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Mostrando postagens de 2011

Enquanto não durmo

O silêncio não me deixa dormir, melhor dizendo, a mente trabalhando, raciocinando, pensando não me deixa dormir. O trabalho a receber, a devolutiva a um passo de ser concluída, as compras, os bolos e cookies a fazer, a viagem, a saudade que vou sentir de você. Não me deixam dormir, me fazendo repassar todos os passos para que eu não esqueça de uma vírgula sequer e cada vez que repasso, a lista cresce. A aula de canto, a terapia, os livros a ler, os filmes para assistir, as ligações, os compromissos, os documentos, o banco, o cachorro, o almoço. Meu deus! Esqueci do almoço! Volta, refaz a lista. Como vou sentir falta de você. Os espaços nisso tudo para "ligação para ele", "possível encontro com ele" são muitos e faço questão. Não importa de atrasar a conta, ele vem primeiro, não importa de esquecer alguma coisa da lista, ele vem primeiro. Quê? Ele vem primeiro? Desde quando namorado foi prioridade na minha vida. Desde ele aparecer. E a saudade que vou sentir durante…

Quando se perde a inocência

Você sabe que perdeu a inocência quando descobre que suporta a dor. A dor do luto, a dor da culpa, a dor da separação, a dor da solidão, a dor... Você sabe que perdeu a inocência, quando percebe que tudo tem dois lados e, que portanto, em certa medida todos podem ser mal interpretados e podem mal interpretar. Você perde a inocência quando as noites de insônia te contam as coisas que você sabe não poder mudar. Você perde a inocência quando começa a procurar opiniões diferentes para formar a sua própria e, às vezes, chega a duvidar de si mesmo não por falta de confiança, mas por saber que você também é falho e muitas das vezes você estará errado. Mas você perde a inocência também quando começa a se perguntar o que é certo e o que é errado e se os dois não estão juntos, interligados, impossibilitados de separar. Você perde a inocência quando percebe que um simples texto que parece arrancar a alma pode ter menos que vinte linhas e, portanto, nada pode ser por completo medido. Você perde a…

Não é meu...

Quando as palavras martelam em sua cabeça e você não sabe o que fazer com elas. Elas não são minhas, nunca foram e você as coloca em minha frente esperando que eu as aceite, mas não aceito. Não aceito porque apesar de serem dirigidas a mim não são para mim, são para confortar sua dor, são para você, lá no fundo. Para você se apoiar em alguma coisa quando a alma dói e você não sabe porque. Talvez até saiba, mas não quer se contar. Suas palavras são suas e doem em mim porque sei que doem em você, mas nada posso fazer senão dizer que não são para mim. Eu sinto muito. É um fardo muito pesado carregar os problemas dos outros nas costas, por mais que você tente ajeitar, nunca dá certo, porque a chave não lhe pertence, é um código que só o outro tem, como uma digital. Não pode ser passada, transmitida, ensinada. Dói seu desapontamento, dói seu olhar de rancor, dói seu olhar de tristeza, mas eu nada posso fazer, senão sentar e esperar. Esperar que você enfrente suas dores e me encontre em uma…

Escrever

Perdi a linha de raciocínio pelos dias afora. Quiz escrever tantas e tantas vezes, mas simplesmente, aquele momento de silêncio e encontro comigo não acontecia... Tratei de tentar meditar nas horas vagas e, às vezes, surgia um assunto para tratar, mas ainda não era hora de por no papel. A hora não chegou e tive vontade de dizer algo, mas este algo me escapou. Estou tão contente de mim, tão contente da vida, tão contente de tudo que transbordei e deixei o sorriso espirrar um pouco da pressão de alegria que assola meu peito. É por isso que quando quero escrever, fica difícil sair o que eu queria dizer. Preciso transbordar, explodir de emoção, deixar tudo entrar para depois sair. Escrever para mim é isto: comunicar o que não dá para ser comunicado, transformar em palavras o que é tão forte que perde a capacidade da fala. Escrever para mim é soltar a alma e deixá-la esparramada nas palavras.

Homenagem à Rosimeiry

"A morte é apenas uma travessia do mundo, tal como os amigos que atravessam o mar e permanecem vivos uns nos outros Porque sentem necessidade de estar presentes, para amar e viver o que é onipresente. Neste espelho divino vêem-se face a face; e sua conversa é livre e pura. Este é o consolo dos amigos e embora se digam que morrem, sua amizade e convívio estão, no melhor sentido, sempre presentes, porque são imortais." - William Penn, More Fruits of Solitude
Hoje eu acordei com câimbra nos pés, com o dedo machucado e o joelho doendo, mas não é um daqueles dia que eu coloco culpa na dança ou em um descuido qualquer pessoal. A razão destas dores que me impedem andar melhor são dores de luto. Ontem ao dormir, não consegui ler minha diária dose de um capítulo de harry potter seguidamente e, para quem me conhece, isso é, no mínimo estranho, para mim é luto. Hoje eu acordei sem sono e mantive. Esta madrugada, eu não acordei às 3h com medo ou sede, eu acordei às 1h, 2h e 4h com pesar. Aco…

Você

Já falaram de florese de espinhos também. Já falaram de chuvas, sucatas, melodias e vidraças, mas não falaram de você.
Você que mede as palavras e se esconde por entre as meias abarrotadas.
Já falaram de cinismos, derrotas, sorrisos e luares, mas não falaram dos grilos, dos pássaros e das brisas dos mares.
Talvez, tenham até dito, mas estava tão ocupada tentando entender porque não falaram de você que fiquei surda por um minuto, esquecida de meu próprio mundo.
Porque você é a maior descoberta dentre os desembaraços da vida. Você que me faz sorrir tantas vezes.

Paula Cristina.

O caminho é melhor ainda

A música tocava e eu senti cada miúdo da alma, cada palavra, cada nota. Senti, senti tanto que parei para refletir, deixei-me vaguear e deu aquele baque de quem percebe alguma coisa doída, estranha, nova, verdade. Aquelas verdades escondidas por baixo de pano que te faz estremecer. Pois bem, estremeci. Respirei fundo, acendi uma vela, sentei no chão e me deixei, naquele escuro pausado de vela, vagueando, pensando, refletindo. Me dei conta de tanta coisa, me dei conta de que mudei. Mudei mais do que imaginava, menos do que eu esperava, o tanto exato para se dizer "no ponto". No ponto de mudar mais um pouquinho, crescer mais um pouquinho, chegar ao que eu esperava, sem ser exatamente o que eu espero hoje, porque a gente anda e o caminho se abre e você vê mais longe e pensa "vou chegar lá, não cheguei, ainda, nem aonde eu queria, que é meio caminho até aonde eu quero agora, mas eu chego. Ah, se chego". E então eu ri, será que daqui uns meses as músicas, os livros, as…

apenas se perder...

