quarta-feira, 31 de março de 2010

Vazio

Um dia se acorda com uma sensação e vai dormir com outra completamente diferente. Esse é um exemplo clássico da complexidade humana. Se somos tão inconstantes porque acreditamos tanto na constância? Será uma fuga ou uma tentativa de sentir a totalidade? Precisamos sempre de uma promessa de imortalidade. Michael Jackson disse uma vez que todos nós queremos nos tornar imortais e que através da arte ele se tornaria imortal. Shakespeare escreveu sobre o amor eterno. Alguns textos retratam a crença em uma amizade eterna. A paixão por vampiros também tem essa idéia de eternidade. A pedra filosofal, a busca pela imortalidade, as lápides no cemitério, as múmias do egito, os textos escritos, os contos de fada, Deus. Onde está tudo isso? Quais dessas coisas são palpáveis? Precisamos acreditar em alguma coisa. Mas e quando a viseira cai, rasga, despedaça, o que resta da pessoa que perde a esperança em uma eternidade? Talvez seja essa a razão de tantas tatuagens, de tantos nomes e classificações. A eternidade já não existe na mente, então se procura uma eternidade, mesmo que passageira para ocupar o vazio que a vida deixou no peito. Qual é o seu vazio?
Paula Cristina.

domingo, 28 de março de 2010

Paz, que há muito não sentia.

Acordou com aquele desejo súbito e impenetrável de deitar na grama debaixo do sol e sentir a energia penetrar seu corpo. Estava cansada havia muito tempo, mas não fazia muita diferença, já que a diferença era dor disfarçada de força. Sentou no chão do quarto e começou a contar tampinhas. Haviam tantas e de tantas cores que nem acreditava. Brincou até não querer mais, levantou, andou até o som, mas perdeu a súbita vontade de escutar músicas, sentou de novo e se pôs a meditar. A quanto tempo não meditava, parecia até que seu pulmão estava sendo renovado naquele momento. Levantou, pegou um livro e foi ler. Que saudade do silêncio, do barulho da natureza fazendo seu batuque final. Estava em paz mais uma vez, como há muito não ficava. Deitou a cabeça e não dormiu, ficou ali a ouvir os mínimos barulhos. Não precisava dormir, estava mais uma vez revigorada.
Paula Cristina.

terça-feira, 23 de março de 2010

Pergunta

É muito simples exigir que se fale qualquer coisa que vem à cabeça. Mas e quando não vem nada? Difícil é para o psicólogo lidar com isso, mas mais difícil é para a pessoa sentada na cadeira à sua frente. Se está no psicólogo é porque necessita dizer, mas o que? Não vem nada na cabeça, é tudo página em branco, um nada absoluto. Gostaria poder se abrir, mas como destrancar uma porta sem possuir a chave correspondente?
Paula Cristina.

sábado, 20 de março de 2010

Precisava reamar-se

O salto prendeu no chão, na pedrinha solta. Sua irritação atingiu o ápice, apagou todos os contatos da lista, desligou o celular, fingiu estar namorando. Fingir estar namorando a impedia, pelo menos naquele dia, de vigiar a casa dele. Pegou um copo de conhaque no bar, se dirigiu para um canto isolado da festa. A vista era de matar, seus pensamentos também. Fechou os olhos respirou fundo, virou o conhaque garganta abaixo e foi pra casa. Estava impressionantemente exausta para ficar com a música alta na cabeça. Precisa de paz, precisava reamar-se.
Paula Cristina.

quarta-feira, 17 de março de 2010

O problema do escritor

Será que leram? Será que não? O ruim de escrever é isso: nunca se sabe. Se se escreve um texto apenas por escrever podem pensar que sentes daquela forma. Histórias que às vezes, queria que fossem reais passam a conflitar quando a realidade não bate. Uma carta de amor que queria entregar quando sentir daquela forma pode ser interpretada como algo que realmente aconteceu. E então como fazer se o namorado não recebeu a tal da carta que jamais foi intecionada a alguém? Calar-se diante das confusões do mundo. Um escritor sabe melhor do que ninguém, que a dor da perda sempre aparece, especialmente quando se vive em dois mundos: o próprio e o real. Pena que nunca se saiba quem leu e quem não.
Paula Cristina.

domingo, 14 de março de 2010

O dia depois à traição

Acordou com aquele ar de contradições formado a tanto tempo, o óculos em cima da penteadeira esperando para ser usado. Levantou, tirou a roupa, entrou no chuveiro. A porta da frente foi destrancada por fora, ela entrou, encontrou a camisa no chão do quarto. Uma marca de batom no colo da camisa, o cheiro de perfume barato se fez presente. A raiva crescente de si mesma por ter deixado que chegasse a esse ponto. Saiu, trancou a porta, desligou o celular, a lágrima escorrendo por seu rosto contorcido pela dor. Nunca mais ele teria notícias dela.
Paula Cristina.

sábado, 13 de março de 2010

O meu crime

O meu crime foi te amar obsessivamente e me esquecer de mim. Foi o castigo mais impressionantemente estúpido e traiçoeiro. O meu crime foi trair o meu próprio ser, seduzir os outros e não me seduzir. Por esses e outros crimes, meu último crime de hoje será mais uma vez me trair. Vou deixá-lo esperando. Trocá-lo por um drinque qualquer, um drique que me faça voltar a mim.
Paula Cristina.

domingo, 7 de março de 2010

A noite

A noite não foi cansativa. A conversa impressionantemente calma, os sorrisos de cetim. era fácil porque não havia dependência, eram pessoas sentadas, conversando, se descobrindo, era lindo. Deitou na cama, não tinha feito nada desagradável ou que se arrependeria. Era muito fácil ser, não precisava mudar por ninguém, era apenas ser. As coisas ficam tão mais fácil sem expectativas falsas! Como era bom sorrir porque deu vontade, falar assim, sem precisar regular cada centímetro do corpo. A comida estava de matar. Matar trsitezas, matar dores, matar desamores. E era assim que era. Como num vendaval de informações precisas tudo se fez alegre, colorido e os olhares eram maravilhosos!



Paula Cristina.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Não importava o horário

Como se não bastasse os próprios caminhos retidos, ainda tinha que pensar no dele. Ela acendeu um cigarro só para sentir o cheiro ao redor. posicionou-o no cinzeiro virando-o para si e começou a escrever frenéticamente palavras sem significado aparente. Seu cansaço mental não trazia o tão desejado sono e quando trazia eram sonos de vigilia, aqueles em que parece que dormiu apenas cinco minutos tendo dormido na verdade doze horas. Era muito fácil que julgassem, era fácil também fingir não se importar, mas hoje ela simplesmente queria se revoltar, deixar sua casa de madeira a mostra e mandar todo mundo engolir elefante. Sim, engolir elefante. Já tentou engolir um? Muito grande, pesado além de áspero. Muito desagradável. De toda forma terminou de escrever, pegou o cigarro, cheirou, apagou e jogou fora. Fechou as cortinas. Era dia, grande coisa, tudo que queria era um sono bem dormido. Não importava o horário.
Paula Cristina.