sábado, 29 de maio de 2010

Reflexões

Dear Emma,
fazendo uma reflexão sobre tudo em minha vida, fiquei assim, perdida no tempo, no espaço, em minha própria mente, brincando de cão e gato com meus sentimentos e minhas razões. Fiquei presa por demais em partes mínimas da vida como a sociedade e o que eu deveria mudar para me encaixar, mas isso me matou mais do que quando eu era apenas a excêntrica sem conserto. Entrei em coma. Mas as coisas não funcionam assim, de modo algum. Para que sejamos felizes não precisamos achar alguém para ficar do nosso lado, podemos amar ou admirar o que quisermos, mas isso não necessariamente implica em relacionamentos; podemos querer muito um livro ou um cd ou até mesmo aquela roupa maravilhosa da vitrine, mas isso não significa que precisamos disso; podemos gostar de fazer várias coisas, mas nem sempre poderemos fazê-las. O que nos faz ficar bem é algo superior a isso, é saber utilizar nossa cultura, nossa tradição e modelá-las a nosso bem uso. Aprendi isso com um filme e concordei instantaneamente, foi como aquela luz no fim do túnel, que você insiste em procurar, mas só olha na direção errada. Hoje recebi uma notícia que machucou, pensei que minha noite tinha acabado naquele momento, mas estava arrumada para sair e resolvi manter o plano. Graças a deus que sai. Essa notícia se tranformou em calmaria quando eu me dei conta de tudo que eu não havia percebido até hoje. Descobri que eu tenho feijõezinhos mágicos e que ali, além da janela existe uma árvore cheia de possibilidades. Aonde essas possibilidades vão me levar? Não faço idéia, com o tempo descubro. Tudo que sei é que com um pouco de imaginação, criatividade, paciência, amor e fé eu seguirei em frente e traçarei meu caminho. Como Mônica já dizia: "This is real life, it sucks, you're gonna love it!".
Com amor,
Mary Anne.
Ps.: Não se esqueça de aguar as plantas, abrir as janelas do meu quarto, e do brócolis no fogo. Logo estarei de volta. Sinto sua falta.



Paula Cristina.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A casa

Uma fase cansada, pesada. É como devia ser, mas não no interior. As traças corroiam as paredes, cortinas, móveis, a sala por completo mofada. Quanto tempo fazia que não voltava ali? Sua antiga casa, seu antigo esconderijo pedindo socorro prestes a roir... Não havia nada que se pudesse fazer a não ser salvar o que podia ser salvo, expulsar as traças, tirar o mofo. Mas nunca voltaria a ser como era. A visão da sala doía o peito, o quarto então, nem queria entrar. A dor seria grande demais. Quem sabe amanhã ou depois? Mas e se tudo ficasse destruído pelos agentes do tempo? Teria que entrar. Respirou fundo e subiu as escadas com medo de morrer antes mesmo de pisar o último degrau de escada.


Paula Cristina.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

O loiro sentado a sua frente na mesa de lanchonete

"Paixão atrai paixão e te penetra quando você dá espaço. Pense em uma atividade que te faz feliz... então esqueça do amor e vá fazê-la. Quando você se apaixona pela vida, a vida te manda um amor!"
O que mais gosta de fazer: cantar, dançar, escrever, ler e se declarar culpada, amante, amiga, surtada. É se pôr no mundo que a faz feliz. Foi aí que começou a divagar em como tem amigos preciosos! Um em particular a fez sentar aquele dia e passar horas lembrando, apenas lembrando e isso a fez sorrir.