Ela sentou no meio fio. Passou as mãos pelo rosto. Não acreditava no que tinha acabado de presenciar. Respirou fundo, deixou um suspiro pesado sair de seus pulmões. Não queria pensar, conversar, nada. Não queria absolutamente nada naquele momento. A sensação de falta de ar a incomodava, mas tudo bem, daqui um tempo passa. Músicas e mais músicas surgiam em sua mente, mas não queria ouvir, não queria pensar, não queria cantar. Precisava de um pouco de silêncio, daqueles de meditação. Controlar o centro, conversar com seu centro, se restabelecer. Poderia ser o cansaço, mas não era só o cansaço. Era horas de sono mal dormido, preocupação desnecessárias de trabalhos ainda não planejados e futuros não resolvidos, medo de certos assuntos, irritação por certos momentos. Era um conjunto de coisas banais que se tornavam enormemente ameaçadoras diante da ansiedade dela. Levantou do meio fio e entrou na casa logo atrás. Tomou um banho. Aprendera que banhos rejuvenescem e relaxam como nunca, quem …

Dia nublado

Aquele silêncio conhecido de início de manhã, um passarinho aqui, outro passarinho ali trazem o ar da graça para aquela manhã nublada com cheirinho de campo e de chuva e uma pitada inconfundível de lar. Os apaixonados pelo verão que me desculpem, mas esse tempinho é o melhor, tem jeito de lar, café e aconchego... não nasci para viver nos trópicos, gosto do frio, do arrepiar da pele, da brisa leve e fria que passa pelo corpo contando que existe vida no meio do nada. Fecho os olhos lentamente saboreando o ar ao meu redor, respiro fundo para que o ar penetre da forma mais gostosa, sento e medito minutos a fio. Calma, pacificidade, sorrisos, tranquilidade. Fecho os olhos para guardar na memória (como faço em todos os dias assim) o tom acinzentado do céu, o cheiro de orvalho, terra, folhas, troncos de árvore, o toque da brisa, do frio, a luz escondida do sol (e ainda assim o dia fica claro como nunca). Levanto, arrumo o café, jogo conversa fora, leio meus blogs favoritos, checo meu horósco…

Talvez...

Talvez fosse o vento escondido no tronco da árvores ou mesmo o sol disfarçado de sombra, mas por um momento senti o silêncio tomar conta de meu interior de tal forma que eu pudesse simplesmente compreender coisas que nunca ficaram claras e parar de criar coisas que nunca estiveram ali, nem mesmo por alguns segundos quaisquer. Então ao perceber o movimento sorri sorrateiramente para não afugentar as idéias. Sentei e escrevi tudo e pensei e raciocinei e trabalhei coisas que nunca havia trabalhado antes, mas que agora eram tão óbvias que me perguntava "porque? Porque não percebi isso antes?". Talvez não estivesse preparada, talvez não quisesse ver, talvez eu cresci mais um pouco sem me dar conta. Não importa tanto o talvez, o que importa é que cheguei aqui e isso me faz tão bem que me pergunto "onde estive este tempo todo? Será que o jardim sempre foi um jardim?", então me dou conta de que o jardim sempre esteve ali, a diferença é que agora eu olhava pelo buraco da fe…

O quadro

Ali, branco no preto, rosa no marrom, cor sobre cor. Rabiscos e mais rabiscos formavam um quadro. Lindo, sutil, inocente. Aquela inocência de contos de criança quando não entende a parte do sexo, do tabu, do escondido da sociedade. O beijo leve na bochecha, a vermelhidão da face condenando a vergonha, o despreparo, o desconhecido, o carinho. Era tão bonito que chegava a ser meigo, era tão amor que chegava a tocar. Como se fosse a própria, na ponta dos pés, beijando a bochecha, os olhos fechados condenando um "eu gosto, gosto sim" sorria e pensava "que lindo, quero beijar assim..."

Minha vontade de desenhar

Sentei no meio fio, os pés descalços, o lápis e o papel. Não sei desenhar, mas tentei, tentei e tentei, até que saiu um rabisco, meio xoxo, mas tudo que sei fazer (ainda). Esqueci da minha vontade de desenhar bem lá no fundo - sabe como é, falta de tempo, de vontade, de energia, de confiança - mas então, eis que assisto um filme lindo de morrer e a vontade volta. Após chorar litros por compreender e sentir toda a história, me colocar no lugar dos personagens (mesmo que minha história não tenha "bulhufas" a ver com a deles) sento em frente ao computador e me pego procurando fotos que eu poderia copiar; como incentivo, algo mais fácil, menos complexo, que me deixe sentir capaz, energizada e apaixonada pelos traços. Mas eu não paro tudo para desenhar, treinar, tentar. Paro para escrever sobre isso tudo, penso na música perfeita que cairia maravilhosamente bem em uma cena como esta, escolho os desenhos e, quem sabe - depois que eu terminar de me explicar para pessoas que provave…

"...depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você." Caio Fernando Abreu

Meu olhos negaram os olhares, meu sorriso não permanecia em minha face, meu desconforto era óbvio. Nunca fui boa em mentir ou me esconder. Sempre clara, óbvia, destrutivamente sincera, ingênua em minha falta de ingenuidade. A contradição mais dolorosa, a verdade mais ridícula. Não era de propósito, era muito mais fácil fingir e não discutir o assunto, mas você notou porque me conhece mais do que eu. Nem sabia sobre o que se tratava meu desconforto e você falou e eu pensei comigo "ridículo, não é por isso", mas era... era tanto que chorei por horas a fio com vergonha da minha ingenuidade maligna de não perceber que meu estresse era não estar ao seu lado, quando fui eu quem escolheu ficar ali enquanto você estava lá. Odeio admitir minha fragilidade, mas não sei ser sem a sinceridade que incomoda até mesmo a mim. Odeio admitir que você faz parte completa dos meus dias, porque até tempos atrás eu nem mesmo precisava disso tudo. E apesar de tudo, a única coisa que eu tenho a faze…

Sem água

Depois de ficar horas a fio sem nem ao menos transcender durante alguns instantes, eis que surge o clique: não conseguia dormir por causa da sede. Não bebi água o dia inteiro, chego em casa e o cano "não-sei-das-quantas" que entregava a água nas redondezas de minha casa tinha estourado! Pois bem: sem água, com sede; sem água, querendo tomar banho; sem água, querendo escovar os dentes. SEM ÁGUA. Revolta geral, definitivamente não sabemos viver sem água... No final das contas são duas horas da manhã e finalmente consigo beber meu copo de água, agora é esperar o sono para que a noite dê certo e eu funcione amanhã de manhã, porque amanhã é um outro dia... e por favor não falte água.

