma boa garrafa de rum. Talvez alguma coisa mude até em mim e tudo passe. Apenas passe.
Paula Cristina.

A um passo

Era tudo tão simples, eu não gostava, eles não sabiam, eu seguia em frente, de cabeça erguida, mudando tudo à minha volta. Mantinha minha vida tão calma quanto possível e tão simples quanto sempre foi. Nada além, nada diferente. A insônia deixava de existir depois de um tempo, porque ela era causada pelo não conhecimento do que poderia ser e eu nunca achava que seria algo. Era apenas uma coisa que mudaria, que transformaria, mas que não serviria muito para o que quer que fosse. Mas então a insônia e os sonhos pertubados voltaram juntamente com um sorriso que só sai do rosto quando vêm as lágrimas de medo do desconhecido. Eu poderia me apaixonar loucamente e estou a um passo de fazê-lo. Estou a um passo de te olhar nos olhos e sentir sua mão segurando a minha. Estou a um passo de sentir seu cheiro de longe e a um passo de te ver em todas as esquinas. Estou a um passo de ser a pessoa mais romântica do mundo, a um passo de ter alguém e isso é, no mínimo, diferente. Estou a um passo de você e não sei se encontrarei um abismo ou uma mão pra me confortar na minha escuridão.


Paula Cristina.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Loucura

Confesso escandalosamente que perdi a noção quando as botas tocaram o carpete macio. Meus pés soltos no ar pediam um chão em que pudessem fincar os dedos para confirmação de uma terra firme, segura. Não acharam nada além da nítida falta de juízo que se apoderava de minhas idéias insanas de liberdade extrema. E que liberdade! Depois de um tempo o corpo se acostuma com a loucura e, a procura por estabilidade é apenas durante uns míseros segundos em que se confirma que a certeza já era, sumiu. Os braços abertos, a brisa percorrendo todo o corpo, a adrenalina subindo às alturas. Como era fácil voar! De braços dados, esperando que qualquer coisa fizesse cair. E quando se pensou que não, o olhar estava lá e soube que sua liberdade era linda. A mais linda e pura de todas. Deitou a cabeça nas nuvens. Podia sonhar, pelo menos, aquele dia. As botas permaneciam ali, no carpete, agora já úmido. Esperaram por uma eternidade, quase se desmanchando em desespero de serem calçadas, mas não foram calçadas, nem seriam. Os pés tocaram o solo e eu, de modo louco e febril, sai correndo, esperando a brisa voltar, esperando a liberdade voltar. Elas voltaram e não quiseram sair. Hoje, pedem licença tantas vezes mais para se apoderarem por algumas horas de meu tempo e tudo que posso dizer é que fico feliz. Fico feliz de saber que ainda amo, que ainda me espanto e me acalmo. E quando a loucura bater eu a abraço bem forte, só pra ter certeza que ela permanece em mim. Eu a amo, porque ela é parte de mim.
Paula Cristina.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Um cara

Você veio e se foi e eu fiquei esperando parada, ouvindo a música ao longe e fingindo ver algo além dos olhos. Não via nada. Tudo que sabia era o beijo que você me deu. Calmo, sedutor, forte. De repente senti sua mão esvaziando a minha e quando me dei conta estava sozinha. A diferença é que eu não queria estar sozinha, queria estar contínua, queria estar junto.


Marie Anne.

Ser diferente

Ser diferente me permite estar longe quando preciso e perto quando necessito. Ser diferente, me permite sorrir com as loucuras alheias e amar as falhas acometidas e até querer algo além de mim para dar sombra a um necessitado. Ser diferente me permite impressionar aqueles que já não se impressionam mais e amar aqueles que não se amam. Ser diferente me permite ser louca, feliz, corriqueira, perdida, santa, quieta, querida, álcoolatra, drogada passível. Ser diferente me permite ser livre, mesmo impossibilitada de alguma forma. Ser diferente me permite amar da forma mais estranha e mais linda que posso e compreender pessoas, simplesmente porque são o completo oposto de mim e ainda conseguir ver um resquício de igualdade. Ser diferente me permite ser eclética, sem opinião e com opinião demais, tudo ao mesmo tempo. Ser diferente me permite ver e experenciar o mundo do modo como eu o vejo, o amo e o sinto. Ser diferente, simplesmente, por amar ser diferente.
Paula Cristina.

domingo, 19 de setembro de 2010

Ela ainda não se recorda

O celular tocou pausadamente, enquanto ela esperava ser atendida. não foi atendida, pegou a bolsa, batendo a porta às suas costas. A noite estava agradável. Os carros passavam alheios a ela. Perdida em seus próprios pensamentos parou diante de uma praça linda, foi até o barzinho da esqina, comprou uma cerveja e sentou em um banco da praça. Ele nunca retornou e ela esqueceu da ligação, esqueceu dele. Passados dois anos, ela ainda não se recorda. A paz se instaurara sem que percebesse. A praça ainda está lá e todos os dias, ela também, com a cerveja e o cigarro na mão.





Paula Cristina.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Os livros me ensinaram

Os livros me tiraram da cabeça e puseram no coração. Os livros me ensinaram a sorrir de novo e a viver de novo. Os livros me tiraram a solidão e colocaram saudades em meu coração. Os livros me ensinaram a esquecê-los de vez enquando para que eu me lembrasse de mim sempre. Os livros me ensinaram que apesar do medo, não adianta eu me esconder: eu estou ali, nua e crua, esperando ser amada e compreendida por ninguém mais que eu mesma. Os livros me ensinaram tanto, mas não me ensinaram a acostumar com as tristezas. Para eles, se eu me acostumar com as dores, esquecerei a sensação de sentir e o mais bonito da vida é sentir. Sentir o frescor da brisa que balança a copa da árvore, sentir o gosto da sua bebida favorita, sentir o toque de alguém especial, sentir o roçar das folhas em contato com o dedo, sentir a água percorrendo o corpo. Sentir, apenas sentir. Isso, os livros me ensinaram sublimemente e eu nunca esqueci.
Paula Cristina.

sábado, 11 de setembro de 2010

Que culpa eu tenho?

Que culpa eu tenho se me apaixonei por um canário? Que culpa eu tenho se não admito para ninguém? Que culpa eu tenho se o mundo espera uma coisa e eu só vivo outra? Que culpa eu tenho de não confiar se o mundo me ensina a fazê-lo? Que culpa eu tenho de viver confusa, assustada e completamente amordaçada? Que culpa eu tenho pelas culpas que carrego? Odeio me sentir culpada e, por ironia, sou culpada o dia inteiro, o tempo todo. Que culpa eu tenho?

