domingo, 18 de dezembro de 2011

Enquanto não durmo

O silêncio não me deixa dormir, melhor dizendo, a mente trabalhando, raciocinando, pensando não me deixa dormir. O trabalho a receber, a devolutiva a um passo de ser concluída, as compras, os bolos e cookies a fazer, a viagem, a saudade que vou sentir de você. Não me deixam dormir, me fazendo repassar todos os passos para que eu não esqueça de uma vírgula sequer e cada vez que repasso, a lista cresce. A aula de canto, a terapia, os livros a ler, os filmes para assistir, as ligações, os compromissos, os documentos, o banco, o cachorro, o almoço. Meu deus! Esqueci do almoço! Volta, refaz a lista. Como vou sentir falta de você. Os espaços nisso tudo para "ligação para ele", "possível encontro com ele" são muitos e faço questão. Não importa de atrasar a conta, ele vem primeiro, não importa de esquecer alguma coisa da lista, ele vem primeiro. Quê? Ele vem primeiro? Desde quando namorado foi prioridade na minha vida. Desde ele aparecer. E a saudade que vou sentir durante a viagem? Confesso, seria o acontecimento do ano, a espera ansiosamente. Claro que quero ir, mas já não é o acontecimento do ano. O acontecimento do ano, foi conhecê-lo e será, depois de 15 dias fora. Quin-ze-di-as. Encontrá-lo no aeroporto para aquele abraço. Rio disso tudo. Lembro da vida que eu levava, da solidão que eu tanto gostava. Da idéia de viver sozinha por todo sempre e concluo, simples assim, que não sinto falta da manutenção de solteira, gosto da vida a dois incompleta. E espero que ela se complete no altar. Quem diria... quem diria...


Paula Cristina.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Quando se perde a inocência

Você sabe que perdeu a inocência quando descobre que suporta a dor. A dor do luto, a dor da culpa, a dor da separação, a dor da solidão, a dor... Você sabe que perdeu a inocência, quando percebe que tudo tem dois lados e, que portanto, em certa medida todos podem ser mal interpretados e podem mal interpretar. Você perde a inocência quando as noites de insônia te contam as coisas que você sabe não poder mudar. Você perde a inocência quando começa a procurar opiniões diferentes para formar a sua própria e, às vezes, chega a duvidar de si mesmo não por falta de confiança, mas por saber que você também é falho e muitas das vezes você estará errado. Mas você perde a inocência também quando começa a se perguntar o que é certo e o que é errado e se os dois não estão juntos, interligados, impossibilitados de separar. Você perde a inocência quando percebe que um simples texto que parece arrancar a alma pode ter menos que vinte linhas e, portanto, nada pode ser por completo medido. Você perde a inocência quando descobre que nada sabe e talvez, nunca saberá.



Paula C. Arrais

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Não é meu...

Quando as palavras martelam em sua cabeça e você não sabe o que fazer com elas. Elas não são minhas, nunca foram e você as coloca em minha frente esperando que eu as aceite, mas não aceito. Não aceito porque apesar de serem dirigidas a mim não são para mim, são para confortar sua dor, são para você, lá no fundo. Para você se apoiar em alguma coisa quando a alma dói e você não sabe porque. Talvez até saiba, mas não quer se contar. Suas palavras são suas e doem em mim porque sei que doem em você, mas nada posso fazer senão dizer que não são para mim. Eu sinto muito. É um fardo muito pesado carregar os problemas dos outros nas costas, por mais que você tente ajeitar, nunca dá certo, porque a chave não lhe pertence, é um código que só o outro tem, como uma digital. Não pode ser passada, transmitida, ensinada. Dói seu desapontamento, dói seu olhar de rancor, dói seu olhar de tristeza, mas eu nada posso fazer, senão sentar e esperar. Esperar que você enfrente suas dores e me encontre em uma rua qualquer de seu próprio caminho.



Paula Cristina.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Escrever

Perdi a linha de raciocínio pelos dias afora. Quiz escrever tantas e tantas vezes, mas simplesmente, aquele momento de silêncio e encontro comigo não acontecia... Tratei de tentar meditar nas horas vagas e, às vezes, surgia um assunto para tratar, mas ainda não era hora de por no papel. A hora não chegou e tive vontade de dizer algo, mas este algo me escapou. Estou tão contente de mim, tão contente da vida, tão contente de tudo que transbordei e deixei o sorriso espirrar um pouco da pressão de alegria que assola meu peito. É por isso que quando quero escrever, fica difícil sair o que eu queria dizer. Preciso transbordar, explodir de emoção, deixar tudo entrar para depois sair. Escrever para mim é isto: comunicar o que não dá para ser comunicado, transformar em palavras o que é tão forte que perde a capacidade da fala. Escrever para mim é soltar a alma e deixá-la esparramada nas palavras.

domingo, 30 de outubro de 2011

Homenagem à Rosimeiry


"A morte é apenas uma travessia do mundo, tal como os amigos que atravessam o mar e permanecem vivos uns nos outros
Porque sentem necessidade de estar presentes, para amar e viver o que é onipresente.
Neste espelho divino vêem-se face a face; e sua conversa é livre e pura.
Este é o consolo dos amigos e embora se digam que morrem, sua amizade e convívio estão,
no melhor sentido, sempre presentes, porque são imortais."
- William Penn, More Fruits of Solitude

Hoje eu acordei com câimbra nos pés, com o dedo machucado e o joelho doendo, mas não é um daqueles dia que eu coloco culpa na dança ou em um descuido qualquer pessoal. A razão destas dores que me impedem andar melhor são dores de luto. Ontem ao dormir, não consegui ler minha diária dose de um capítulo de harry potter seguidamente e, para quem me conhece, isso é, no mínimo estranho, para mim é luto. Hoje eu acordei sem sono e mantive. Esta madrugada, eu não acordei às 3h com medo ou sede, eu acordei às 1h, 2h e 4h com pesar. Acordei hoje, às 7h sem sono e, quem me conhece, sabe que isso para mim é madrugar. Hoje estou de luto, porque você não mais atenderá o telefone, não mais mandará mensagem. Você está em outro lugar, acredito que bem, tranquila, liberta. Mas hoje vou parar tudo para acompanhar você uma última vez, porque é tudo que tenho. Hoje estou de luto, porque hoje eu perdi uma amiga, uma prima (como você mesma me considerava também), uma companheira. Tudo que tenho a dizer é que eu te amo e espero que aonde quer que você esteja, aonde quer que você vá, esteja em paz, a paz que você merece tão bem.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Você

Já falaram de flores
e de espinhos também.
Já falaram de chuvas,
sucatas, melodias e
vidraças, mas não
falaram de você.

Você que mede as palavras
e se esconde por entre as
meias abarrotadas.

Já falaram de cinismos,
derrotas, sorrisos e
luares, mas não falaram
dos grilos, dos pássaros
e das brisas dos mares.