Paula Cristina.

As ligações

Quando o sono bate e as cobertas fazem hora para que ela se esquente, é nessa hora que ela sonha, esquece do mundo. Quando ele não pode fazer parte, é nessa hora que ela sente mais falta. Falta do afago, do abraço, da respiração entrecortada pela voz que sai da boca dele. O travesseiro, então, serve de consolo para a saudade apertada e rasteira. Mas não faz mal, ela vai dormir, esquecer do mundo e sonhar com ele (porque desejo é desejo em qualquer lugar); e quando acordar ele vai ligar e dizer do dia e ela, com um sorriso, vai ouvir histórias ou pensamentos e contá-las também. Então o dia vai passar e o telefone tocar. A voz do outro lado da linha vai falar e o mesmo sorriso incontido vai aparecer, como todas as manhãs e todas as tardes. E assim a história segue, cada dia uma história nova, cada dia um novo acontecimento e aquilo que era para ser incrivelmente chato, cansativo e monótono se torna em algo diferente todos os dias. Nunca se sabe o que vai acontecer, a não ser as ligações…
O sangue escorria vagarosamente sob seus pés, mas não importava. Sabia que em algum lugar doía, mas não no momento. Aproveitou então, para dormir, descansar. Não dormiu, mas os lábios sorriam tanto e riam tanto e a diversão veio sozinha, companheira, suave...

Paula Cristina.

Medo

Os homens debaixo daquelas capas escuras. Homens! Sim, homens! Nunca percebia e de repente "boom!"... a bomba sobre meus pés... meu medo era de homens, encapuzados, preconceituosos, desumanos, psicopatas, inconsequentes. Não tenho medo de coisas além, tenho medo do que estes homens se tornarão. Não tenho medo do desconhecido, mas da vida desconhecida destes homens. Não tenho medo do mundo, mas das atrocidades destes mesmos homens, que de tanto matar, brutalizar e incompreender trouxeram dor e horror ao mundo. Culpo um pouco demais os homens e coloco, sem querer, as mulheres como vítimas, mesmo que lá fundo, sei que essas perversidades são de ambos. São esses horrores que não me deixam pregar os olhos de noite, os horrores de histórias que poderiam acontecer pelo descuido e delinquência de tantos outros "humanos". E as capas escondem os rostos, representam o desconhecido, o horror, a escuridão de não enxergar nada além do tecido. Confesso ter medo de humanos. Tenho …

Um breve desconforto

Por um momento perdeu o chão, como podia ser tão burra? Será que não percebia que aquele tipo de assunto incomoda? Não... tinha que ser por completo sincera, contar para ele das dores de ser ignorada por pessoas que ele não compreendia ser importantes, simplesmente por serem queridas, sem fazer muita coisa, sem ter muito contato. Ele foi falando e ela nem escutava mais, viu o rosto dele contorcido (ela não sabia se de raiva, ciúmes ou uma leve irritação), a voz denunciava um leve desconforto por parte dele. Quando se deu conta, estava chorando. Chorando por ser tão estúpida de não pensar antes de falar. Está tão acostumada a falar sobre sua vida sem precisar se preocupar com o que os outros vão pensar que não raciocinou que desta vez deveria ser diferente, que talvez ele não compreendesse um carinho genuíno por um completo estranho. Ele desesperou quando viu as lágrimas derramando sobre seu rosto. O que ele deve ter pensado naquele momento? Falava, tentando aliviar a dor dela que nem …

Sem título, apenas um trecho "vazio" de letras

Quantos "eu te amo" recitei, quantos permaneceram amor? Quantos sorrisos eu dei, quantos permaneceram na dor? Quantos abraços apertei, quantos abraços ficaram? Apenas o essencial, pessoas de para sempre, amigos, irmãos de coração. Tantas as mudanças e tantos acontecimentos. O único costume que mantive foi sorrir diariamente, mesmo que para pessoas desconhecidas, mas o resto? Hoje já não consigo dizer "eu te amo" por mais que o queira a não ser que seja aquela pessoa de anos a fio, amiga do peito, parceira da vida. Não consigo abraçar por completo a não ser que seja de casa, íntimo, irmão de coração. Em mim ficou um vazio preenchido por cautela, cuidado pessoal e amor próprio. Não é um vazio triste, é um vazio feliz, realizado, bonito, sincero. É esse vazio que mantém as muralhas que me protegem das dores, é esse vazio que no final não é vazio, tem recheio líquido que às vezes transborda e incomoda alguns invejosos de plantão, mas isso não faz mal, quem sabe essas p…

Seus mimos...

Deixe-me apaixonar por você como alguém que nunca amou. Não quero perdas de tempo, apenas toques, sorrisos, confissões, brincadeiras... O cheiro da brisa que incendeia meu coração quando o vento balança meus cabelos em meio às árvores me mantém calma, focada, pacificada. Você mima meu coração com cerejas recheadas de olhares e toques e palavras, você mima meu coração com filmes e cervejas e comidas, você mima meu coração com seu jeito só seu de sorrir e viver e ser. Você me mima, você me faz dormir...

Paula Cristina.