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O olhar

Há quanto tempo não existiam olhares como aquele. Ele olhou e o corpo dela arrepiou todo com um olhar. Era tão penetrante que não conseguia mantê-lo, por mais que quisesse. Lindo, sensual, atraente, engraçado, divertido, inteligente e... que olhar! Olhares nunca faltaram, mas este era diferente, era especial. Pela primeira vez, em anos, ela queria corresponder um olhar. Como foi divertido e emocionante, como a tempos não era. E foi assim o dia inteiro, a noite inteira, a manhã inteira. E a vontade de reencontrar aquele olhar? A vontade de se deixar levar era enorme. O obstáculo lançado e a perguntava não se calava: será que foi tudo imaginação, será que só ela queria? Talvez nunca saiba, talvez nunca mais o encontre. A idéia é torcer para que tudo dê certo, mesmo que nada indique que dará.
Paula Cristina.

sábado, 7 de agosto de 2010

A noite

O cigarro ardia, pedindo ser consumido por mãos ageis, lábios fortes. Ela arriscava uma olhada ao isqueiro por tempo suficiente e esmagador. A água esperando para ser tomada, o remédio em cima da pia. Todos esperando a decisão final. Levou a água a boca, jogou o remédio no ralo da pia. Consumiu as 510ml de água, pegou o cigarro, aproveitou e levou o maço consigo, pegou o isqueiro, sentou na varanda. A lua estava linda, dourada, esperando para ser adorada. Os pensamentos passavam calmamente por sua cabeça. Nada triste, desesperado, nada tirava a paz, nada a arrancava daquele estado. Lembrou das dores, mas já não doíam, eram apenas lembranças. Cigarro, boca, cigarro, boca, lua. Cigarro, boca, cigarro, boca, sorriso, lua. E foi assim a noite inteira. Noturna, sempre fora noturna. Hoje não importava, hoje era apenas uma qualidade, um modo de vida. O sol ia surgindo no horizonte, levantou e com um sorriso em seu rosto pronunciou "Bom dia mundo". O café sairia daqui a alguns minutos, o cansasso não mais existia.
Paula Cristina.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Uma nova cicatriz

Acordou com uma vontade súbita de se despir emocionalmente. Nunca fizera isso antes. Envergonhada comprou um picolé para ver se passava aquela vontade louca, estúpida, contida como sempre. Não passou. Caminhou pelas ruas da cidade, passou por praças, tirou fotos, observou pessoas, mas nada tirava aquela vontade insana da cabeça. Ouviu música, mexeu no computador, assistiu tevê e, ainda assim, a maldita da vontade estava lá. Aquele desejo incontrolável tomava cada vez mais posse do que era seu, esquecendo que existem pessoas e que pessoas não se importam com nada que seja muito emocional, a não ser que elas o sejam também. Jogou baralho, bebeu, fumou, passeou com os cachorros. Dirigiu, ensurdeceu, esqueceu o mundo, leu um livro, estudou. A vontade continuava forte, apertada no peito como um balão prestes a explodir. Procurou seu amante de sempre, quem sabe ele não tirava aquele desejo dentro do peito? Vontade e desejo é falta de coisas interessantes para fazer, quem sabe não fez nada de interessante pensando que fez? Não adiantou, para variar. Então se enconlheu em seu quarto, escondida de todos e se pôs a chorar. Chorou até não ter ar, até os soluços pararem por falta de força corporal, até o corpo se esgotar e dormir. Quem disse que desapegar é fácil, quando tudo que se queria é tudo que nunca se teve e de repente surge e some como um passe de mágica? Os olhos secaram, mas a ferida continua aberta, firme. Cicatrizes podem ser lindas, mas ainda assim doem ao cicatrizar.


Paula Cristina.

domingo, 1 de agosto de 2010

Dez dias

Dez dias. Sessenta e duas vidas entrelaçadas. Mal sabiam o que as esperavam. Cansasso, exaustão, cumplicidade, carinho, amizade, cuidado. Apenas palavras que não descrevem com exatidão o sentimento completo instaurado naquele grupo. O olhar vago e assustado de alguns se tornou forte e poderoso com o tempo, o olhar provocantes de uns inspirou outros. Todos se cuidaram pelos dias afora. As lágrimas caindo e molhando rostos, borrando-os, deixando-os um pouco difrente do que deveriam mostrar. Doía porque sabiam que tinham mudado, crescido, se sustentado ali. Por favor, tragam tudo de volta! O cansasso passa, as idéias fluem e tenho que praticar o desapego mais uma vez, como em tantas outras vezes. Mas a verdade é que praticar o desapego às vezes dói, porque é exatamente aquilo que sempre quis e nunca encontrou e de repente evapora das mãos como se nada existisse, a não ser a lembrança do que foi. E volta-se então, para aquela vida de sempre pacata, sombria, esperando ser algo que nunca foi, que será um dia, mas não se sabe quando ao certo. Como amei esses dez dias. Como chorei dentro da alma. Não, eu não soube praticar o desapego, não com os dez dias.
Paula Cristina.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Na vida, tudo depende

Entraram. Eram tantos: tantas histórias, tantas vidas, tantas decepções, tantos amores, tantos agrados. Olharam-se, cumprimentaram-se. Um por um foram ocupando espaços, bons ou ruins, ainda eram espaços. Conversaram, riram, falaram de si. Algumas amizades se fortaleceram, outras nem tanto ficaram para trás com uma vontade de quero mais reprimida que deixaria marcas, feridas e indiferenças por toda a vida. Tudo depende de um olhar, tudo depende de um sorriso, tudo depende de uma palavra. As circunstâncias mudaram, as pessoas mudaram, os relacionamentos mudaram. No final das contas, na vida, tudo depende das circuntâncias, de cada pessoa, do clima. Tudo depende, tudo interliga, tudo é muito complexo. Sempre tem dois lados, sempre tem, pelo menos, dois fatos. Tudo depende.


Paula Cristina.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O estranho

E os olhos, os olhos.... é tudo que sei dizer daquilo que não foi dito. Fiquem cegos, por favor e me deixem dormir. A noite cala abertamente e tudo que se sabe são as horas incertas de momentos perdidos e os surtos constantes de quem vive à procura de um centro. Qual a linha de reciocínio que se deve tomar? Qual o caminho a seguir? Tudo tão incerto, tão fora do destino. Não faz mal, destino é para os fracos de espírito que não sabem fazer de suas atitudes momentos perdidos. Seja bem vindo, o jardim é logo ali atrás. Não, não quero que entres, mas sinto que não tenho escolha. A piscina vazia, o copo na mão. Quem é você, estranho que não me deixa dormir? Que não me deixa passar e simplesmente ouvir a música que não vou lembrar ter escutado? Quem é você para entrar na minha casa e sujar minhas cortinas? Vá embora, não te quero aqui. A porta bate e eu vou dormir. Boa noite.
Paula Cristina

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O problema do amor

O problema do amor é que você entra pra ganhar ou perder e nunca sabe as chances que tem realmente. É como jogar na loteria, ou aplicar na bolsa de valores, é uma montanha russa esquisita. Primeiro porque você tem que se acostumar com uma pessoa se enfiando na sua vida; segundo porque você tem que se enfiar na vida de uma outra pessoa; terceiro porque existe expectativas dos dois lados e nunca são realistas; quarto porque se você se machucar vai ser MUITO e vai doer muito e se você se separar da pessoa, uma parte sua vai com ela. É uma responsabilidade e uma loucura mútua e completamente arriscada . Uma vez que se ama, se ama para sempre. Aquela parte sua vai embora com a outra pessoa. Já não é só uma parte, mas uma comunhão de partes e, a não ser que se esteja realmente certa da imortalidade, porque tentar se estraçalhar? Mas porque, mesmo assim, procurar amor? Amor não se procura, se acha. Mas e se não for amor? E se for algo menos ou algo mais? Existe algo mais? Se existe, digo que quem achou é um felizardo. E no final das contas, o maior problema do amor e justamente deixar as pessoas assim, sem ar, sem lugar, até que se ache um amor.
Paula Cristina.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A voz no telefone

O telefone tocou uma, duas, três vezes e do outro lado uma voz diferente, mas conhecida atendeu. Estava tão perdida em pensamentos e barulhos externos e internos que não conseguia raciocinar de quem era a voz. "Quer falar com quem?" - perguntou. Responde o nome da amiga. "Ela não está aqui agora, quem é?". "Mary Anne." a voz responde: "Mary Anne? Quando ela voltar, aviso que você ligou. É o Thomas quem está falando." Ela responde "Quem?", ele: "Thomas". Ficou sem reação. Ele sabia que era ela, tinha certeza agora. A pergunta foi mais uma forma para dizer quem falava. O coração bateu acelerado. Será que era ele mesmo? Existem tantos Thomas no mundo. Mas não, devia ser ele! Só podia ser ele! Desligou o telefone, ainda sem reação. O sorriso se alargou na face. Que saudade. Que saudade.
Paula Cristina.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Talvez

E a decepção caiu, mais uma vez, como uma luva. A sinceridade que se esperava se tornou implicantemente traiçoeira. E a vontade é de matar quem quer que seja. Tudo bem que a sinceridade sempre foi o que mais fez, mas às vezes se escorrega, mas dessa vez foi tudo mil falsidades, tudo mil perdições, tudo ridiculamente falseado. Será que algum dia ela soube do acontecimento, será que algum dia ela soube que o acontecimento fez tudo doer. Será que ela sabe do arrependimento? Talvez enquanto se acha que ela foi a falsa, na verdade ela se sente a vítima. É, talvez.
Paula Cristina.