Talvez, tenham até dito,
mas estava tão ocupada
tentando entender porque
não falaram de você
que fiquei surda por um
minuto, esquecida de meu
próprio mundo.

Porque você é a maior
descoberta dentre os
desembaraços da vida.
Você que me faz sorrir
tantas vezes.


Paula Cristina.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O caminho é melhor ainda

A música tocava e eu senti cada miúdo da alma, cada palavra, cada nota. Senti, senti tanto que parei para refletir, deixei-me vaguear e deu aquele baque de quem percebe alguma coisa doída, estranha, nova, verdade. Aquelas verdades escondidas por baixo de pano que te faz estremecer. Pois bem, estremeci. Respirei fundo, acendi uma vela, sentei no chão e me deixei, naquele escuro pausado de vela, vagueando, pensando, refletindo. Me dei conta de tanta coisa, me dei conta de que mudei. Mudei mais do que imaginava, menos do que eu esperava, o tanto exato para se dizer "no ponto". No ponto de mudar mais um pouquinho, crescer mais um pouquinho, chegar ao que eu esperava, sem ser exatamente o que eu espero hoje, porque a gente anda e o caminho se abre e você vê mais longe e pensa "vou chegar lá, não cheguei, ainda, nem aonde eu queria, que é meio caminho até aonde eu quero agora, mas eu chego. Ah, se chego". E então eu ri, será que daqui uns meses as músicas, os livros, as roupas que eu amo serão os mesmos? Fechei os olhos e fiquei escutando tudo à minha volta e pensei comigo "algumas coisas nunca mudam..." sorri de novo. O novo é bom, o velho também, o caminho é melhor ainda...



Paula Cristina.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

apenas se perder...

Ela sentou no meio fio. Passou as mãos pelo rosto. Não acreditava no que tinha acabado de presenciar. Respirou fundo, deixou um suspiro pesado sair de seus pulmões. Não queria pensar, conversar, nada. Não queria absolutamente nada naquele momento. A sensação de falta de ar a incomodava, mas tudo bem, daqui um tempo passa. Músicas e mais músicas surgiam em sua mente, mas não queria ouvir, não queria pensar, não queria cantar. Precisava de um pouco de silêncio, daqueles de meditação. Controlar o centro, conversar com seu centro, se restabelecer. Poderia ser o cansaço, mas não era só o cansaço. Era horas de sono mal dormido, preocupação desnecessárias de trabalhos ainda não planejados e futuros não resolvidos, medo de certos assuntos, irritação por certos momentos. Era um conjunto de coisas banais que se tornavam enormemente ameaçadoras diante da ansiedade dela. Levantou do meio fio e entrou na casa logo atrás. Tomou um banho. Aprendera que banhos rejuvenescem e relaxam como nunca, quem quer que tenha contado isso a ela estava certo, sempre funcionava. Foi colocando a roupa devagarzinho, pegou o celular, queria ligar, mas sentia que ia atrapalhar uma tarde calma com sua presença desconcertante. Não que fosse sempre assim, mas neste dia, estava cansada, meio incomodada com o mundo e não queria conversar. Iriam ficar ali, naquele silêncio estranho porque ela não aguentava, tinha que compartilhar seus momentos angustiantes com alguém. Não, de forma alguma. Jogou o celular de lado e saiu caminhando sem rumo. Queria se perder, por uns minutos singelos, apenas se perder...



Paula Cristina.

domingo, 21 de agosto de 2011

Dia nublado

Aquele silêncio conhecido de início de manhã, um passarinho aqui, outro passarinho ali trazem o ar da graça para aquela manhã nublada com cheirinho de campo e de chuva e uma pitada inconfundível de lar. Os apaixonados pelo verão que me desculpem, mas esse tempinho é o melhor, tem jeito de lar, café e aconchego... não nasci para viver nos trópicos, gosto do frio, do arrepiar da pele, da brisa leve e fria que passa pelo corpo contando que existe vida no meio do nada. Fecho os olhos lentamente saboreando o ar ao meu redor, respiro fundo para que o ar penetre da forma mais gostosa, sento e medito minutos a fio. Calma, pacificidade, sorrisos, tranquilidade. Fecho os olhos para guardar na memória (como faço em todos os dias assim) o tom acinzentado do céu, o cheiro de orvalho, terra, folhas, troncos de árvore, o toque da brisa, do frio, a luz escondida do sol (e ainda assim o dia fica claro como nunca). Levanto, arrumo o café, jogo conversa fora, leio meus blogs favoritos, checo meu horóscopo (como toda boa supersticiosa faz), checo os emails, os livros que estou lendo, os filmes que já vi, pesquiso os lugares que quero conhecer e a lista das minhas paixões menores vai ficando cada vez maior e o meu sorriso cada vez mais bem feito. Sei então que estou em casa. Agora só falta aquela ligação que eu tanto amo para completar o dia "estou passando ai" e vem a correria da ansiedade para ajeitar o cabelo e passar um perfume. Meu dia então fica completo.
Bom dia blogueiros! E que dia! ;)


Paula Cristina.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Talvez...

Talvez fosse o vento escondido no tronco da árvores ou mesmo o sol disfarçado de sombra, mas por um momento senti o silêncio tomar conta de meu interior de tal forma que eu pudesse simplesmente compreender coisas que nunca ficaram claras e parar de criar coisas que nunca estiveram ali, nem mesmo por alguns segundos quaisquer. Então ao perceber o movimento sorri sorrateiramente para não afugentar as idéias. Sentei e escrevi tudo e pensei e raciocinei e trabalhei coisas que nunca havia trabalhado antes, mas que agora eram tão óbvias que me perguntava "porque? Porque não percebi isso antes?". Talvez não estivesse preparada, talvez não quisesse ver, talvez eu cresci mais um pouco sem me dar conta. Não importa tanto o talvez, o que importa é que cheguei aqui e isso me faz tão bem que me pergunto "onde estive este tempo todo? Será que o jardim sempre foi um jardim?", então me dou conta de que o jardim sempre esteve ali, a diferença é que agora eu olhava pelo buraco da fechadura. A chave está em algum lugar, talvez bem ao meu lado sem que eu perceba, talvez escondida para que eu a encontre. O que importa é a vontade de encontrar, a tentativa árdua. Não importa o tempo, importa o que eu faço dele.