Intimidade

A menina de vestido verde, sentada à mesa comendo pão e bebendo cerveja se divertia brincando com o cachorro. O chão frio segurava seu corpo que se movia constantemente para todos os lados possíveis. O homem a olhava enquanto fazia comida e correspondia os olhares da menina. O relógio tiquetateava calmamente, esperando o tempo chegar, esperando o tempo passar. A comida ficou pronta, o fogo apagou. A menina então, sentou ao lado do homem para comer. Olhava-o interessada, queria ver cada movimento, perceber cada momento e cada sentimento que perpassava por ele. Ele, muito ocupado com os talheres não percebeu o quanto ela o olhava. Os talheres foram finalmente postos de lado, ele a olhou e ela já era mulher novamente, o ar de menina travessa se escondeu por trás dos olhos que agora seduziam-no sem um pingo de escrúpulos. Não tinha medo e a intimidade que ia crescendo aos poucos preenchendo o vazio entre os dois aumentava e diminuia o espaço em branco que tanto queriam preencher. De fundo…

Queria momentos, e só.

A menina no vestido azul passava tranquilamente pelo corredor fingindo não procurá-lo. Os quartos se abriam a medida que passava, mas todos vazios, pareciam caçoar do desejo escondido que tinha de encontrá-lo. Desistiu, sentou a um canto, quase corroendo-se por dentro e acabou por adormecer em cima de alguns livros caídos de pilhas e pilhas baseadas no chão. O cheiro de livro de biblioteca inundava seu corpo e dormiu ali, sonhando, sentindo o cheiro dele a cada expiração. Sentia o cheiro dos livros e o cheiro dele. Tudo se misturava em uma dança sensual. Acordou assustada, não se lembrava de adormecer. Pegou seu som portátil e se dirigiu à entrada da biblioteca. O barulho dos passos faziam-na olhar com a esperança cabulosa de ser ele, quando era óbvio que não seria, ele não frequentava ali, pelo menos, não até onde sabia. As músicas eram todas para ele. Desligou o som, estava tentando não pensar nele. A luz do dia estava diferente, tinha que comentar aquele fenômeno com ele. Não, ele …

Só um bobo não perceberia

O telefone tocava denunciando as horas passadas. A mensagem na secretária eletrônica denunciava as batidas do coração que aceleravam a cada sílaba pronunciada. A voz dele era calma, suave, bonita. Gostava quando telefone tocava daquela forma, era ele mais uma vez... Quantas vezes odiou presença, agora adorava presença. Quantas vezes odiou elogios, agora torcia para os elogios ocorrerem. Quantas vezes odiou largar sua rotina, seu pijama regado a noites de filmes para sair, agora esperava impaciente o horário de pegar o carro e deixar aquele filme tão esperado para outro dia. Quando as mensagens chegavam era um pulo do coração a cada palavra lida e um sorriso a cada frase terminada. Estava mais paciente também. Será que foram as tantas lágrimas derramadas ou um simples amadurecimento, uma mudança de fase? Talvez fossem os dois... Ela sorria encabulada e ria um riso alegre e apaixonado. Ele ainda não sabia disso, não por completo, mas era óbvio, estava estampado no rosto, só um bobo não …

Texto da Marla de Queiroz

"Ele não sabe mais (quase) nada sobre mim.
Não sabe que o aperto no meu peito diminuiu, que meu cabelo cresceu, que os meus olhos estão menos melancólicos, mas que tenho estado quieta, calada, concentrada numa vida prática, e sem aquela necessidade toda de ser amada.
Ele não sabe quantos livros puder ler em algumas semanas.
Não sabe quais são meus novos assuntos nem os filmes favoritos.
Ele não sabe (...) mas conservo alguma curiosidade em saber se o seu coração está mais tranquilo, se seu cabelo mudou, se o seu olhar continua inquieto. Ele nem imagina quanta coisa pude planejar durante esses dias e como me isolei pra tentar organizar todos os meus projetos.
Que tenho sentido mais sono e ainda assim, dormido pouco.
Que tenho escrito mais no meu caderno de sonhos.
Que aqui faz tanto frio, ele não sabe por mim.
Ele não sabe (...) que aprendi a não sobrecarregar meu coração, este órgão tão nobre.
Ele não sabe que eu entendi que se eu resolver a minha dor, ainda assim, poderei criar através d…

Decepção

Eu me pergunto o que será de sua filha, que vive em uma casa onde o ódio simplesmente pelo ódio se faz presente. Não sei qual seria pior, ser molde ou não sê-lo nessa situação. A decepção que desce por meu corpo, pela minha alma escorre como um veneno infectando cada sorriso, cada cuidado. De onde vem tanta raiva? Tanta ignorância? Dói pensar que a cada dia que passa, nos distanciamos mais e mais, pelas atitudes, pelas idéias, pelo respeito. O que você fará quando eu fizer minha primeira tatuagem de tantas outras que eu farei? Qual será sua reação quando descobrir de tantas desejos e sonhos que estou para realizar que não condizem com a sua moral? Acho que já tenho a resposta estampada nas suas frases de ódio contido. Você me amará depois de tudo isso? Existirá respeito ou serei um ser a mais cuspido pelas forças do destino para fora de sua vida? Você não vê que o mundo mudou, que as diferenças são lindas, que cada um tem uma vida diferente, um estilo diferente? Esse seu ódio sem cabi…

É uma pena que ele não se importe...

It's such a shame that you don't care; it's' such a shame that we're not there...
As horas se arrastavam enquanto você sumia por milésimos de segundos. A foto emoldurada na parede contava de um menino disfarçado de homem. Um menino tão indefeso no amor quanto a menina. Ambos fingiam não ser e ambos de tornavam meninos por causa disso. O homem e a mulher, o menino e a menina. Ela não sabia se ia ou se ficava, não porque não gostasse, mas porque ela sabia que talvez ele não ficaria. É uma pena que ele não soubesse que por ele, tudo mudava... ele só sabia da atração, da tentação...


Paula Cristina.

Sua despedida.

Gosto da sua despedida, me alivia e me pacifica seu "até mais tarde", significa para mim que você volta, que você quer voltar. É lindo. E nesse brincar de perceber significações eu descubro que posso ser interessante pro outro da mesma forma que o outro me é interessante. Ser humano é lindo, poético. E nesse brincar de perceber a mim eu descubro que psicologia é lindo, assim como a paixão camuflada que quase nunca deixo transparecer e que transborda com suas despedidas...

Paula Cristina.

Só para constar...

Você me faz tão bem que não importo de ter apenas você na minha vida. Você me faz tão bem que não importo de aprender a pensar em um futuro nós. Você me faz tão bem que o sono não me cansa, que os dias são mais bonitos e os amores são mais leves. Você me faz bem, me faz tão bem. Sei que não é exatamente você, mas o que eu sinto quando estou com você. Poderia ser com qualquer outro, mas é com você e enquanto isso durar eu estarei disposta a sorrisos e calmarias. Sei que isso é gostar porque ninguém concorda com isso, ninguém põe fé. Eu ponho e só...