A vida é uma busca da beleza e a arte acaba com a solidão.... - trecho um pouco modificado de Marlena De Blasi

Correu até não poder mais, até as pernas arderem. Tomou um banho, escreveu mais um texto revelador, cheio de vontade de viver, de ser real, deitou na cama e dormiu. Acordou na mesma posição, calmamente levantou, lavou o rosto, escovou os dentes, tomou café, escovou os dentes de novo. Vestiu uma roupa, a primeira que viu no guarda roupas, calçou o tênis, passou perfume, pegou um brinco, uma pulseira, um colar, um anel. No carro a música a animava , a medalinha em sua bolsa ficou aparente e ela então se lembrou de como costumava ficar e percebeu que mesmo não sendo a tempos atrás, parecia que era. Sorriu e deixou a medalinha ali, à vista. A medalinha já não era uma coisa que a lembrava da guerra que travava todos os dias consigo, era algo que a lembrava de como foi um dia difícil chegar ali e como agora ela estava bem. O esforço valeu, as lágrimas serviram de crescimento e o sorriso era tudo que tinha e que agora ocupava o lugar da dor que antes reinava. Ao seu lado, hahaiah sorria um sorriso calmo, um sorriso lindo e apesar de ter tanto para contar de sua felicidade, tudo que consiguiu dizer foi "Bom dia, meu anjo querido."
Paula Cristina.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Sinto muito, meu amor.

Se tenho algo a dizer? Tenho muito a dizer, mais do que imagina. Se te amo, te amo demais. Se te odeio, odeio de menos. Não nasci para provocar dores, nasci para amar, cuidar. Existem pessoas que não querem esse cuidado e disso, nada posso fazer. Se me importo, é porque você merece. Se eu parto, é porque a dor que você me aflinge é insuportável. Não sei se te amo, se gosto ou simplesmente se me acostumei a dizer que te amo, que te gosto. Isso não vem ao caso, o que se torna discutível aqui é justamente o fato de permanecermos como se nada tivesse mudado. De onde vem essa necessidade louca que não nos deixa ir embora, nem permanecer? Preciso de paz, de tranquilidade, de auto-satisfação e a sua luxúria me deixa em pedaços, em frangalhos, mesmo que eu esteja bem aparentemente. Se me dou, me dou por inteira e não posso te dar cerejas, você não aceitou os lírios, apesar da minha insistência. Você diz que sente minha falta, mas eu não sei o que isso quer dizer. Se tantas vezes tentei dar certo, porque só agora que desisti você volta para mim? O que significa essa falta sua, essa falta minha, essa falta mútua? Já não sei te amo ainda e não sei o que dizer a você. Você diz que sou diferente, que comigo é diferente. Concordo, sou mesmo diferente. Mas o que fazer com isso? O que fazer com o amor que você dá e que não quero receber, tenho medo de receber? Posso até retribuir, mas será diferente do que você espera. No final das contas, tudo que posso fazer é me deixar ser querida. Aquela parte de mim que te amava, idolatrava e esquecia de si para te agradar foi embora, desgastou, morreu, mudou. Aquela parte de mim fez o que sou hoje, aquela parte de mim me ensinou a me amar. Aquela parte de mim morreu com as mordaças que você a inflingiu. Aquela parte de mim no passado ficou. Mantive uma posição até agora de que não mais te amo. Menti. Amo tanto, que dói pensar que amo, dói porque você nunca conseguiu manter aquilo que a gente tentou construir. E hoje eu digo adeus. Sinto muito, meu amor.
Paula Cristina.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

"Na vida de cada um de nós... há um lugar, remoto e ilhado, escolhido para remorso interminável ou para a felicidade secreta." Sara Orne Jewett

Ah, como o homem é cruel às vezes. Com sua vontade de manter, estraçalha corações, esquece que existe um ser ali, do outro lado do espelho se entregando, se retorcendo. Como torço para que o ser do outro lado do espelho saiba voltar a si. Nas horas de desespero, oro que o ser saiba chegar ao seu "lugar feliz". Será que ele tem? Será que não? Torço que sim, oro que sim, rogo que sim. É desse lugar que todos os seres precisam, principalmente em um mundo tão incrivelmente conturbado. De um lugar em que se possa voltar para relaxar a tensão e distribuir calmaria. Você conhece o seu? Já visitou o seu? É uma casa no lago? Ou uma praia, quem sabe? Uma fazenda, com bois e tudo? Ou a grande cidade? É um amor à noite? Ou uma amiga que acolhe? Pode ser um livro também, ou um jardim de rosas. Qual é o seu lugar? Você o visita mentalmente? Lembra dos cheiros que ele evoca ou da brisa leve? Encontre o seu lugar e não o deixe desmoronar, é para ele que a gente volta, é nele que a gente vive, é ele que vai dizer se choramos ou se sorrimos. Qual é o seu lugar?
Paula Cristina.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Às vezes é necessário cavar.

Me pedem que me explique, que eu dê justificativas confortáveis para um porque me saí mal, porque não sou uma boa aluna, ou até sou, mas porque não me saí bem nisso ou naquilo outro. Pedem que minhas justificativas cheguem ao professor, porque assim ele vai compreender. Mas essa não é a questão, nunca foi. Sou mais do que meras explicações e isso me traz em evidência. A partir do momento que me explico, sou mais cobrada ainda, tenho que correr atrás de um prejuízo e ainda demonstrar que estou correndo para dizer "viu, sou aplicada, era só uma fase...". Não, não e não! Prefiro assumir consequências de dores, de problemas. Já basta minha culpa e ainda devo carregar o peso das expectativas de outrem? Não, não e não. Tudo na vida tem explicação, mas o mundo não pára para que consertemos as coisas, para que reorganizemos as coisas. Um furacão passa, destrói casas e acabou! Pode-se construir outra, mas não tem ninguém para passar a mão e dizer "vem cá, minha casa é muito linda, não te conheço, mas eu posso te acolher". O mundo não é assim, nunca foi assim. Pode estar tudo despedaçado, mas não me desculpo. Não me desculpo, não por orgulho, é mais um senso de responsabilidade pessoal. Aquela que a maioria esqueceu por aí. Essa responsabilidade pessoal me deixa às vezes fadada a dores, desencontros e até más interpretações, mas sejamos sinceros: sem ela passamos a vida inteira dependendo de uma mão na cabeça, um bengala para apoiar e uma luz para guiar. Vou te contar uma coisa: nem sempre existe luz no fim do túnel, às vezes é necessário cavar.
Paula Cristina.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Tem dias....