Paula Cristina.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O quadro

Ali, branco no preto, rosa no marrom, cor sobre cor. Rabiscos e mais rabiscos formavam um quadro. Lindo, sutil, inocente. Aquela inocência de contos de criança quando não entende a parte do sexo, do tabu, do escondido da sociedade. O beijo leve na bochecha, a vermelhidão da face condenando a vergonha, o despreparo, o desconhecido, o carinho. Era tão bonito que chegava a ser meigo, era tão amor que chegava a tocar. Como se fosse a própria, na ponta dos pés, beijando a bochecha, os olhos fechados condenando um "eu gosto, gosto sim" sorria e pensava "que lindo, quero beijar assim..."

terça-feira, 19 de julho de 2011

Minha vontade de desenhar

Sentei no meio fio, os pés descalços, o lápis e o papel. Não sei desenhar, mas tentei, tentei e tentei, até que saiu um rabisco, meio xoxo, mas tudo que sei fazer (ainda). Esqueci da minha vontade de desenhar bem lá no fundo - sabe como é, falta de tempo, de vontade, de energia, de confiança - mas então, eis que assisto um filme lindo de morrer e a vontade volta. Após chorar litros por compreender e sentir toda a história, me colocar no lugar dos personagens (mesmo que minha história não tenha "bulhufas" a ver com a deles) sento em frente ao computador e me pego procurando fotos que eu poderia copiar; como incentivo, algo mais fácil, menos complexo, que me deixe sentir capaz, energizada e apaixonada pelos traços. Mas eu não paro tudo para desenhar, treinar, tentar. Paro para escrever sobre isso tudo, penso na música perfeita que cairia maravilhosamente bem em uma cena como esta, escolho os desenhos e, quem sabe - depois que eu terminar de me explicar para pessoas que provavelmente nunca terei o prazer ou desprazer de conhecer - eu paro alguns minutos da minha vida para tentar transcrever tudo que sinto em um desenho no papel. Não faz mal, com o tempo me acostumo a me manter focada, e nesse dia meu desenho será lindo, meu sorriso será doce e a arte estará completa: música, palavras, dança, teatro, desenho, cozinha, fotografia, design... tudo em um só ambiente. Mas cada coisa no seu tempo, cada coisa no seu tempo. Enquanto isso, a menina descalça senta na soleira de casa e vê o mundo passar, sentindo cada momento, respirando cada segundo...


Paula Cristina.

domingo, 17 de julho de 2011

"...depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você." Caio Fernando Abreu

Meu olhos negaram os olhares, meu sorriso não permanecia em minha face, meu desconforto era óbvio. Nunca fui boa em mentir ou me esconder. Sempre clara, óbvia, destrutivamente sincera, ingênua em minha falta de ingenuidade. A contradição mais dolorosa, a verdade mais ridícula. Não era de propósito, era muito mais fácil fingir e não discutir o assunto, mas você notou porque me conhece mais do que eu. Nem sabia sobre o que se tratava meu desconforto e você falou e eu pensei comigo "ridículo, não é por isso", mas era... era tanto que chorei por horas a fio com vergonha da minha ingenuidade maligna de não perceber que meu estresse era não estar ao seu lado, quando fui eu quem escolheu ficar ali enquanto você estava lá. Odeio admitir minha fragilidade, mas não sei ser sem a sinceridade que incomoda até mesmo a mim. Odeio admitir que você faz parte completa dos meus dias, porque até tempos atrás eu nem mesmo precisava disso tudo. E apesar de tudo, a única coisa que eu tenho a fazer é agradecer por você estar ao meu lado.


Paula Cristina.

domingo, 10 de julho de 2011

Sem água

Depois de ficar horas a fio sem nem ao menos transcender durante alguns instantes, eis que surge o clique: não conseguia dormir por causa da sede. Não bebi água o dia inteiro, chego em casa e o cano "não-sei-das-quantas" que entregava a água nas redondezas de minha casa tinha estourado! Pois bem: sem água, com sede; sem água, querendo tomar banho; sem água, querendo escovar os dentes. SEM ÁGUA. Revolta geral, definitivamente não sabemos viver sem água... No final das contas são duas horas da manhã e finalmente consigo beber meu copo de água, agora é esperar o sono para que a noite dê certo e eu funcione amanhã de manhã, porque amanhã é um outro dia... e por favor não falte água.


Paula Cristina.

terça-feira, 5 de julho de 2011

As ligações

Quando o sono bate e as cobertas fazem hora para que ela se esquente, é nessa hora que ela sonha, esquece do mundo. Quando ele não pode fazer parte, é nessa hora que ela sente mais falta. Falta do afago, do abraço, da respiração entrecortada pela voz que sai da boca dele. O travesseiro, então, serve de consolo para a saudade apertada e rasteira. Mas não faz mal, ela vai dormir, esquecer do mundo e sonhar com ele (porque desejo é desejo em qualquer lugar); e quando acordar ele vai ligar e dizer do dia e ela, com um sorriso, vai ouvir histórias ou pensamentos e contá-las também. Então o dia vai passar e o telefone tocar. A voz do outro lado da linha vai falar e o mesmo sorriso incontido vai aparecer, como todas as manhãs e todas as tardes. E assim a história segue, cada dia uma história nova, cada dia um novo acontecimento e aquilo que era para ser incrivelmente chato, cansativo e monótono se torna em algo diferente todos os dias. Nunca se sabe o que vai acontecer, a não ser as ligações e se algum dia elas não ocorrerem... ah, que falta, que negação...


Paula Cristina.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O sangue escorria vagarosamente sob seus pés, mas não importava. Sabia que em algum lugar doía, mas não no momento. Aproveitou então, para dormir, descansar. Não dormiu, mas os lábios sorriam tanto e riam tanto e a diversão veio sozinha, companheira, suave...


Paula Cristina.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Medo

Os homens debaixo daquelas capas escuras. Homens! Sim, homens! Nunca percebia e de repente "boom!"... a bomba sobre meus pés... meu medo era de homens, encapuzados, preconceituosos, desumanos, psicopatas, inconsequentes. Não tenho medo de coisas além, tenho medo do que estes homens se tornarão. Não tenho medo do desconhecido, mas da vida desconhecida destes homens. Não tenho medo do mundo, mas das atrocidades destes mesmos homens, que de tanto matar, brutalizar e incompreender trouxeram dor e horror ao mundo. Culpo um pouco demais os homens e coloco, sem querer, as mulheres como vítimas, mesmo que lá fundo, sei que essas perversidades são de ambos. São esses horrores que não me deixam pregar os olhos de noite, os horrores de histórias que poderiam acontecer pelo descuido e delinquência de tantos outros "humanos". E as capas escondem os rostos, representam o desconhecido, o horror, a escuridão de não enxergar nada além do tecido. Confesso ter medo de humanos. Tenho medo de minha própria raça, que de tanto desejo pelo poder e imortalidade esquecem que existem outros iguais, que vivem juntos e se ajudam. Me assusta a falta de respeito ao outro, o egoísmo exacerbado e a individualização doentia.
Ao descobrir que são homens, respiro fundo e enxergo o medo como um aliado que me alerta e me cuida tranquilamente para que eu possa fechar os olhos. Às vezes me esqueço que ele está ali para me proteger e então, nestes dias, eu não consigo pregar o olho. Tenho então, que achar meios para distrair minha cabeça tão imaginativa. Mas outros dias, deito no colo do medo e deixo que ele me nine e cuide dos meus sonhos para que meu sono seja pacífico e restaurador. E quando eu acordo, estou preparada para enfrentar os fantasmas que nós humanos criamos para nos manter vivos, fortes.