Paula Cristina.

Pós-abismo II

Ela seguiu, olhava à volta desconhecendo todos os caminhos, escolheu o mais bonito para combinar com seu vestido de flores e renda. O chão macio, amortecia os passos que ela dava tão delicadamente pela estrada. A mangueira lá na frente ofereceu-lhe uma manga deliciosa, avermelhada, doce e suculenta e seus galhos e folhas a protegeram do sol que ofuscava sua visão. Parou por tempo sem conta e depois seguiu caminho, em direção a algum lugar que ela não sabia. Passou por festas e chás e reuniões e de cada um dos lugares que passava levava alguma lembrança e deixava um pouco de si pelo caminho, partes sua que já não mais servia. Virava volta e meia e mudava a rota que escolhia à medida que sentia ser o melhor, sempre passando por estradas bonitas e calmas. Passou por jardins, labirintos e encruzilhadas. De vez enquando parava para conversar com os transeuntes, ler um livro ou mesmo ficar ali, parada, sem nada para fazer, só observando. Chegou a uma cidadezinha calma, com umas pessoas tran…

Fragmento de pensamentos

É uma pena que não vá dar certo, e que você já tenha escolhido não dar... é uma pena que eu possa apenas falar com você pensando que somos amigos, enquanto você olha para mim e pensa em ser algo no meio entre ser amigos e ser namorados. É uma pena que você não sinta suficiente falta de mim e que eu não sinta o mesmo por você. É uma pena, porque no final das contas, você ainda passa pelo fundo da minha mente, a idéia de duas pessoas caminhando caminhos diferentes e dividindo segredos conjuntos. É uma pena que eu seja mulher e você seja homem, é uma pena que pensemos tão diferente. É uma pena o que eu sinto, porque o que eu sinto é vazio, é impossibilidade. É uma pena cada fragmento de vida que se perde toda vez que minha dor toca no fundo do poço por você...


Paula Cristina.

trecho conjunto

Acho que parte de você estava certo. Você era mais amigo que amante para mim. Você não era o desejo reprimido, era o alívio imediato. O medo do que os outros pensariam a respeito de nós dois era enorme, medo inconsciente(será?)de nos verem como casal. Você era meu melhor amigo. Tenho 22 anos e até hoje confundo amizade com estar apaixonado. Que coisa louca, que coisa louca. Contar sobre meu dia é reconfortante, falar com você,mas não essa coisa louca de ouvir sua voz. Meu beijo é mais leve com outro. Meu beijo é mais beijo com outro do que com você. Eu fui muito mais mulher com qualquer outro que tenha aparecido, então como isso poderia ser amor? Não, nãe é, nunca foi. Foi diversão, entusiasmo, foi fim de dia, o nome que você quiser, mas amor, meu bem, ficou muito distante de mim, de você, de nós.


Paula Cristina e M.A. http://umpoucodecolera.blogspot.com/

Enterro

Já estive em seu enterro tantas vezes em março que desconfio que os anos passaram e eu não notei. Olho o calendário e o ano continua o mesmo. Você vem e volta e eu o mato tantas outras vezes. Não sei se consigo lidar um dia sequer com essa loucura camuflada. Você me confunde, eu me confundo. Eu te confundo, você se confunde. É tudo tão nebuloso, tão obscuro. E aqui estou eu, finalmente em abril em luto por você mais uma vez e tudo que me vem à cabeça é se você realmente morreu, se vou aguentar mais uma ressurreição e morte desavisada. Eu não sei, mas como sempre, eu nunca sei. Você me machuca, eu me machuco. Eu choro e o eco não responde. EU CHORO SOZINHA. Não vou beber, não hoje, estou de luto. Não vou sair, não hoje, estou de luto. Vou sorrir e lembrar uma última vez. Lembranças pertencem ao passado e é lá que eu espero que fique (controvérsias à parte, você não vê meus gestos rápidos condenando a mentira que acabo de contar tentando convencer principalmente a mim). Amanhã eu vou aco…

Mistério

Se eu conseguisse escrever cada segundo de história que passa em minha cabeça, talvez assim, um livro se escreveria por si só contando horas e minutos a fio, declarando as minhas loucuras e os meus fascínios. Se conseguisse pôr em palavras cada pensamento meu, então estaria decifrada como um enigma fácil diante de um gênio. E se por final fosse decifrada o mistério acabaria, como a minha própria pessoa, porque de que adianta me mover com um destino traçado ou sem nada para ser descoberto? Por sermos enigmas de nós mesmos nos tornamos humanos e nos perdemos humanos e então o ciclo da vida continua, se mantendo a cada passo disposto a chegar ao final da jornada, à concretude do conhecimento. O mistério nos mantém vivos e só.


Paula Cristina.

história mórbida

Ele não sabia o que queria, como queria... tudo que sabia era simplesmente sentir aquele vazio que o atormentava. As ruas pareciam escuras, enegrecidas e o toque místico do vento sussurrando em seu ouvido quase causava um "frenesi" momentâneo que nunca chegava a se completar. O sangue escorrendo pelas mãos trêmulas de tanta força usada para mantê-las cerradas, o coração disparado condenava toda uma rua deserta pelas batidas surdas que se deixavam ouvir pelo corpo e ecoar pelo vazio. Qualquer um que visse aquela cena, pensaria em alguém perigoso com cara de psicopata como naqueles filmes clássicos de terror. Mas olhando por entre-linhas, ali estava um assustado, perdido, sofrido, embriagado pelas próprias emoções. Qualquer um que o visse diria que estava embriagado, mas as gotas de álcool que mais próximo chegaram foram aquelas que adentravam bocas outras ao seu lado, que não a dele. Olhou para trás e viu aquela mancha de sangue o seguindo e denunciando-o de seu paradeiro. Co…

no final das contas...