BRASIL - 2004
Não, eu não quero ir! - disse ela em desespero. - Ele espera que eu faça alguma coisa, o beije ou coisa parecida e eu definitivamente não farei isso! - olhou de cara feia para a amiga, não acreditava no que estava acontecendo.
Não vai ser tão mal assim - disse a amiga - eu vou estar lá, vou levar um amigo, caso aconteça de eu ficar de vela....
Você não vai ficar de vela. - disse ela realmente exasperada agora. Mas mal acabara a frase a camapinha tocou - Não tem mais volta, eles chegaram.
Dois caras entraram pela porta entreaberta. Ela observou o loiro, achava algo de familiar em seu rosto, uma quietude. Sentiu um ímpeto enorme de abraçá-lo como amigo. Não o fez, seria desconcertante. Tomaram o rumo da lanchonete e ficaram horas conversando e rindo. Não beijou o carinha moreno, tinha mais com que se preocupar. Decidira durante a conversa que definitivamente gostaria de se tornar amiga do loiro, mas sentia-se impossibilitada de fazê-lo. Desistir seria melhor agora, sempre foi melhor quando se tratava dela.
2005
Sentou na mesa. Era sempre assim, sair com a amiga significava sentar-se sozinha à mesa e ficar a almoçar conversando com as paredes. A amiga tinha amigos demais e não parava quieta um segundo sequer para respirar, era sempre o centro das atenções. Não percebeu que do outro lado do salão lotado um loiro a observava e surpreendeu-se quando o percebeu ao lado de sua mesa perguntando se poderia sentar.
Você se lembra de mim? Lanchamos juntos ano passado. Percebi que você estava sozinha e resolvi te fazer companhia, se importa? - Claro que ela não se importava, não acreditava no que estava ouvindo, seu sonho de se tornarem amigos estava começando a querer dar certo.
Não, claro que não, sente-se. - Conversaram por um tempo. Como ele era impressionantemente querido.
Passados os anos continuaram se falando, trocaram telefones e muitas histórias os colocaram interligados. Histórias tristes, felizes, dramáticas, tinha de tudo. Eram confidentes. Ela chegou a ouvir dele que eram como irmãos, iguais. Sentia-se imprevisivelmente feliz sempre que ouvia isso. Ela podia dizer finalmente que eram amigos. Ela e o loiro sentado a sua frente na mesa de lanchonete.
2010
Continuaram amigos. Ele jamais soube a importância de sua amizade, por mais que ela dissesse que o amasse. Não soube, não por falta de expressões, mas porque ela nunca contou que para ela, ele era o loiro sentado a sua frente na mesa da lanchonete. Voltou a realidade com mais uma lembrança guardada em sua caixinha de felicidades de sua cabeça: todos reclamavam de não ser tratados com carinho por ele. Ela nunca teve esse problema. Foi quando ela finalmente se tocou que a amizade com o loiro sentado a sua frente na mesa de lanchonete jamais acabaria. Riu de si mesma. Ele é uma parte de algo que a faz feliz. E ela o ama por isso.
Paula Cristina.

sábado, 22 de maio de 2010

A sombra e a medalinha

A face mais escura presa dentro do espelho esperando ser solta com um leve toque. Não aguentava mais tudo aquilo. Necessitava sair, se entorpecer, se beliscar, mentir. A cabeça latejando com as ridículas tentativas do mundo de ser igual. Quando é que vão se tocar de que não existe igual? Lê um livro, assiste um filme, anda para lá e para cá dentro de casa. Tenta vomitar só para ter o prazer de sentir a garganta arder por um breve momento logo após o vômito sair. Não consegue. Não tem nada para vomitar. Raspa as unhas no peito, senti-las arranhando. Fecha os olhos, acalma a mente. Que saudade da meditação. Infelizmente ela não tem tido efeito ultimamente. Tem novidades inesperadas e por incrível que pareça não sente nada. Pensava que sentiria um ciúme crucidante correndo pelas veias, mas percebe que não faz diferença alguma e mais uma vez constata que nunca se apaixonou e acha graça disso. Não se assusta como tantas outras vezes de ter que ficar sozinha. A dor que sente vai passando, as alucinações continuam, é tudo muito parecido com o que sempre foi, com uma diferença: hoje não precisa do amor dos outros, tem o seu próprio e isso basta, pelo menos por hoje e a medalinha secreta que tem escondida a faz lembrar que foi forte mais um dia e isso a deixa orgulhosa de si. A medalinha a lembra de tudo que foi e tudo que é. E o modo como ela coloriu e deu forma à sua gestalt é só dela. É essa posse de si, essa identidade camuflada que a mantém sã o suficiente para não desistir e a mantém louca o suficiente para lembrar-se de si. A medalinha é a casa da sombra e a sombra é a alma incorporada da medalinha.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Crise do dia