Paula Cristina.

domingo, 12 de junho de 2011

Um breve desconforto

Por um momento perdeu o chão, como podia ser tão burra? Será que não percebia que aquele tipo de assunto incomoda? Não... tinha que ser por completo sincera, contar para ele das dores de ser ignorada por pessoas que ele não compreendia ser importantes, simplesmente por serem queridas, sem fazer muita coisa, sem ter muito contato. Ele foi falando e ela nem escutava mais, viu o rosto dele contorcido (ela não sabia se de raiva, ciúmes ou uma leve irritação), a voz denunciava um leve desconforto por parte dele. Quando se deu conta, estava chorando. Chorando por ser tão estúpida de não pensar antes de falar. Está tão acostumada a falar sobre sua vida sem precisar se preocupar com o que os outros vão pensar que não raciocinou que desta vez deveria ser diferente, que talvez ele não compreendesse um carinho genuíno por um completo estranho. Ele desesperou quando viu as lágrimas derramando sobre seu rosto. O que ele deve ter pensado naquele momento? Falava, tentando aliviar a dor dela que nem ela sabia que sentiria ao perceber que tinha incomodado alguém, que tinha incomodado ele. As mãos dele perpassando o rosto dela, que se contorciam tentando não mostrar a dor, tentando segurar as lágrimas que insistiam cair enquanto passavam pensamentos mil de tudo que ele poderia estar pensando. Será que ele não percebia que ela escolhera ele? Será que ele não percebia que ele foi o único a entrar e modificar seus dias? Esperava que percebesse isso, esperava que percebesse o quanto ele significava para ela.


Paula Cristina.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sem título, apenas um trecho "vazio" de letras

Quantos "eu te amo" recitei, quantos permaneceram amor? Quantos sorrisos eu dei, quantos permaneceram na dor? Quantos abraços apertei, quantos abraços ficaram? Apenas o essencial, pessoas de para sempre, amigos, irmãos de coração. Tantas as mudanças e tantos acontecimentos. O único costume que mantive foi sorrir diariamente, mesmo que para pessoas desconhecidas, mas o resto? Hoje já não consigo dizer "eu te amo" por mais que o queira a não ser que seja aquela pessoa de anos a fio, amiga do peito, parceira da vida. Não consigo abraçar por completo a não ser que seja de casa, íntimo, irmão de coração. Em mim ficou um vazio preenchido por cautela, cuidado pessoal e amor próprio. Não é um vazio triste, é um vazio feliz, realizado, bonito, sincero. É esse vazio que mantém as muralhas que me protegem das dores, é esse vazio que no final não é vazio, tem recheio líquido que às vezes transborda e incomoda alguns invejosos de plantão, mas isso não faz mal, quem sabe essas pessoas não aprendam a criar suas muralhas e usufruir de sua própria felicidade, ao invés de tentar roubar a dos outros...



Paula Cristina.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Seus mimos...

Deixe-me apaixonar por você como alguém que nunca amou. Não quero perdas de tempo, apenas toques, sorrisos, confissões, brincadeiras... O cheiro da brisa que incendeia meu coração quando o vento balança meus cabelos em meio às árvores me mantém calma, focada, pacificada. Você mima meu coração com cerejas recheadas de olhares e toques e palavras, você mima meu coração com filmes e cervejas e comidas, você mima meu coração com seu jeito só seu de sorrir e viver e ser. Você me mima, você me faz dormir...


Paula Cristina.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Intimidade

A menina de vestido verde, sentada à mesa comendo pão e bebendo cerveja se divertia brincando com o cachorro. O chão frio segurava seu corpo que se movia constantemente para todos os lados possíveis. O homem a olhava enquanto fazia comida e correspondia os olhares da menina. O relógio tiquetateava calmamente, esperando o tempo chegar, esperando o tempo passar. A comida ficou pronta, o fogo apagou. A menina então, sentou ao lado do homem para comer. Olhava-o interessada, queria ver cada movimento, perceber cada momento e cada sentimento que perpassava por ele. Ele, muito ocupado com os talheres não percebeu o quanto ela o olhava. Os talheres foram finalmente postos de lado, ele a olhou e ela já era mulher novamente, o ar de menina travessa se escondeu por trás dos olhos que agora seduziam-no sem um pingo de escrúpulos. Não tinha medo e a intimidade que ia crescendo aos poucos preenchendo o vazio entre os dois aumentava e diminuia o espaço em branco que tanto queriam preencher. De fundo, o relógio insistia em tiquetatear, mas eles já não ouviam. Estavam em um tempo paralelo, encontraram-se na linha tênue dos tempo e do não-tempo e ficaram ali a trocar confissões com o olhar. Pela primeira vez aquele tipo de intimidade não a assustava, não a incomodava...


Paula Cristina.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Queria momentos, e só.

A menina no vestido azul passava tranquilamente pelo corredor fingindo não procurá-lo. Os quartos se abriam a medida que passava, mas todos vazios, pareciam caçoar do desejo escondido que tinha de encontrá-lo. Desistiu, sentou a um canto, quase corroendo-se por dentro e acabou por adormecer em cima de alguns livros caídos de pilhas e pilhas baseadas no chão. O cheiro de livro de biblioteca inundava seu corpo e dormiu ali, sonhando, sentindo o cheiro dele a cada expiração. Sentia o cheiro dos livros e o cheiro dele. Tudo se misturava em uma dança sensual. Acordou assustada, não se lembrava de adormecer. Pegou seu som portátil e se dirigiu à entrada da biblioteca. O barulho dos passos faziam-na olhar com a esperança cabulosa de ser ele, quando era óbvio que não seria, ele não frequentava ali, pelo menos, não até onde sabia. As músicas eram todas para ele. Desligou o som, estava tentando não pensar nele. A luz do dia estava diferente, tinha que comentar aquele fenômeno com ele. Não, ele não, de novo? "Não posso pensar nele", mas quanto mais se impedia, mais pensava. No final das contas desistiu de não pensar nele. Pensou, pensou muito. Pensou tanto que ligou. Ele do outro lado da linha dizia que sentia saudade. Ela pulou por dentro, o coração acelerado. Será que ele também esforçava-se para não pensar nela? Torcia que sim, fingia que não. Se acreditasse piamente nisso, as esperanças de serem um casal aumentariam e ela não queria criar esperanças, queria simplesmente viver aquele momento e poder dizer boa noite a ele quando for dormir. Queria momentos, e só.