Sentei no meio fio, procurando alguma mão para segurar, alguém para me dizer que as coisas não são assim tão cinzas, tão leves a ponto do vento levar, tão embaçadas para não enxergarmos por dentro. Doía tanto, mas de todo jeito quantas vezes já não havia doído? A carta que eu nunca entreguei, na mão, já estava toda amassada de tanto aperto, de tanta angústia contida. Você não estava em casa, eu sabia, fui apenas para deixar a maldita carta na caixa de correio. Não tive coragem. Meus medos sempre me ameaçaram, meus medos insensatos. Sou tão corajosa para tanta coisa, mas para despedidas nunca fui boa, a sensação de solidão me dói a mente, o corpo, a respiração falha e as lágrimas tendem a cair freneticamente. O poste da rua apagou sozinho e eu me mantive ali, impassível, procurando uma forma de olhar para aqueles portões uma última vez. Não soube fazê-lo. As mãos trêmulas rasgaram a carta em mil pedaços e deixaram ali, no lixo da casa. Assim eu podia fingir ter entregado e então, seria…

a noite do outro?

Dizem que quando a gente sente que não vai dar certo acaba não dando mesmo, mas isso complica um pouco, porque é muito fácil ser otimista e encontrar desculpas para tudo mas quando é que a confiança é certa, quando é que você não está se iludindo? São tantos pensamentos incertos em sua cabeça que ela não sabe como lidar com eles. O que ela vê? O que significa? O que ela pode fazer? É tudo tão diferente do que deveria ser em sua cabeça, sempre foi. Parou, respirou por um minuto, não queria sair, mas saiu mesmo assim. Sabia que era bem vinda e querida naquele lugar desconhecido e foi dito e feito, todos as receberam de braços abertos e ela se sentiu em casa como se fossem amigos de data, companheiros de vidas. Esqueceu pela primeira vez da dor que ele causava nela sem saber (ou será que sabia?). Com o passar das horas vai conversa, vem conversa, vai olhares, vem olhares e lá estavam eles praticamente abraçados sem que ela ao menos percebesse o que estava acontecendo. De repente, o beij…

De novo

Como era de se esperar, ultimamente ela estava em constante entrave com suas emoções. Vivia a chorar sem motivo algum (quer dizer, motivo tinha, mas energia pra chorar nunca teve até agora). Ele a viu chorar como sempre e ficou a se perguntar "porque, porque ela chora tanto?" e ela sem saber respondia silenciosa "eu não sei, alguma coisa mudou, alguma coisa em mim que me faz tão naturalmente triste e tão naturalmente louca e tão naturalmente feliz". Cada sentimento surgia atropelando o outro contando dos medos e inseguranças que nem ela mesma percebia ter dentro de si, por tanto tempo escondidos vida afora. Agora essa mudança repentina a fazia se perguntar quem a mudou: ela, o mundo ou ele? De acordo com ele, ninguém muda, só desconhece, mas sua vida, suas experiências e seus estudos levavam-na a questionar isso. Todo mundo muda, é uma questão de querer. E a pergunta continuava. Mas ultimamente duvidava até de si, das verdades que veio construindo e do mundo que pi…

Uma história de amor?

A luz do sol refletida na xícara de café em cima da mesa denunciava as oito horas da manhã em que o café da manhã era pontualmente servido no jardim. Ela segurava o jornal em frente ao seu rosto de modo a ver toda a extensão do mesmo sem precisar mover um músculo além dos olhos para cima e para baixo, de um lado para o outro.
- O dia está muito bonito para uma caminhada. - disse ele, com uma voz triste e rotineira. -Sim está, quer que eu o acompanhe? Estamos mesmo precisando de um tempo para nós, não acha? - ela respondeu. - Não sei se agora seria um momento oportuno para você. Além do mais tenho que passar na loja de ferramentas para olhar algumas coisas que ainda faltam ser organizadas. Quem sabe outro dia em que eu não esteja tão ocupado... - disse ele sem muitas delongas. Afinal de contas, ambos sabiam que estavam fartos de conversas enfadonhas e romantismos desnecessários. - Tudo bem, como quiser. Só não demore muito, ontem chegou tão tarde que perdeu o almoço e quase também, o lanch…

Só mais um dia sem medo era tudo que pedia...

Sempre aquela sensação de estar incomodando. Mandava uma carta, mas logo vinha a desconfiança de entrar no espaço alheio. Ligava e ali, bem na esquina o sentimento de importunação, de que não queriam aquela ligação. Chamava para sair e a impressão que tinha até ele chegar é de estar forçando entrada no mundo dele e, por consequência, ele iria embora um dia cansado de tanta bajulação, de tanta procura, de tanta insistência. Mas o que fazer? A saudade era mais forte, não dava tempo nem dele respirar e lá estava ela ligando de novo. Não que fosse sempre, mas para ela, que nunca fazia isso, era muito, muito mesmo e o sentimento a preenchia como o ar preenche os pulmões. O medo de perdê-lo a aterrorizava e aquela sensação de "ligo, não ligo" pesava sobre seu coração. Não sabia ser meio termo, tinha que aprender. Mas porque aprender justo com ele? Ele, que permanecia ao seu lado e que era tão amado. Ele, justo ele, a fazia enlouquecer nos mínimos detalhes. Não sabia se ligava, se …

a algum qualquer?

Não sei se você me ignora ou ignora o fato de que me sinto ignorada. Não sei se você sente a falta que faz ou faz de propósito pra me pirraçar. Não sei se isso tudo passa ou se vai ficar, só sei que os dias passam e mais confusa, mais perdida, mais centrada em loucuras e neuroses eu fico. A cabeça roda, mas não dói. Nada dói. É como um vazio, uma falta de mim, uma falta de você, uma falta de nós. Pode ser loucura, pode ser perdição temporária, pode ser até uma falta de compreensão de um contexto maior e pode ser apenas saudade. O fato é que tudo mistura e eu misturo você a mim, mas não parece certo nos misturar, o bonito seria o encontro, sem comuns nem afins, apenas encontro e vontade de estar. Não sinto isso de você, talvez eu é que não tenha em mim e não sei disso, mas isso seria muita loucura e muita falta de mim...

Paula Cristina.