De repente tudo saiu de foco e ser Alice era tudo que se queria por um momento. Se não tivesse jeito poderia ser Pollyana ou Luna ou uma outra qualquer, mas ser naquele momento si mesma não estava adiantando muito. Irritou-se ao ver pessoas conformadas olhando-a como se fosse outro dia mais, um dia sem nada fora do comum. Aquilo não era ela. Costumava sentar no meio fio e passar horas e horas lendo, gostava de ficar a vaguear por aí como um cachorrinho sem dono se esbaldando com açaí ou picolé de limão. Chegava a cojitar a idéia de fugir de casa, se tornar viajante e trabalhar o necessário para comer e ter um agasalho na mão quando precisasse. Nunca o fez, pois como já dizia Kafka: é mais fácil ir por caminhos que não se quer, assim não existe frustração de não se ter chegado longe. A questão é que de tanto se sentir presa passou a desenvolver hábitos desagradáveis para poder fugir da dor aflingida por si mesma. Tal qual dizia um poema: que eu não me desvie do caminho e se, por acaso o fizer que me jogues uma dor tão grande e traiçoeira que me faça voltar a mim. Amaldiçoada pelo poema que fizera de prece por tantos anos estava agora dividida entre a morte emocional e a morte social. Tudo tão ligeiramente entrelaçado, um não poderia viver sem o outro e por isso deveria achar uma outra solução para a vida. Queria viver, apesar de tudo amava a vida, o problema era achar uma saída dentro de um vulcão, na sua parte mais escura e prestes à erupção.
Paula Cristina.

terça-feira, 11 de maio de 2010

O preço do orgulho

O moço da mácara a encarou por trás das cortinas chamiscadas de inverno. Ela não sabia o que era dela e o que era dele. Esqueceu-se de si por um segundo, tempo suficiente para enlouquecer o pouco que restava de sua sanidade. O que fazer a partir dali só ela sabia e, na verdade, não fazia idéia. As cartas escritas no passado a deixavam segura: nunca as mandaria, mas tiraria o peso de anos empurrando seus ombros para baixo, amordaçando o ânimo que deveria ter e já não tinha. O tempo presente era vivido como um casual outrora. Ele não percebia as máscaras que ela, também, carregava consigo. Traiçoeira por si só, jamais deixava transparecer sua dor porque a dele devia ser mais dolorosa que a sua, mesmo que na aparência. Como se passassem os anos, cansada daquela máscara foi para seu quarto, tirou-a e deixou-a junto a tantas outras tiradas do bolso e repostas quando saísse. Deitou a cabeça no travesseiro e dormiu. Ele entrou no quarto e se apaixonou pelo rosto seu sem cor, pálido e frio, sedento de amor. Casou-se com ela e a amou e foi amado durante a noite quando suas mácaras caíam disfarçadamente por suas faces enquanto dormiam. Nunca perceberam que durante a noite viam seus rostos como eram e se amavam por isso. Ele nunca contou, com medo de que ela o deixasse e ela o mesmo. Nenhum dos dois sabia que o que os mantinham juntos eram as verdades das noites sem sono, o encontro de suas essências. Os bastidores sempre foram mais lindos. Artistas se tornam artistas não só pela exposição, pelo narcisismo, mas também por prazer, alegria e ansiedade dos bastidores, quando juntos colocavam máscaras e quando juntos desfaziam delas e quando finalmente se lembravam que eram humanos, mesmo não se sentindo parte do mundo. Aquele era seus mundo. Aquelas eram suas mácaras e os aplausos eram seus e eles eram aceitos em um palco por serem diferentes, únicos e amados. Viveram e se amaram e não souberam do outro.
Paula Cristina.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Dias de paz

O ar vagamente saía pelos pulmões como se fosse explodir. Não queria ficar ali, mas ficou. Sempre fica. Os dias passaram e a falta de ar misturada com o excesso deste querendo estourar os pulmões na tentativa de sair foi passando. As leituras voltaram a seu pique mais remotamente obsessivo, os treinos de dança encheram as tardes e as enfeitou de delícias gasosas e cerveja amanteigada. Tudo voltou a calmaria rotineira e tão amada. Os olhos brilhavam de excitação a medida que as horas passavam. Não vê a hora de sair pelo mundo, desbravando. Não que serão dias ensolarados, na maior parte nublados, mas não faz mal: serão seus, só seus. Seus sonhos, seus dias, suas escolhas. Ficou ali, na livraria da esquina, tentando se decidir qual livro levar. Acaba por levar os dois. Maravilhosamente intrigantes e chamativos para ficarem esperando em uma prateleira por um próximo cliente interessado. Coloca-os na cabeceira. Lê um, lê outro, lê um, lê outro. Até que as forças se esgotam, as páginas do livro aberto sobre seu corpo. As pálpebras fechadas, o óculos no rosto. Um sono profundo, sem sonho, calmo. Acorda com a vontade de um café bem forte. Mais uma manhã, mais um dia e o sorriso estampado na face. Como se fosse dia de alguma coisa qualquer. Como se tivesse acabado de passar em um concurso extremamente maravilhoso. A paz, novamente.
Paula Cristina.