Paula Cristina.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Só um bobo não perceberia

O telefone tocava denunciando as horas passadas. A mensagem na secretária eletrônica denunciava as batidas do coração que aceleravam a cada sílaba pronunciada. A voz dele era calma, suave, bonita. Gostava quando telefone tocava daquela forma, era ele mais uma vez... Quantas vezes odiou presença, agora adorava presença. Quantas vezes odiou elogios, agora torcia para os elogios ocorrerem. Quantas vezes odiou largar sua rotina, seu pijama regado a noites de filmes para sair, agora esperava impaciente o horário de pegar o carro e deixar aquele filme tão esperado para outro dia. Quando as mensagens chegavam era um pulo do coração a cada palavra lida e um sorriso a cada frase terminada. Estava mais paciente também. Será que foram as tantas lágrimas derramadas ou um simples amadurecimento, uma mudança de fase? Talvez fossem os dois... Ela sorria encabulada e ria um riso alegre e apaixonado. Ele ainda não sabia disso, não por completo, mas era óbvio, estava estampado no rosto, só um bobo não perceberia...


Paula Cristina.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Texto da Marla de Queiroz

"Ele não sabe mais (quase) nada sobre mim.
Não sabe que o aperto no meu peito diminuiu, que meu cabelo cresceu, que os meus olhos estão menos melancólicos, mas que tenho estado quieta, calada, concentrada numa vida prática, e sem aquela necessidade toda de ser amada.
Ele não sabe quantos livros puder ler em algumas semanas.
Não sabe quais são meus novos assuntos nem os filmes favoritos.
Ele não sabe (...) mas conservo alguma curiosidade em saber se o seu coração está mais tranquilo, se seu cabelo mudou, se o seu olhar continua inquieto. Ele nem imagina quanta coisa pude planejar durante esses dias e como me isolei pra tentar organizar todos os meus projetos.
Que tenho sentido mais sono e ainda assim, dormido pouco.
Que tenho escrito mais no meu caderno de sonhos.
Que aqui faz tanto frio, ele não sabe por mim.
Ele não sabe (...) que aprendi a não sobrecarregar meu coração, este órgão tão nobre.
Ele não sabe que eu entendi que se eu resolver a minha dor, ainda assim, poderei criar através da dor alheia sem precisar sofrer junto pra conceber um poema de cura.
Hoje foi um dia em que percebi quanta coisa em mim mudou e ele não sabe sobre nada disso.
Ele não sabe que tenho estado tão só sem a devastadora sensação de me sentir sozinha.
Ele não sabe que desde que não compartilhamos mais (quase) nada sobre nós, eu tive que me tornar minha melhor companhia: ele nem imagina que foi ele quem me ensinou esta alegria."

terça-feira, 19 de abril de 2011

Decepção

Eu me pergunto o que será de sua filha, que vive em uma casa onde o ódio simplesmente pelo ódio se faz presente. Não sei qual seria pior, ser molde ou não sê-lo nessa situação. A decepção que desce por meu corpo, pela minha alma escorre como um veneno infectando cada sorriso, cada cuidado. De onde vem tanta raiva? Tanta ignorância? Dói pensar que a cada dia que passa, nos distanciamos mais e mais, pelas atitudes, pelas idéias, pelo respeito. O que você fará quando eu fizer minha primeira tatuagem de tantas outras que eu farei? Qual será sua reação quando descobrir de tantas desejos e sonhos que estou para realizar que não condizem com a sua moral? Acho que já tenho a resposta estampada nas suas frases de ódio contido. Você me amará depois de tudo isso? Existirá respeito ou serei um ser a mais cuspido pelas forças do destino para fora de sua vida? Você não vê que o mundo mudou, que as diferenças são lindas, que cada um tem uma vida diferente, um estilo diferente? Esse seu ódio sem cabimento me afasta de você, me enoja. Eu, mais do que qualquer outro deveria compreender isso, sou estudante de psicologia. Mas quer saber? Eu não entendo, não entendo porque escolher o caos, quando é tão mais simples, tão mais bonito e tão mais pacífico escolher o respeito. Eu não sou você e, por isso, eu sou linda e vice-versa. Hoje lágrimas sangram do meu coração ao saber que a distancia aumenta. Só torço para que não chegue a esse ponto, ao ponto de perdermos o respeito como você perdeu noutro dia.


Paula Cristina.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

É uma pena que ele não se importe...

It's such a shame that you don't care; it's' such a shame that we're not there...

As horas se arrastavam enquanto você sumia por milésimos de segundos. A foto emoldurada na parede contava de um menino disfarçado de homem. Um menino tão indefeso no amor quanto a menina. Ambos fingiam não ser e ambos de tornavam meninos por causa disso. O homem e a mulher, o menino e a menina. Ela não sabia se ia ou se ficava, não porque não gostasse, mas porque ela sabia que talvez ele não ficaria. É uma pena que ele não soubesse que por ele, tudo mudava... ele só sabia da atração, da tentação...



Paula Cristina.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Sua despedida.

Gosto da sua despedida, me alivia e me pacifica seu "até mais tarde", significa para mim que você volta, que você quer voltar. É lindo. E nesse brincar de perceber significações eu descubro que posso ser interessante pro outro da mesma forma que o outro me é interessante. Ser humano é lindo, poético. E nesse brincar de perceber a mim eu descubro que psicologia é lindo, assim como a paixão camuflada que quase nunca deixo transparecer e que transborda com suas despedidas...


Paula Cristina.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Só para constar...

Você me faz tão bem que não importo de ter apenas você na minha vida. Você me faz tão bem que não importo de aprender a pensar em um futuro nós. Você me faz tão bem que o sono não me cansa, que os dias são mais bonitos e os amores são mais leves. Você me faz bem, me faz tão bem. Sei que não é exatamente você, mas o que eu sinto quando estou com você. Poderia ser com qualquer outro, mas é com você e enquanto isso durar eu estarei disposta a sorrisos e calmarias. Sei que isso é gostar porque ninguém concorda com isso, ninguém põe fé. Eu ponho e só...


Paula Cristina.