Tem dias que simplesmente não se tem nada para dizer e é justamente aquele dia em que mais se quer falar. Tem dias que a pulga acorda atrás da orelha e que se veste a blusa ao contrário. Tem dias que tudo sai de linha e é justamente nesses dias que se é mais do que pensaria que podia ser. Tem dias que se acordou com o pé esquerdo, mas tudo parece lindo, tem dias que tudo deu certo, mas parece que está tudo errado. Tem aqueles dias ainda que se vira bicho, tem dias que se vira água. Tem dias, tem dias, tem dias. Tem dias como hoje, que não se tem nada para escrever, mas a vontade de fazer um "super-big" texto é enorme. Tem dias que as coisas não fluem e tem dias que fluem até demais. Tem dias......... t e m d i a s que tudo parece estranho, meio ambíguo, bizarro escaldante. Tem dias que as idéias parecem ridículas e perfeitas, ao mesmo tempo e cabe a alguém dizer o que achou delas. Tem dias que as cores estão mais cores e o céu está mais perto. Tem dias que o anel vira aliança e a aliança vira pepita. Tem dias que as músicas são lindas e os inimigos são fofinhos. Tem dias, como esse, que se quer gritar e dançar e pular e nadar e jogar. Tem dias, tem dias, tem dias. Tem dias que é assim, repetitivo, mas lindo; zumbi, mas sexy; pirado, mas sábio; largado, mas centrado. Tem dias que é assim, tudo no preto e no branco e é bonito por isso. Tem dias que as cores podem ser fortes, mas ainda assim mostram a leveza de se viver no preto e branco contratado por cores fortes. Tem dias que é lindo ser louca.
Paula Cristina.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Lírio

A rosa vermelha vivia em um jardim só de rosas. O lírio apaixonou-se pela rosa e tentava sempre arrancá-la do jardim. A rosa, não aceitava, tinha criado raízes, aquele era seu jardim, seu lar. O lírio chorava noites e noites desesperado. A rosa, quando se sentia sozinha chamava o lírio para um jantar. O lírio, que não sentia que tinha casa ia, queria uma casa com a rosa. A rosa insistia que ficassem a se ver apenas nas épocas que sentia solitária, eles não dariam certo juntos, eram muito diferentes. O lírio insistia, chorava, pedia, sofria sozinho. A rosa não percebia a insistência, pois o lírio sofria sozinho, não deixava que vissem sua alma, sua dor. A rosa vermelha então se apaixonou por uma rosa branca e o lírio ficou solitário, doente, machucado, perdido. A rosa não soube disso. Em um dia nublado o lírio viu a rosa caída no chão, despedaçada. A rosa estava morta. O lírio em desespero guardou suas pétalas vermelhas e assim seguiu sua vida, sempre de luto, pois a rosa morrera. Passou anos sofrendo a mesmo dor, o mesmo luto. Mas o vento veio mais forte e desarrumou tudo em sua casa e as pétalas ficaram expostas. O vento não deixou que elas se escondessem mais uma vez, porque só assim o lírio perceberia que a rosa tinha morrido. Foram noites insones, em que as plantas vizinhas ouviam os gritos de dor e as lágrimas caindo de lírio. Um beija-flor tentou acalmar o lírio e de nada adiantou, outras flores tentaram viver com lírio, mas lírio só queria a rosa vermelha. Então um dia, um sábio dente-de-leão chegou ao jardim de lírio e conversou por dias com lírio, nada foi dito ao sábio sobre rosa vermelha. Todos preocupados querendo contar ao sábio, mas ele os interrompia e dizia que na hora certa lírio contaria a ele a sua dor. Lírio acordou um dia, recolheu todas as pétalas de rosa vermelha e bateu na porta da casa do sábio. "Preciso que me ajude com uma coisa. Tenho uma homenagem a prestar a uma pessoa muito especial, mas gostaria que fosse eterna, algo que dure por muito tempo." O sábio concordou em ajudar sem perguntar nada à lírio. Foram dias e dias e todos na cidade curiosos com o que lírio estava fazendo na praça em frente à sua casa. Chegado o dia de descobrir o que lírio armava durante todo esse tempo, todas as flores saíram no jardim e viram uma estátua enorme de rosa vermelha com um pano cobrindo suas raízes. Lírio subiu em um palco improvizado e fez uma homenagem à rosa vermelha e descobriu suas raízes onde tinha gravado as seguintes palavras: "Você procurou alguém que a amasse, eu te amei. Você morreu a anos atrás, mas só hoje morreu dentro de mim. Você me contou sobre superação. Hoje eu superei o passado e minha dores. Quem sabe um dia possamos ficar juntos, mas não hoje. Tenho muito a viver ainda. Eu te amo." Não se sabe ao certo o que aconteceu com lírio, tudo que se sabe é que se mudou para um jardim à beira de um rio e foi muito feliz.


Paula Cristina.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Sussurros de Hahahiah

Cansada de mecher no livro de receitas deitou e tentou fechar a mente. Ultimamente sentia-se exausta. Levantou, tomou um banho, se arrumou e saiu. Mal chegara na festa ele apareceu. Aquele ar de galã sempre o rondando. Como odiava aquilo. Ele sabia deixá-la completamente sem ar, sem chão. Respirou fundo para que ninguém notasse as lágrimas que brigavam com seu corpo para surgir sob os olhos e manchar a maquiagem. Cumprimentou-o como se fosse um qualquer, mesmo querendo gritar a todos os pulmões "PORQUE NÃO EU?". A música ensurdecedora parecia cantiga de ninar de tanto caos empreguinado em si. Dirigiu-se ao bar, preparou um coquetel, virou à esquerda a um canto para encontrar um lugar onde pudesse sentar sozinha, com a música tocando levemente de longe, onde as sombras esconderiam a dor transparecida em suas mãos trêmulas. Achou o lugar perfeito: a beira de uma piscina, sob um lua de sangue. Alguma coisa estava por acontecer da qual ela teria que se afastar, mas o que? Ficou ali sabe-se quanto tempo até ouvir a voz dele em suas costas. De um sobressalto virou, deixando um pouco do coquetel cair na piscina. Ele sentou ao seu lado e nada disse por um tempo. Quando menos se esperava disse que ela estava sumida e que gostaria de sair com ela. Ela não acreditava no que ouvia, mas dessa vez tinha que ser mais forte, por ele e por ela. Negou o convite, inventou uma desculpa qualquer. Ele insistiu, ela também. Ficaram em silêncio mais uma vez. Seu coração já não batia loucamente, mas a felicidade que sentia em tê-lo por perto era incrivelmente dolorosa. Ele ia embora no dia seguinte e todas as promessas seriam passado quando a noite acabasse, como foi tantas e tantas vezes. O sangue na lua era a dor dela, a dor que a lua avisara que sentiria. Levantou, não devia ficar ali, sabia que sua dor era muito grande para resisti-lo por mais tempo. Foi embora da festa sem cumprimentar, nem despedir de ninguém. As lágrimas agora corriam soltas e no dia seguinte, lá estará ele com aquela que ele escolheu como sua mulher, enquanto ela, entre olhares doídos fingia um sorriso ao vê-los juntos. Aquela poderia ter sido ela, mas eram tão diferentes. No final das contas ela sabia que jamais dariam certo, não foram feitos para ficar juntos. Talvez ele nunca tenha visto quem ela era e talvez, ele nunca a amara. O que ficava no final das contas eram as inúmeras noites em que ela silenciosamente repetia para si, o que ficava no final das contas era amor. Amor este, incompreendido. Era esse seu destino, o amor. Ensinar os outros a amar, mas não sabia como, senão amando. E amar doía, cortava a alma em frangalhos e, às vezes, não dava tempo de curar e então, antes da dor cicatrizar vinha uma mais profunda e doída e o machucado nunca sarava. Mas era assim, sempre foi assim. Amar nem sempre é fácil. Amar dói. Mas isso todo mundo sabe um pouco. Shakespeare, entre tantos outros, já sabia antes mesmo do ser mundo como é hoje. Morgana também sabia. Quem sabe um dia ela amasse uma Morgana, assim a dor seria compartilhada. Poderia também amar Cleópatra ou aquele cara que se matou por amor. Talvez ainda amasse o mundo e então morreria com tantas cicatrizes quanto possível e quem sabe assim, o amor a consumisse de uma vez por todas e tirasse suas dores.