A conversa

Os olhos atenderam àquela forma indiscreta de observação. Foi literalmente engolida até a alma, as roupas do corpo tentando esconder o pouco que escondiam por baixo daqueles olhos de raio-x. Queria sair dali, mas o orgulho não a deixava se desvencilhar. Escondeu um sorriso de divertimento por trás dos olhos fugazes e escorregadios que não deixavam ninguém encará-los por muito tempo. Segurou a ponta do vestido e, mantendo a conversa longa suficiente, ficou ali a rir de coisas que não tinham graça e a falar apenas o bastante para manter uma conversa meio fajuta e se manter em evidência como sempre dava um jeito de estar. Não tinha graça não estar em evidência. Gostava de ser o centro, falava baixo pra manter a pessoa atenta, sem tirar os olhos e se a pessoa desvencilhava, mudava um pouco o tom para ela se interessar de novo. O sorriso era para chamar os interessados (e os desinteressados também). O olhar para manter aqueles que gostavam do "olho-a-olho" e um pouco sedutor às v…

Ele.

Sem saber o que era, deixou-se abrir para um mundo desconhecido e agora, assustada, deixava o medo tomar conta. Engoliu o medo e ligou, era a melhor forma de resolver as coisas. Não sabia o que sentia. Ele atendeu, estava ocupado, mas insistiu em falar. Ela compreendeu o cuidado a ela dirigido e acalmou os nervos. Porque sentia tanta falta dele? Ao invés de ignorar, deixou todos os pensamentos se acentarem e fazerem parte daquela vivência, realmente saber o que estava acontecendo, o que estava sentindo. Deitada na beira da piscina, olhou o céu e ficou a observar as nuvens, tentando compreender aquilo tudo e se deu conta de que certamente estava apaixonada. A falta que ele fazia não era falta de "estou sozinha, alguém sente ao meu lado". Não. Era mais que isso, era a falta do sorriso, do silêncio, do abraço, da voz, do beijo, da presença (mesmo que fosse apenas uma presença de endereço). Saber que ele estava ali, olhá-lo. O sentimento de tê-lo ali, simplesmente por ter, sem p…

O objeto de seu afeto

Os olhos procuravam com uma avidez por descobrir e não via, não percebia, não sentia. Era tudo incógnita. Ele cansou de procurar, ignorou os desejos de sua própria alma, focou em si. O puro egoísmo da solidão. Mas quem disse que o amor é reciprocidade? O amor é mais um meio termo de gostar e querer manter, mas de um egoísmo escondido, disfarçado de cuidado altruísta. Perdeu tudo, inclusive a dignidade para ter que reconstruir de novo. Alguém veio e o informou de que de nada adiantava tudo aquilo (e de fato essa pessoa estava certa). Fez então do amor um objeto fugidio, ridículo, esquecido - e esqueceu mesmo. Não sabia que aquele comichão era desejo, oprimira-o por dentro das roupas, da pele, dos ossos. Ninguém sabia que era o que o mantinha em pé, nem mesmo ele. Esqueceu assim, de si mesmo. Não fazia mal, não percebera até aquele ponto. Então em uma noite qualquer, descobriu querendo uma pessoa em especial, satisfez seu desejo, mas, ainda sim não foi suficiente, queria mais daquela pe…

Trecho

Acordou e se deparou com o edredom puxado do outro lado. Sorriu, pensava ter sonhado, mas não, ele estava ali, deitado com o o lençol nos pés. Os olhos serrados faziam acreditar que ele estava dormindo, mas alguma coisa a fazia acreditar que ele não estava dormindo. Mexeu um pouco na cama e os olhos dele abriram calmos. Virou de lado e passou a mão sobre seu rosto. Era tão bom, tão simples. Sorriu. Beijou os lábios dele suavemente. Deitou a cabeça sobre seu peitoral e ficou tempo sem conta apenas deitada abraçada a ele, deixando sua mão percorrer sobre o corpo dele.

Paula Cristina.

Dessa vez...

Sentei ao seu lado na mesa e aquilo era no mínimo constrangedor, mas era lindo também. Eu olhava pra você e tive certeza que era ali que eu queria estar. Podia morrer de vergonha, me embaraçar toda, parecer louca e passar a impressão errada (o que sou tão boa em fazer nos momentos menos oportunos), mas no final das contas eu estaria com você. No final das contas era só você. Saímos dali, conversamos, rimos, nos tornamos um pouco mais íntimos, um pouco mais próximos e minha sensação de certeza foi aumentando a medida que a noite sumia e deixava vestígios de uma madrugada silenciosa e pacífica. Você leu meus sentimentos, mudou meu humor, eu estava ali, indefesa, sem saber o que fazer, as lágrimas teimando em cair. Você me viu chorar silenciosamente, você viu meu mais fundo ser sem entender o que era ou porque era. E tudo que vinha na minha mente quando você me fazia perguntas era "estou apaixonada por você", mas nada saía como sempre. Esse meu medo de me abrir. Tenho coragem d…

Acordei um dia...

Acordei um dia e me percebi pensando na próxima vez que te veria, não queria me preocupar com outro e me deparei com uma falta sua, pausada, bonita, poética. Me incomodei com isso, não costuma acontecer esse tipo de coisa comigo, mas chega um momento que parece que a vida resolve fazê-las ou será minha própria consciência brincando comigo? Não tenho certeza de nada, a não ser de que nesse momento estou online achando que você não vai entrar no msn, mas ainda estou aqui torcendo que eu esteja errada e que me surpreenda para que não tenha sido em vão esse dia que eu entrei só para falar com você. Me peguei pensando em você durante uma aula interessante (o que é no mínimo bizarro, porque aulas interessantes nos mantém focados...). Mas tem alguma coisa de bonito, de misterioso na forma que você olha ou até fala comigo - ou será que vejo assim porque estou começando a criar sentimentos em torno da sua pessoa? - . Algo escondido, um querer contido, um respeito, um cuidado. Não sei se estou …

Jogar tudo pro alto

Acordou suada da noite quente e mal iluminada. Desceu até a cozinha e preparou um chá de limao. Deixou esfriar um pouco, sentou na rede de balanço da varanda. Olhou o relógio eram quatro horas da manhã e perdera o sono. Sorriu, lembrou-se dele e percebeu que começava a gostar dele em sua vida, gostava do toque da mão na sua e quando ficava a observá-la e quando ela o olhava ele já estava preparado para dar um beijo ou para fazer tudo que ela quisesse que ele fizesse. Gostava de poder escolher o que fazer (mesmo que na maioria das vezes nunca escolhesse por opção). Adorava quando ele a abraçava e mais ainda quando a fazia rir, mesmo quando não tinha graça nenhuma. Achava a décima maravilha do mundo poder simplesmente ficar ali, em silêncio. Queria ligar e dizer tudo aquilo e mais para ele, mas não faria isso. Gostava dele e provavelmente estava gostando cada dia mais e mais, mesmo que negasse para si por medo ou algo parecido. A verdade é que ao mesmo tempo que tinha um pouco de medo, …