Pós-abismo II

Ela seguiu, olhava à volta desconhecendo todos os caminhos, escolheu o mais bonito para combinar com seu vestido de flores e renda. O chão macio, amortecia os passos que ela dava tão delicadamente pela estrada. A mangueira lá na frente ofereceu-lhe uma manga deliciosa, avermelhada, doce e suculenta e seus galhos e folhas a protegeram do sol que ofuscava sua visão. Parou por tempo sem conta e depois seguiu caminho, em direção a algum lugar que ela não sabia. Passou por festas e chás e reuniões e de cada um dos lugares que passava levava alguma lembrança e deixava um pouco de si pelo caminho, partes sua que já não mais servia. Virava volta e meia e mudava a rota que escolhia à medida que sentia ser o melhor, sempre passando por estradas bonitas e calmas. Passou por jardins, labirintos e encruzilhadas. De vez enquando parava para conversar com os transeuntes, ler um livro ou mesmo ficar ali, parada, sem nada para fazer, só observando. Chegou a uma cidadezinha calma, com umas pessoas tranquilas que a faziam sorrir, escolheu ficar ali por tempo indeterminado. Os dias foram passando e aquelas pessoas se tornaram família, carinho, cuidado. Os anos passaram e ali, naquela cidadezinha, ela fincou suas raízes. Em uma noite enluarada, a cidadezinha toda parou. A chegada de um homem que ela ansiava por conhecer. Um tempo antes dela chegar na cidade, um homem foi em busca do mundo e deixou a cidade na saudade. Volta e meia cartas chegavam dando notícias de seu paradeiro e de sua vida, mas ele nunca voltava, entretido com tantas outras coisas e tantas outras vidas. Finalmente ela conheceria o tão querido homem. Vestiu-se de um vestido azul turqueza lindo, os cabelos presos em um coque desarrumado de fios caindo por sobre seu rosto, a sandália prateada ajustada a seus pés, os brincos claros como a lua combinados ao colar caído sobre seu peito nu e o anel de pedra transparente. A maquiagem deixava seu rosto mais nítido e vibrante e os olhos contavam de amores e denunciavam sua ansiedade. Desceu a rua em direção à praça e já podia ouvir de longe a música tocando, comemorando a volta do homem estranho. Sentiu que uma pontada de calma e inquietação se misturavam como se algo inesperado fosse acontecer, mas não sabia o que era. A muito havia esquecido de seu dom intuitivo, de como o cheiro das coisas eram diferentes de acordo com a situação. Acostumou-se com o rotineiro e esquecera-se do sentimento do desconhecido. Foi então que ao chegar do outro lado da rua, já em frente à praça ela notou um homem bonito de costas, parecia-lhe conhecido, alguma coisa de familiar, de apaixonante. Reconheceu-o imediatamente, mesmo de costas, ele a empurrara no abismo, ele a tinha conduzido por estradas que não conhecia e deixou-a assustada e triste. As lágrimas tentavam descer por sobre seu rosto, mas ela era mais forte, anos de caminhada sozinha a fizeram assim, ele a ensinara bem a aguentar dores insuportaveis e a enfrentar desafios dos mais variados. Não fazia diferença, estavam ambos na mesma cidade e ela não poderia deixar de acolhê-lo, aquelas pessoas que ela tanto amava o amavam também, como um dia ela o amou, como secretamente ela ainda o amava. Respirou fundo e pôs-se a andar da forma mais calma possível, não queria que percebessem o nervosismo que pesava suas pernas, que disparava seu coração. Parou em frente a um banco e sentou, conversando com a menina vestida de renda e flores, como ela se vestira também um dia. De repente, seus olhos não aguentaram e dirigiram-se a ele e foram pegos de surpresa, ele a olhava de longe e sorriu um sorriso tão bonito, tão real que ela não pode deixar de retribuir e segurar para não demonstrar que aquele sorriso quebrara todas as defesas que ela havia feito. Percebeu isso e se prometeu, naquele exato momento, que o evitaria o máximo possível para não cair na tentação de sofrer novamente como havia sofrido a tempos atrás. Como não podia deixar de ser, sua amiga mais íntima procurou sua mão -"venha, quero que o conheça, você vai adorá-lo"- impossível fugir. Se cumprimentaram e ficaram ali, na mesma roda, ela evitando seu olhar, ele procurando chamar sua atenção o máximo possível. A festa inteira ficaram um ao lado do outro, ela tentando se desvencilhar, ele tentando se aproximar. Sentia-se numa teia de aranha, não tinha saída, estava presa e quanto mais tentava sair da teia, mais presa e enrolada ficava. Percebeu que não tinha mais jeito, parou de tentar fugir e ficou a observar as pessoas a sua volta, procurando distrair sua mente. Da festa, foram para o bar da cidade, queria sentar-se o mais longe possível, mas foi a última a sentar e nessa brincadeira, sua cadeira era justamente a do lado da dele (o destino prega peças às vezes, que ninguém entende, pensou). A ansiedade tomava proporções descomunais e agora já não era possível escondê-la, ela não sabia o que fazer, tudo que pensava era "porque você foi embora, porque você me deixou, porque você voltou e porque você está aqui ao meu lado, tentando chamar minha atenção? Não vê que eu morreria por dentro se você partisse? E você vai partir, você sempre parte..." Tomava um drinque e outro, tentando disfarçar, mas não adiantava, ele percebeu, insistiu, sabia o que queria. Sua amiga olhou o horário e pediu para que eles a esperassem no bar, ia ali buscar o irmão na praça. Só podia ser brincadeira, ela não queria ficar sozinha com ele, sabia o que sentia e sabia no que ia dar tudo aquilo, não tinha como fugir, a teia estava bem feita, pronta para qualquer tentativa de escape. Olhava para os lados em uma tentativa frustrada de fingir não ver o que estava acontecendo, mas ele foi mais esperto, prendeu sua atenção em um piscar de olhos e então a perdição se fez presente, ela sabia que se debater não adiantava mais, nem queria mais fazê-lo e ficou contando os segundos para que ele a beijasse de uma vez e a fizesse esquecer por um minuto que o mundo existia como tantas outras vezes o fez. E assim, a noite se alastrou e o beijo dele trouxe uma paz inexplicável, como se nada fosse tão certo naquele momento. O medo já não mais paralizava, mas dava asas para que ela pudesse escolher seu próximo passo. Ela podia perder-se amando-o ou podia amá-lo pacificamente como uma árvore no jardim, esperando seu pássaro preto voltar para dormir em seus galhos. Escolheu a segunda alternativa. O futuro? Não mais a amedrontava, como tantas outras vezes, escolheu o caminho mais bonito, mais tranquilo. Naquele dia, o caminho levava a ele.



Paula Cristina.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Fragmento de pensamentos

É uma pena que não vá dar certo, e que você já tenha escolhido não dar... é uma pena que eu possa apenas falar com você pensando que somos amigos, enquanto você olha para mim e pensa em ser algo no meio entre ser amigos e ser namorados. É uma pena que você não sinta suficiente falta de mim e que eu não sinta o mesmo por você. É uma pena, porque no final das contas, você ainda passa pelo fundo da minha mente, a idéia de duas pessoas caminhando caminhos diferentes e dividindo segredos conjuntos. É uma pena que eu seja mulher e você seja homem, é uma pena que pensemos tão diferente. É uma pena o que eu sinto, porque o que eu sinto é vazio, é impossibilidade. É uma pena cada fragmento de vida que se perde toda vez que minha dor toca no fundo do poço por você...



Paula Cristina.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

trecho conjunto

Acho que parte de você estava certo. Você era mais amigo que amante para mim. Você não era o desejo reprimido, era o alívio imediato. O medo do que os outros pensariam a respeito de nós dois era enorme, medo inconsciente (será?) de nos verem como casal. Você era meu melhor amigo. Tenho 22 anos e até hoje confundo amizade com estar apaixonado. Que coisa louca, que coisa louca. Contar sobre meu dia é reconfortante, falar com você, mas não essa coisa louca de ouvir sua voz. Meu beijo é mais leve com outro. Meu beijo é mais beijo com outro do que com você. Eu fui muito mais mulher com qualquer outro que tenha aparecido, então como isso poderia ser amor? Não, nãe é, nunca foi. Foi diversão, entusiasmo, foi fim de dia, o nome que você quiser, mas amor, meu bem, ficou muito distante de mim, de você, de nós.