Paula Cristina.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Intimidade

Intimidade é difícil. Durante dias me pego neste assunto e hoje, por razões reais, mas qualquer resolvi deixar que minha vontade de escrever sobre isto sobressaísse. Acredito que existe diferentes formas de intimidade: a atraente, a reticente e a arruaceira. A atraente dá a liberdade, mas reconhecendo limites e não fica por muito tempo ou ela se tranforma em reticente ou acaba. É típica de pessoas que gostam de estar sozinhos. A reticente, que vive em expansão e crescimento, mas nunca chega ao ápice da intimidade, pode se transformar em arruaceira. Típica daquelas pessoas que odeiam ficar sozinhas, mas também odeiam que invadam seu espaço pessoal sem permissão. E a arruaceira, essa pode fazer um estardalhaço emocional, porque ela é típica de pessoas que não percebem a individualidade do outro, é doentia. Eu me encaixo na atraente. Mas porque estou falando disso? Acho que quando se começa a fazer terapia a gente aprende a falar de si e, assim, aprende também, a pensar em si, a refletir. Comecei este texto a partir do final. Cheguei a essas conclusões de intimidade a alguns dias atrás, em uma aula. A professora citou meu nome para um exemplo qualquer e aquilo me colocou em evidência e, mesmo ninguém sabendo de mim, fiquei comovida. Porque fiquei tão comovida? Me pus a pensar e repensar e no mesmo momento uma amiga minha deitou a cabeça no meu encosto e foi tanta proximidade que minha respiração modificou, ficou mais lenta e funda. Foi nessa hora que percebi a intensidade da intimidade. Tenho medo dela, porque ela nos faz entregar uma parte nossa à pessoa e isso é lindo, mas é difícil e até assustador dependendo do que está sendo compartilhado. Mesmo que só como descanso, uma parte minha estava ali para sustentar uma parte de minha amiga e isso requer muita responsabilidade. A intimidade segue o mesmo caminho, se me ponho a tê-la com alguém, me ponho a respeitar aquelas coisas que talvez nunca quis respeitar, tenho que crescer para isso. Infelizmente hoje constatei que existe também a intimidade extrema e essa passa a ser tão doentia quanto a minha. Enquanto a minha pode levar um indivíduo a não estabelecer laços concretos, a arruaceira pode esquecer que existe um ser humano, que erra, que pensa, que é diferente e que precisa de viver uma vida separada. E, portanto, ela sufoca aqueles que dela vivem. Estou assustada com a intimidade, sempre estive, mas hoje ainda mais, pelo poder que ela tem em nós e nos outros. Gostaria eu de saber ter uma intimidade reticente. Essa sim é linda, sublime. Um dia eu chego lá.


Paula Cristina.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O dia secreto

A sala escura, fria e silenciosa. Quase não se percebia a menina brincando de quebra-cabeças em um canto. "O que faz aqui?" - perguntou a mulher contendo o susto. "Estava esperando a senhora. Queria saber se sou louca". A mulher olhou-a nos olhos da garota e percebeu a dificuldade que ela tinha em conter as lágrimas que se formavam sobre seus olhos. "Claro que não" - respondeu a mulher se perguntando o que levara a garota a fazer uma pergunta daquelas. A menina, como que percebendo a indagação da mulher, responde as pessoas diziam que ela é louca porque escreve histórias que passam detalhadamente em sua cabeça e quase se tornam reais de tão insistentes que são. A mulher sorriu, "você não é louca, é artista. Loucura seria se deixasse de escrever, aí quem sabe as histórias realmente seriam reais e talvez eles se envergonhariam de não ter aceitado um simples texto". A garota, mais calma agora, com as lágrimas enxutas, levantou e já se dirigia à porta quando a mulher olhou o relógio. Já passava da meia noite. "Tem alguém te esperando lá fora?" - perguntou. "Não, estão todos fora de casa, nem sabem que saí e agradeceria se não contasse a ninguém sobre isso". A mulher meio desajeitada ofereceu carona, mas a menina recusou dizendo que precisava ficar em silêncio para desenvolver a história que estava em sua cabeça ou a história se perderia para sempre junto de uma parte sua. A mulher ofereceu mais uma vez e prometeu ficar em silêncio. A menina aceitou. E foram pelo caminho. Nem mesmo se despediram, de tão profundo era o silêncio. O portão da casa se fechou atrás dos cabelos castanhos da menina. A mulher seguiu seu curso. Ninguém soube daquele dia, ele nunca fora mencionado. O dia ficou marcado como o início do auto-conhecimento sucedido pela garota. Ela jamais foi a mesma.
Paula Cristina.

sábado, 29 de maio de 2010

Reflexões

Dear Emma,
fazendo uma reflexão sobre tudo em minha vida, fiquei assim, perdida no tempo, no espaço, em minha própria mente, brincando de cão e gato com meus sentimentos e minhas razões. Fiquei presa por demais em partes mínimas da vida como a sociedade e o que eu deveria mudar para me encaixar, mas isso me matou mais do que quando eu era apenas a excêntrica sem conserto. Entrei em coma. Mas as coisas não funcionam assim, de modo algum. Para que sejamos felizes não precisamos achar alguém para ficar do nosso lado, podemos amar ou admirar o que quisermos, mas isso não necessariamente implica em relacionamentos; podemos querer muito um livro ou um cd ou até mesmo aquela roupa maravilhosa da vitrine, mas isso não significa que precisamos disso; podemos gostar de fazer várias coisas, mas nem sempre poderemos fazê-las. O que nos faz ficar bem é algo superior a isso, é saber utilizar nossa cultura, nossa tradição e modelá-las a nosso bem uso. Aprendi isso com um filme e concordei instantaneamente, foi como aquela luz no fim do túnel, que você insiste em procurar, mas só olha na direção errada. Hoje recebi uma notícia que machucou, pensei que minha noite tinha acabado naquele momento, mas estava arrumada para sair e resolvi manter o plano. Graças a deus que sai. Essa notícia se tranformou em calmaria quando eu me dei conta de tudo que eu não havia percebido até hoje. Descobri que eu tenho feijõezinhos mágicos e que ali, além da janela existe uma árvore cheia de possibilidades. Aonde essas possibilidades vão me levar? Não faço idéia, com o tempo descubro. Tudo que sei é que com um pouco de imaginação, criatividade, paciência, amor e fé eu seguirei em frente e traçarei meu caminho. Como Mônica já dizia: "This is real life, it sucks, you're gonna love it!".
Com amor,
Mary Anne.
Ps.: Não se esqueça de aguar as plantas, abrir as janelas do meu quarto, e do brócolis no fogo. Logo estarei de volta. Sinto sua falta.



Paula Cristina.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A casa

Uma fase cansada, pesada. É como devia ser, mas não no interior. As traças corroiam as paredes, cortinas, móveis, a sala por completo mofada. Quanto tempo fazia que não voltava ali? Sua antiga casa, seu antigo esconderijo pedindo socorro prestes a roir... Não havia nada que se pudesse fazer a não ser salvar o que podia ser salvo, expulsar as traças, tirar o mofo. Mas nunca voltaria a ser como era. A visão da sala doía o peito, o quarto então, nem queria entrar. A dor seria grande demais. Quem sabe amanhã ou depois? Mas e se tudo ficasse destruído pelos agentes do tempo? Teria que entrar. Respirou fundo e subiu as escadas com medo de morrer antes mesmo de pisar o último degrau de escada.