Caminhos separados

As lágrimas queriam escorrer e então ela se virou e de raiva prometeu que jamais olharia para trás de volta. Domando o que restava de controle, impediu que seu corpo tremesse enquanto se dirigia ao carro (e foi difícil cada passo). Então, como se não bastasse ele gritou palavras lindas, mas que soavam vazias ao toque doce do sentimento. "Adoro que você observe todos os meus passos e não admita por orgulho. Adoro quando você finge que não sabe quem eu sou e, de repente, como se nunca tivesse me visto olha nos meus olhos e parece ler até minha alma. Adoro que você vá e volte e que fique. Adoro como você se mantém leal às pessoas, mesmo quando elas não se importam de forma alguma. Adoro também como você finge não se importar agora e fica de costas para que eu não veja suas lágrimas queimarem seu rosto. Adoro que você se esforce para que ninguém se machuque. Mas odeio uma coisa em você. Odeio que você vá embora agora, principalmente porque sei que dessa vez, mesmo doendo, você não vo…

Um susto inexplicável

As horas passaram rápido e o tremor que da terra surgiu pesava. Os ponteiros "tiquetateavam" a procura de um tempo (ou seria de um ritmo) que os fizessem permanecer atados um ao outro. O pó que do chão subia embaçava a vista dos mais apitos à visão, a neblina que se instaurava amargurava a mais esperançosa das criaturas. E os raios solares que adentravam por entre as brechas das árvores se tornaram tristes, sem vida, opacos. Tudo virou insegurança, desconfiança, podridão. Por um minuto tudo permaneceu calado até que, então, tudo passou e de repente uma tranquilidade desentendida se fez presente. Foi tudo que aconteceu, minutos eternos antes da luz. A tempestade não se fez e assim, não houveram estragos maiores, apenas um leve desconforto de quem não sabe o que fazer depois de um susto inexplicável.

Paula Cristina.

Uma noite no navio

Sentada, os olhos ao mar captavam a imensidão da escuridão e do mar e do mundo. Era tão pequena diante de tudo aquilo, era tudo tão lindo, tão sedutor, tão pacífico! Uma mão a abraçou por trás, trazia junto de si uma certeza que talvez não fosse tão real quanto parecia ser. Sorriram, conversaram coisas perdidas por aí. Não sabiam nada uma do outro, mas mesmo assim a conversa fluía e os segurava um ao lado do outro. Os outros olhavam e diziam que eram lindos juntos, os dois olhavam e sorriam. A noite durou o tempo necessário para fazê-la perceber que ela era solteira e ela gostava disso mais uma vez. A noite durou tempo suficiente para ela olhar para si daquele jeito e amar tudo em si. A noite durou tempo suficiente para lembrar-se dele, mas pouco tempo para sentir sua falta. E assim, o dia raiou e eles se separaram e ela se sentiu feliz, em paz.

Paula Cristina.

As vozes, suas amigas.

O toque seco da folha sob o chão duro confessava a tragédia escondida por trás da doçura estampada no rosto. Tudo fora remoído, removido. Era tudo tão louco, tão solto, tão doído. Era tudo tão lindo, tão óbvio, tão pesado. As lágrimas teimaram em descer enquanto a dor perfurava os pulmões impossibilitando o ar de entrar ou sair: era tudo ar, tudo se fundia e tudo se extinguia. O peso se tornou mortal, a leveza se tornou cúmplice e o olhar lançado a ela se tornou amaldiçoado. O rumo se perdeu de vista. O caminho estava escuro mais uma vez e as gotas de sangue cobriam todo o aposento. Perdera-se entre as facas lançadas a ela. O que a mantinha caminhando, tentando chegar ao caminho iluminado eram as vozes que a mantinham forte, as vozes que a impediam de desistir, as vozes que diziam "sim, você é diferente e nós a amamos por isso". As vozes que tanto protegeram-na voltavam para segurá-la mais uma vez e então um sorriso se escondia por trás dos lábios. Ela sabia que não mais es…

É só o que eu quero

Os olhos ardentes, pedintes de alguma coisa maior, algo melancólico, bonito, sensual. A boca molhada pedindo um beijo qualquer de tirar o fôlego. A brisa passando, arrepiando o corpo, fazendo-o pedir calor desses de arrebatar corações. A cena bonita, afrodisíaca que mexe com cada um de de forma diferente. Mas tudo se torna difuso se não tem você (alguém qualquer) para trazer harmonia a todos estes fatos. Você que me seduziria da forma mais doce. Você que traria seus olhos, sua boca, sua pele para se chocarem comigo. Você que tiraria meu ar, minha noção de espaço e de tempo e meu pudor. Você que me traria tudo em um pacote pequeno. Você que seria tema de tantos poemas e sonhos e desejos e pensamentos. Você me roubaria beijos e corpo e alma para que então, eu ficasse nua e trouxesse o luar para dentro do quarto. Você que eu não conheço, mas que amo tanto. Você. Sonho. Prazer. Paixão. Entrega. Você. Simplesmente você. É tudo o que eu quero. É só o que eu quero.

Paula Cristina.

O para sempre é muito certo para uma vida tão imprecisa

Tantos amores passaram por mim, tantas realidades quebraram em meu rosto e tantas cicatrizes feitas que já nem sei contar mais e ainda assim, não aprendo a pronunciar adeus. A dor é grande e a falta daquilo que fez parte tão grande em minha vida, que cuidou para minhas lágrimas não caírem, que permaneceu ao meu lado quando eu sentia não ter ninguém. A falta por saber que jamais terei, mesmo que queira me faz pensar mil vezes antes de dar as costas e seguir em frente. Por isso eu acabo sempre voltando, por isso acabo por aceitar aqueles que voltam: eu não sei dizer adeus. Como se diz para alguém querido "vá embora e não volte mais"? O para sempre é muito certo para uma vida tão imprecisa. A imprecisão me toma conta, porque cada um que entra em minha vida tem um papel e se esse papel não for executado ou for executado pelas metades a pessoa voltará e eu devo simplesmente ignorar essa pessoa? Não sei, é tudo tão confuso...

Paula Cristina.