Paula Cristina e M.A.

sábado, 2 de abril de 2011

Enterro

Já estive em seu enterro tantas vezes em março que desconfio que os anos passaram e eu não notei. Olho o calendário e o ano continua o mesmo. Você vem e volta e eu o mato tantas outras vezes. Não sei se consigo lidar um dia sequer com essa loucura camuflada. Você me confunde, eu me confundo. Eu te confundo, você se confunde. É tudo tão nebuloso, tão obscuro. E aqui estou eu, finalmente em abril em luto por você mais uma vez e tudo que me vem à cabeça é se você realmente morreu, se vou aguentar mais uma ressurreição e morte desavisada. Eu não sei, mas como sempre, eu nunca sei. Você me machuca, eu me machuco. Eu choro e o eco não responde. EU CHORO SOZINHA.
Não vou beber, não hoje, estou de luto. Não vou sair, não hoje, estou de luto. Vou sorrir e lembrar uma última vez. Lembranças pertencem ao passado e é lá que eu espero que fique (controvérsias à parte, você não vê meus gestos rápidos condenando a mentira que acabo de contar tentando convencer principalmente a mim). Amanhã eu vou acordar e vai ser um novo dia, com novas horas e novas histórias. Amanhã meu rosto vai acordar inchado, mas há sorrisos e maquiagens para esconder as marcas das dores de hoje. E quando amanhã eu acordar, você terá sido enterrado e eu terei chorado. Amanhã, porque hoje as lágrimas escorrem e caem para as novas cicatrizes que você, tão arduamente planejou.
O amanhã chegou e o alivio não passou...


Paula Cristina.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Mistério

Se eu conseguisse escrever cada segundo de história que passa em minha cabeça, talvez assim, um livro se escreveria por si só contando horas e minutos a fio, declarando as minhas loucuras e os meus fascínios. Se conseguisse pôr em palavras cada pensamento meu, então estaria decifrada como um enigma fácil diante de um gênio. E se por final fosse decifrada o mistério acabaria, como a minha própria pessoa, porque de que adianta me mover com um destino traçado ou sem nada para ser descoberto? Por sermos enigmas de nós mesmos nos tornamos humanos e nos perdemos humanos e então o ciclo da vida continua, se mantendo a cada passo disposto a chegar ao final da jornada, à concretude do conhecimento. O mistério nos mantém vivos e só.



Paula Cristina.

história mórbida

Ele não sabia o que queria, como queria... tudo que sabia era simplesmente sentir aquele vazio que o atormentava. As ruas pareciam escuras, enegrecidas e o toque místico do vento sussurrando em seu ouvido quase causava um "frenesi" momentâneo que nunca chegava a se completar. O sangue escorrendo pelas mãos trêmulas de tanta força usada para mantê-las cerradas, o coração disparado condenava toda uma rua deserta pelas batidas surdas que se deixavam ouvir pelo corpo e ecoar pelo vazio. Qualquer um que visse aquela cena, pensaria em alguém perigoso com cara de psicopata como naqueles filmes clássicos de terror. Mas olhando por entre-linhas, ali estava um assustado, perdido, sofrido, embriagado pelas próprias emoções. Qualquer um que o visse diria que estava embriagado, mas as gotas de álcool que mais próximo chegaram foram aquelas que adentravam bocas outras ao seu lado, que não a dele. Olhou para trás e viu aquela mancha de sangue o seguindo e denunciando-o de seu paradeiro. Como queria sangue-sugas nesse momento para que lambessem o chão, e encobrissem seu crime. A consciência pesou. Uma hora dariam por falta do Leo e a primeira pessoa que procuraria, o primeiro suspeito seria ele, já que era seu melhor amigo. Virou na próxima esquina, distanciando-se de casa. Andou duas quadras inteiras até chegar à delegacia.

Matei um homem - disse em uma voz fria e controlada. A mulher atrás do balcão olhou-o assustada.
- Sente-se, por favor - e discando o telefone disse numa tentativa de aparentar calma - Senhor, há um homem aqui dizendo ter matado alguém. - Aguardou as instruções do outro lado da linha, desligou o telefone e sorriu forçadamente à ele.
- Tenho que pegar os dados do senhor, se não se importar. Protocolos. Sabe como é.
Ele a fitou calmamente, pegou os documentos e entregou à mão trêmula da mulher. "Ela trabalha em uma delegacia, lida com homicidas mentirosos o tempo todo e não consegue nem ao menos controlar o próprio medo?". Riu consigo pensando se seria tão perigoso quanto a mulher imaginava, concluiu que não e sorriu para a mulher.
O policial responsável por aquele turno incoveniente da madrugada apareceu por uma porta atrás da mulher, olhou a ficha do homicida e disse em uma voz seca - Você diz ter matado alguém?
- Sim, matei. Por motivo nenhum aparente.
- Precisarei de nome e lugar do corpo.
- Leonardo Guilherme Fontini. Está estirado dentro de sua própria casa, no chão da sala de estar.
A secretária se pôs a vasculhar o endereço do pobre indivíduo, mas ele não constava em nenhuma lista. - Senhor, não encontro registro de ninguém com esse nome, tem certeza de que esse era o nome?
- Tenho. Foi meu melhor amigo por 14 anos. - A mulher olhou assustada. Como alguém teria coragem de matar o melhor amigo?
- Pode me dizer o endereço, por favor? Quem sabe assim, o encontro?
- Rua 66 Qd. 40 Nº99
A mulher olhou pelo canto do olho para o policial, que foi logo ver o que ela olhava.
- Não consta nenhum Fontini nessa casa, senhor. Porque não nos leva até lá?
Outro policial já esperava à porta da delegacia com um carro logo atrás, algemaram-no e entraram no carro. Seguiram as direções dadas pelo homicida e chegaram ao portão de uma grande casa, com jardim na frente. O policial bateu na porta e uma mulher, como era de se esperar atendeu. O policial perguntou se alguém havia sido morto ali, mas ao contrário do que se esperava ela contou sobre um acontecimento estranho mais cedo.
Um homem entrou em sua casa completamente atordoado, mas passou direto por ela, como se não a visse. Chegou à sala de visitas e começou a gritar, ela correu em sua direção, com medo de que estive brigando com seus filhos, mas no mesmo instantes os três desciam as escadas para ver também o que estava acontecendo. Quando ela chegou à porta da sala, viu o estranho gritando com um nada à sua frente. Ele então começou a bater no ar, foi em direção à parede como se estivesse pressionando alguém contra ela, mas não havia ninguém ali, ele então começou a esmurrar a parede com força e gostas de sangue começaram a escorrer de sua mão. Olhou para o chão parecendo ver alguma coisa lá e pediu desculpas para alguém. Saiu da sala, passou pela mulher e as crianças parecendo não vê-los, abriu a porta e foi embora.
A madrugada estava fria, o carro voltou para a delegacia. O homem foi solto. Naquela noite alguém morreu, ninguém saberia quem era, nem mesmo ele. O corpo enterrado no jardim de sua própria casa, um pouco antes de sair pelas ruas sem rumo. Seu próprio filho, não registrado em um cartório. Uma aberração da natureza. Matara sua mãe quando nasceu e por catorze anos fora trancado no porão da casa em que vivia. O sangue escorrendo pelas paredes foram lavados e a raiva fora camuflada por leves tons de cinza.O homem se matou naquela mesma noite. A casa estava assombrada.