Paula Cristina.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O loiro sentado a sua frente na mesa de lanchonete

"Paixão atrai paixão e te penetra quando você dá espaço. Pense em uma atividade que te faz feliz... então esqueça do amor e vá fazê-la. Quando você se apaixona pela vida, a vida te manda um amor!"
O que mais gosta de fazer: cantar, dançar, escrever, ler e se declarar culpada, amante, amiga, surtada. É se pôr no mundo que a faz feliz. Foi aí que começou a divagar em como tem amigos preciosos! Um em particular a fez sentar aquele dia e passar horas lembrando, apenas lembrando e isso a fez sorrir.

BRASIL - 2004
Não, eu não quero ir! - disse ela em desespero. - Ele espera que eu faça alguma coisa, o beije ou coisa parecida e eu definitivamente não farei isso! - olhou de cara feia para a amiga, não acreditava no que estava acontecendo.
Não vai ser tão mal assim - disse a amiga - eu vou estar lá, vou levar um amigo, caso aconteça de eu ficar de vela....
Você não vai ficar de vela. - disse ela realmente exasperada agora. Mas mal acabara a frase a camapinha tocou - Não tem mais volta, eles chegaram.
Dois caras entraram pela porta entreaberta. Ela observou o loiro, achava algo de familiar em seu rosto, uma quietude. Sentiu um ímpeto enorme de abraçá-lo como amigo. Não o fez, seria desconcertante. Tomaram o rumo da lanchonete e ficaram horas conversando e rindo. Não beijou o carinha moreno, tinha mais com que se preocupar. Decidira durante a conversa que definitivamente gostaria de se tornar amiga do loiro, mas sentia-se impossibilitada de fazê-lo. Desistir seria melhor agora, sempre foi melhor quando se tratava dela.
2005
Sentou na mesa. Era sempre assim, sair com a amiga significava sentar-se sozinha à mesa e ficar a almoçar conversando com as paredes. A amiga tinha amigos demais e não parava quieta um segundo sequer para respirar, era sempre o centro das atenções. Não percebeu que do outro lado do salão lotado um loiro a observava e surpreendeu-se quando o percebeu ao lado de sua mesa perguntando se poderia sentar.
Você se lembra de mim? Lanchamos juntos ano passado. Percebi que você estava sozinha e resolvi te fazer companhia, se importa? - Claro que ela não se importava, não acreditava no que estava ouvindo, seu sonho de se tornarem amigos estava começando a querer dar certo.
Não, claro que não, sente-se. - Conversaram por um tempo. Como ele era impressionantemente querido.
Passados os anos continuaram se falando, trocaram telefones e muitas histórias os colocaram interligados. Histórias tristes, felizes, dramáticas, tinha de tudo. Eram confidentes. Ela chegou a ouvir dele que eram como irmãos, iguais. Sentia-se imprevisivelmente feliz sempre que ouvia isso. Ela podia dizer finalmente que eram amigos. Ela e o loiro sentado a sua frente na mesa de lanchonete.
2010
Continuaram amigos. Ele jamais soube a importância de sua amizade, por mais que ela dissesse que o amasse. Não soube, não por falta de expressões, mas porque ela nunca contou que para ela, ele era o loiro sentado a sua frente na mesa da lanchonete. Voltou a realidade com mais uma lembrança guardada em sua caixinha de felicidades de sua cabeça: todos reclamavam de não ser tratados com carinho por ele. Ela nunca teve esse problema. Foi quando ela finalmente se tocou que a amizade com o loiro sentado a sua frente na mesa de lanchonete jamais acabaria. Riu de si mesma. Ele é uma parte de algo que a faz feliz. E ela o ama por isso.
Paula Cristina.

sábado, 22 de maio de 2010

A sombra e a medalinha

A face mais escura presa dentro do espelho esperando ser solta com um leve toque. Não aguentava mais tudo aquilo. Necessitava sair, se entorpecer, se beliscar, mentir. A cabeça latejando com as ridículas tentativas do mundo de ser igual. Quando é que vão se tocar de que não existe igual? Lê um livro, assiste um filme, anda para lá e para cá dentro de casa. Tenta vomitar só para ter o prazer de sentir a garganta arder por um breve momento logo após o vômito sair. Não consegue. Não tem nada para vomitar. Raspa as unhas no peito, senti-las arranhando. Fecha os olhos, acalma a mente. Que saudade da meditação. Infelizmente ela não tem tido efeito ultimamente. Tem novidades inesperadas e por incrível que pareça não sente nada. Pensava que sentiria um ciúme crucidante correndo pelas veias, mas percebe que não faz diferença alguma e mais uma vez constata que nunca se apaixonou e acha graça disso. Não se assusta como tantas outras vezes de ter que ficar sozinha. A dor que sente vai passando, as alucinações continuam, é tudo muito parecido com o que sempre foi, com uma diferença: hoje não precisa do amor dos outros, tem o seu próprio e isso basta, pelo menos por hoje e a medalinha secreta que tem escondida a faz lembrar que foi forte mais um dia e isso a deixa orgulhosa de si. A medalinha a lembra de tudo que foi e tudo que é. E o modo como ela coloriu e deu forma à sua gestalt é só dela. É essa posse de si, essa identidade camuflada que a mantém sã o suficiente para não desistir e a mantém louca o suficiente para lembrar-se de si. A medalinha é a casa da sombra e a sombra é a alma incorporada da medalinha.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Crise do dia

De repente tudo saiu de foco e ser Alice era tudo que se queria por um momento. Se não tivesse jeito poderia ser Pollyana ou Luna ou uma outra qualquer, mas ser naquele momento si mesma não estava adiantando muito. Irritou-se ao ver pessoas conformadas olhando-a como se fosse outro dia mais, um dia sem nada fora do comum. Aquilo não era ela. Costumava sentar no meio fio e passar horas e horas lendo, gostava de ficar a vaguear por aí como um cachorrinho sem dono se esbaldando com açaí ou picolé de limão. Chegava a cojitar a idéia de fugir de casa, se tornar viajante e trabalhar o necessário para comer e ter um agasalho na mão quando precisasse. Nunca o fez, pois como já dizia Kafka: é mais fácil ir por caminhos que não se quer, assim não existe frustração de não se ter chegado longe. A questão é que de tanto se sentir presa passou a desenvolver hábitos desagradáveis para poder fugir da dor aflingida por si mesma. Tal qual dizia um poema: que eu não me desvie do caminho e se, por acaso o fizer que me jogues uma dor tão grande e traiçoeira que me faça voltar a mim. Amaldiçoada pelo poema que fizera de prece por tantos anos estava agora dividida entre a morte emocional e a morte social. Tudo tão ligeiramente entrelaçado, um não poderia viver sem o outro e por isso deveria achar uma outra solução para a vida. Queria viver, apesar de tudo amava a vida, o problema era achar uma saída dentro de um vulcão, na sua parte mais escura e prestes à erupção.
Paula Cristina.

terça-feira, 11 de maio de 2010

O preço do orgulho

O moço da mácara a encarou por trás das cortinas chamiscadas de inverno. Ela não sabia o que era dela e o que era dele. Esqueceu-se de si por um segundo, tempo suficiente para enlouquecer o pouco que restava de sua sanidade. O que fazer a partir dali só ela sabia e, na verdade, não fazia idéia. As cartas escritas no passado a deixavam segura: nunca as mandaria, mas tiraria o peso de anos empurrando seus ombros para baixo, amordaçando o ânimo que deveria ter e já não tinha. O tempo presente era vivido como um casual outrora. Ele não percebia as máscaras que ela, também, carregava consigo. Traiçoeira por si só, jamais deixava transparecer sua dor porque a dele devia ser mais dolorosa que a sua, mesmo que na aparência. Como se passassem os anos, cansada daquela máscara foi para seu quarto, tirou-a e deixou-a junto a tantas outras tiradas do bolso e repostas quando saísse. Deitou a cabeça no travesseiro e dormiu. Ele entrou no quarto e se apaixonou pelo rosto seu sem cor, pálido e frio, sedento de amor. Casou-se com ela e a amou e foi amado durante a noite quando suas mácaras caíam disfarçadamente por suas faces enquanto dormiam. Nunca perceberam que durante a noite viam seus rostos como eram e se amavam por isso. Ele nunca contou, com medo de que ela o deixasse e ela o mesmo. Nenhum dos dois sabia que o que os mantinham juntos eram as verdades das noites sem sono, o encontro de suas essências. Os bastidores sempre foram mais lindos. Artistas se tornam artistas não só pela exposição, pelo narcisismo, mas também por prazer, alegria e ansiedade dos bastidores, quando juntos colocavam máscaras e quando juntos desfaziam delas e quando finalmente se lembravam que eram humanos, mesmo não se sentindo parte do mundo. Aquele era seus mundo. Aquelas eram suas mácaras e os aplausos eram seus e eles eram aceitos em um palco por serem diferentes, únicos e amados. Viveram e se amaram e não souberam do outro.
Paula Cristina.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Dias de paz

O ar vagamente saía pelos pulmões como se fosse explodir. Não queria ficar ali, mas ficou. Sempre fica. Os dias passaram e a falta de ar misturada com o excesso deste querendo estourar os pulmões na tentativa de sair foi passando. As leituras voltaram a seu pique mais remotamente obsessivo, os treinos de dança encheram as tardes e as enfeitou de delícias gasosas e cerveja amanteigada. Tudo voltou a calmaria rotineira e tão amada. Os olhos brilhavam de excitação a medida que as horas passavam. Não vê a hora de sair pelo mundo, desbravando. Não que serão dias ensolarados, na maior parte nublados, mas não faz mal: serão seus, só seus. Seus sonhos, seus dias, suas escolhas. Ficou ali, na livraria da esquina, tentando se decidir qual livro levar. Acaba por levar os dois. Maravilhosamente intrigantes e chamativos para ficarem esperando em uma prateleira por um próximo cliente interessado. Coloca-os na cabeceira. Lê um, lê outro, lê um, lê outro. Até que as forças se esgotam, as páginas do livro aberto sobre seu corpo. As pálpebras fechadas, o óculos no rosto. Um sono profundo, sem sonho, calmo. Acorda com a vontade de um café bem forte. Mais uma manhã, mais um dia e o sorriso estampado na face. Como se fosse dia de alguma coisa qualquer. Como se tivesse acabado de passar em um concurso extremamente maravilhoso. A paz, novamente.
Paula Cristina.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Um tipo de amor.

A mesa posta, a conversa em dia, sorrisos e confissões. A noite que poderia ser rotineira e "enfurnante" de repente se torna mil maravilhas. Dá subitamente um orgulho de si, uma auto-estima cresce espontaneamente dentro do peito. A comida e a bebida descem mais redondas, mais gostosas, mais acomodadas. É assim que se sabe que amizade é isso. Vai além de relacionar-se, vai de um encontro de almas que se aceitam, se amam, se compreendem. Amizade é aquela pura parte da gente que aquece quando não tem nada para aquecer e que torna os dias suportáveis enquanto aquilo que se quer ser ainda não se desforrou e aquele amor que um dia gostaria de viver ainda não se revelou. Amizade é o acalento de saber que mesmo que não se tenha tido um amor romântico, no final da vida vai poder dizer que amou. Porque amor de amizade é um tipo único e raro de amor.
Paula Cristina.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Funeral.

O véu escondendo seu rosto maquiado e borrado. O buraco no chão esperando para ser preenchido com os restos dele. Os soluços silenciosos obrigam as lágrimas a escorrerem pelo seu rosto. Os olhos ardendo, a garganta seca, a boca murmura palavras embaralhadas de tempos perdidos. Ele se foi e não há mais nada a fazer. O luto permite que se feche por alguns dias, precisa de si, de reorganizar todas as idéias e planos feitos. Mudar algumas coisas de lugar, jogar outras fora, viver para si dói muito. É mais fácil ter suas decisões tomadas quando se pensa em alguém a quem deve alguma coisa. Os abraços não acalentam, aliás não entende porque a abraçam, não quer abraços, nem palavras confortantes (elas não trazem realmente conforto). O lenço já não serve para enxugar as lágrimas de tão molhado que está. A noite chega, o cemitério fica vazio, não quer ir embora. O guarda a avisa que vai fechar e que ela tem que ir embora. Dirige, sem saber por onde está andando. Não vê nada além de suas lágrimas embaçando a visão. É aniversário dele. Entra no apartamento. Finalmente sozinha, toma um banho, senta na mesa para tomar uma xícara de café, acaba tomando café irlandês. Lê seu livro favorito para passar o tempo, dorme com a cabeça em cima da página que mais gosta, as lágrimas ainda escorrendo. Ele nunca mais fará parte de sua vida e ela seguirá em frente e aprenderá o que jamais aprendeu, apesar de afirmar tantas vezes que sim: amar-se. As lágrimas secarão eventualmente.
Paula Cristina.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Sabedoria.

Sou reservada em alguns aspectos, mas sejamos sinceros aqui: alguém já conheceu alguém que canta, dança e interpreta não querer se mostrar? Sou narcísica e não sou. Para variar uma contradição. E é o meu lado narcísico que vem lhes contar minha descoberta. Os sábios não fantasiam. Esteve sempre ali, na minha frente, mas nunca em toda a minha vida havia me tocado disso. Dá até aquela vergonha de admitir que não se sabia. Mas não dizem que quando não se sabe é quando começa a saber? Pois hoje eu torço para que eu tenha começado a descobrir a parte que não percebia. Quero ser sábia sim! Mas para ser sábio é necessário coragem para admitir os erros, humildade para aprender, mesmo quando achava que sabia e paixão para jogar a cara no mundo, nas pessoas, nos sentimentos, nos estudos e nas teorias. Meus mestres são por completo diferentes e estravagantes. Alguns não existem, a não ser no papel. Outros existem, mas não falam comigo. Outros ainda existem, falam comigo e não se dão conta de quem são para mim. Outros sabem exatamente que estão ali para me ajudar a amadurecer. Outros tantos são meus eu líricos, desconhecidos ou não, que se põem a me fazer perceber quando saio do meu caminho. Se sou louca? Talvez, ainda não me decidi quanto a isso. Às vezes sim, às vezes não. A linha entre a loucura e a lucidez é mínima, invisível, irresistível.
Paula Cristina.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A parte

"Não. Não vou sorrir sorrisos de beija-flores diversos, muito menos cantar uma ópera celestina. Vou sentar aqui e ficar apreciando as cores do vento, o olhar das flores e o andar das folhas." Foi tudo que me disseste naquele dia sombreado, ralo de tanto chover. E então bateu aquela vontade de sentar embaixo da árvore e esperar a maçã cair em minha cabeça. Sentei, esperei e nada! Nem uma folhinha sequer para aquietar o espírito e me dar esperanças. Cansei, peguei um livro e fiquei ali a folheá-lo. A idéia nunca veio, mas a falta passou. Você sentado em uma mesa de bar, eu em uma praça mal iluminada. Você conversando, eu lendo. Você continua o mesmo, mas eu mudei. E agora sentas do meu lado como quem não quer nada. Eu rio, porque é tudo que tenho para disfarçar a minha raiva, dor e alegria contidos em uma só emoção. Você não entende, me chama de louca. Eu bebo outro gole do ponche, você me olha. Levanto, encho o copo e vou embora. O amor é tudo que restou de nós e é a parte que você não vai tirar de mim.
Paula Cristina.

domingo, 11 de abril de 2010

Dos meus repente e desatinos.

Uma cor, um quebra-cabeça, uma mola, um cobertor. Um sapato, um dinheiro, um sorriso, um desprezo. Um batom, um anel, um livro, uma dança. Das loucuras inflingidas, dos riscos gastos em papéis surrados, não se tem notícia: apenas fatos amordaçados e escondidos pelo tempo. A sinceridade inescrutável se desgasta com o tempo e tudo que se torna é silêncio disfarçado de barreira protetora. Se olham, se vêem, mas será mesmo que enchergam além? O sangue escorrendo pelo corpo da mulher amordaçam a idéia de proteção que se fez a tanto tempo. O que é a solidão quando se está em meio a tantas pessoas e o que é o sentir-se junto quando se está sozinho? Não seria pois um caso de sentir a si? Não seria o caso de amar a solidão e a socialização dos outros? Não seria também, ser um pouco egocêntrico, em um nível que não magoe o próximo? Não seria então uma contradição que se constrói todos os dias? O que leva um indivíduo a sentir a dor de um outro qualquer que nunca tinha conhecido, nem visto, nem ouvido até aquele dia? Será que estavam certos aqueles que ajudaram a passar aquele texto dizendo que somos anjos de uma asa só? Aprendemos a amar, porque essa é a única forma de preencher o vazio, seja lá o que ele for. Os mais desavisados perguntariam: "Porque então machucamos o próximo?" Porque pensamos ser senhores do mundo. Esquecemos dessa humanidade que nos permite chegar ao nosso sintoma. Somos humanos porque perdemos parte de nossa asa, estamos enfermos, aleijados, limitados. Mas isso não nos impede de nos tornar melhores e até mesmo sair desta ala hospitalar. Não seremos por completo curados, mas seremos sim, divinos. Senão deuses, ao menos anjos. Particularmente quereria ser um unicórnio alado. Gosto do perigo e do poder. Gosto mais, porque me permite lembrar de responsabilidades e me torna mais forte. Mas essa não é a questão. Nem sei se compreendo a questão, ou se até consigo passar as dúvidas que passam pela minha cabeça como um vendaval, levando tudo consigo. Não sei nem se este texto faz sentido. Quereria eu, agora, ter a sabedoria de Gandhi, de Sidarta, de Dumbledore, de Merlim, de Morgana, de Maria, de José, de Sabath e de tantos outros que, juntos, se tornaram parte de minha alma. Gostaria eu, de permanecer em pleno estado de paz, mas isso não me foi possível, AINDA. Sabedoria se adquire, amadurece. E de tanto sonhar, perdi a linha de raciocínio e termino o texto com palavras ao vento. Não faz mal, quem lê meus textos já se acostumou com meus repentes e desatinos. Hoje eles estão presentes mais uma vez.
Paula Cristina.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Vazio

Um dia se acorda com uma sensação e vai dormir com outra completamente diferente. Esse é um exemplo clássico da complexidade humana. Se somos tão inconstantes porque acreditamos tanto na constância? Será uma fuga ou uma tentativa de sentir a totalidade? Precisamos sempre de uma promessa de imortalidade. Michael Jackson disse uma vez que todos nós queremos nos tornar imortais e que através da arte ele se tornaria imortal. Shakespeare escreveu sobre o amor eterno. Alguns textos retratam a crença em uma amizade eterna. A paixão por vampiros também tem essa idéia de eternidade. A pedra filosofal, a busca pela imortalidade, as lápides no cemitério, as múmias do egito, os textos escritos, os contos de fada, Deus. Onde está tudo isso? Quais dessas coisas são palpáveis? Precisamos acreditar em alguma coisa. Mas e quando a viseira cai, rasga, despedaça, o que resta da pessoa que perde a esperança em uma eternidade? Talvez seja essa a razão de tantas tatuagens, de tantos nomes e classificações. A eternidade já não existe na mente, então se procura uma eternidade, mesmo que passageira para ocupar o vazio que a vida deixou no peito. Qual é o seu vazio?
Paula Cristina.

domingo, 28 de março de 2010

Paz, que há muito não sentia.

Acordou com aquele desejo súbito e impenetrável de deitar na grama debaixo do sol e sentir a energia penetrar seu corpo. Estava cansada havia muito tempo, mas não fazia muita diferença, já que a diferença era dor disfarçada de força. Sentou no chão do quarto e começou a contar tampinhas. Haviam tantas e de tantas cores que nem acreditava. Brincou até não querer mais, levantou, andou até o som, mas perdeu a súbita vontade de escutar músicas, sentou de novo e se pôs a meditar. A quanto tempo não meditava, parecia até que seu pulmão estava sendo renovado naquele momento. Levantou, pegou um livro e foi ler. Que saudade do silêncio, do barulho da natureza fazendo seu batuque final. Estava em paz mais uma vez, como há muito não ficava. Deitou a cabeça e não dormiu, ficou ali a ouvir os mínimos barulhos. Não precisava dormir, estava mais uma vez revigorada.
Paula Cristina.

terça-feira, 23 de março de 2010

Pergunta

É muito simples exigir que se fale qualquer coisa que vem à cabeça. Mas e quando não vem nada? Difícil é para o psicólogo lidar com isso, mas mais difícil é para a pessoa sentada na cadeira à sua frente. Se está no psicólogo é porque necessita dizer, mas o que? Não vem nada na cabeça, é tudo página em branco, um nada absoluto. Gostaria poder se abrir, mas como destrancar uma porta sem possuir a chave correspondente?
Paula Cristina.

sábado, 20 de março de 2010

Precisava reamar-se

O salto prendeu no chão, na pedrinha solta. Sua irritação atingiu o ápice, apagou todos os contatos da lista, desligou o celular, fingiu estar namorando. Fingir estar namorando a impedia, pelo menos naquele dia, de vigiar a casa dele. Pegou um copo de conhaque no bar, se dirigiu para um canto isolado da festa. A vista era de matar, seus pensamentos também. Fechou os olhos respirou fundo, virou o conhaque garganta abaixo e foi pra casa. Estava impressionantemente exausta para ficar com a música alta na cabeça. Precisa de paz, precisava reamar-se.
Paula Cristina.

quarta-feira, 17 de março de 2010

O problema do escritor

Será que leram? Será que não? O ruim de escrever é isso: nunca se sabe. Se se escreve um texto apenas por escrever podem pensar que sentes daquela forma. Histórias que às vezes, queria que fossem reais passam a conflitar quando a realidade não bate. Uma carta de amor que queria entregar quando sentir daquela forma pode ser interpretada como algo que realmente aconteceu. E então como fazer se o namorado não recebeu a tal da carta que jamais foi intecionada a alguém? Calar-se diante das confusões do mundo. Um escritor sabe melhor do que ninguém, que a dor da perda sempre aparece, especialmente quando se vive em dois mundos: o próprio e o real. Pena que nunca se saiba quem leu e quem não.
Paula Cristina.