Paula Cristina.

quinta-feira, 24 de março de 2011

no final das contas...

Sentei no meio fio, procurando alguma mão para segurar, alguém para me dizer que as coisas não são assim tão cinzas, tão leves a ponto do vento levar, tão embaçadas para não enxergarmos por dentro. Doía tanto, mas de todo jeito quantas vezes já não havia doído? A carta que eu nunca entreguei, na mão, já estava toda amassada de tanto aperto, de tanta angústia contida. Você não estava em casa, eu sabia, fui apenas para deixar a maldita carta na caixa de correio. Não tive coragem. Meus medos sempre me ameaçaram, meus medos insensatos. Sou tão corajosa para tanta coisa, mas para despedidas nunca fui boa, a sensação de solidão me dói a mente, o corpo, a respiração falha e as lágrimas tendem a cair freneticamente. O poste da rua apagou sozinho e eu me mantive ali, impassível, procurando uma forma de olhar para aqueles portões uma última vez. Não soube fazê-lo. As mãos trêmulas rasgaram a carta em mil pedaços e deixaram ali, no lixo da casa. Assim eu podia fingir ter entregado e então, seria apenas uma lembrança ruim de afastamento inevitável. No final das contas lá estava eu, parada sozinha em uma rua deserta pensando qual o próximo passo a dar em direção ao novo presente... eu não sabia, não sabia caminhar mais de tanto engatinhar por ruas escuras e sem saída. As pernas tremiam, os ossos ardiam por dentro, a cabeça latejava. Peguei o carro e dirigi para um boteco qualquer. A dose de gim que pedi deixou claro a qualquer um que ali estava de que eu havia deixado no passado alguma coisa. A despedida é sempre com gim. Eu ofereço a ele um gim, se ele estiver lendo isso agora. Mas como a carta, ele provavelmente não vai saber que este texto existe e se algum dia alguma parte do que escrevi para ele for descoberta, torço que seja a parte do "eu te amo", porque no final das contas, eu o amo apesar de tudo.


Paula Cristina.

sábado, 19 de março de 2011

a noite do outro?

Dizem que quando a gente sente que não vai dar certo acaba não dando mesmo, mas isso complica um pouco, porque é muito fácil ser otimista e encontrar desculpas para tudo mas quando é que a confiança é certa, quando é que você não está se iludindo? São tantos pensamentos incertos em sua cabeça que ela não sabe como lidar com eles. O que ela vê? O que significa? O que ela pode fazer? É tudo tão diferente do que deveria ser em sua cabeça, sempre foi. Parou, respirou por um minuto, não queria sair, mas saiu mesmo assim. Sabia que era bem vinda e querida naquele lugar desconhecido e foi dito e feito, todos as receberam de braços abertos e ela se sentiu em casa como se fossem amigos de data, companheiros de vidas. Esqueceu pela primeira vez da dor que ele causava nela sem saber (ou será que sabia?). Com o passar das horas vai conversa, vem conversa, vai olhares, vem olhares e lá estavam eles praticamente abraçados sem que ela ao menos percebesse o que estava acontecendo. De repente, o beijo inesperado, o que fazer? Ele não parecia, mas e se importasse? Eles não estavam sérios ou estavam? Tudo que sabia era de sua confusão, em qualquer outra ocasião ficaria, manteria o beijo a salvo em seus lábios, mas era diferente dessa vez, ele estava em sua vida, ele existia em sua vida... o que fazer? Tomou a decisão, não se arrependeu, mas sabe que em breve provavelmente terá que tomar uma decisão, enquanto não pode fazê-la aguarda calmamente que ele se toque de que ela exitou, coisa que nunca havia acontecido antes e se ela tivesse certeza do que estava acontecendo entre eles e fosse sério, ela não teria só exitado, teria deixado o beijo morrer ali, sem mais nem menos, talvez nem tivesse precisado abraçá-lo...


Paula Cristina.

sábado, 12 de março de 2011

De novo

Como era de se esperar, ultimamente ela estava em constante entrave com suas emoções. Vivia a chorar sem motivo algum (quer dizer, motivo tinha, mas energia pra chorar nunca teve até agora). Ele a viu chorar como sempre e ficou a se perguntar "porque, porque ela chora tanto?" e ela sem saber respondia silenciosa "eu não sei, alguma coisa mudou, alguma coisa em mim que me faz tão naturalmente triste e tão naturalmente louca e tão naturalmente feliz". Cada sentimento surgia atropelando o outro contando dos medos e inseguranças que nem ela mesma percebia ter dentro de si, por tanto tempo escondidos vida afora. Agora essa mudança repentina a fazia se perguntar quem a mudou: ela, o mundo ou ele? De acordo com ele, ninguém muda, só desconhece, mas sua vida, suas experiências e seus estudos levavam-na a questionar isso. Todo mundo muda, é uma questão de querer. E a pergunta continuava. Mas ultimamente duvidava até de si, das verdades que veio construindo e do mundo que pintou tão bem. Não acreditava em nada, mas acreditava em tudo e a contradição a confundia a cada passo que dava. O que fazer quando não se tinha a resposta mais simples. Não sabia nem ao menos o que queria. E o mundo dando voltas, não espera ela resolver e assim ela vê que não só o mundo dá voltas, ela também. E o dia vai, as horas vêm e a confusão mental sempre encontra um meio de começar de novo e de novo e de novo....


Paula Cristina.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Uma história de amor?

A luz do sol refletida na xícara de café em cima da mesa denunciava as oito horas da manhã em que o café da manhã era pontualmente servido no jardim. Ela segurava o jornal em frente ao seu rosto de modo a ver toda a extensão do mesmo sem precisar mover um músculo além dos olhos para cima e para baixo, de um lado para o outro.

- O dia está muito bonito para uma caminhada. - disse ele, com uma voz triste e rotineira.
-Sim está, quer que eu o acompanhe? Estamos mesmo precisando de um tempo para nós, não acha? - ela respondeu.
- Não sei se agora seria um momento oportuno para você. Além do mais tenho que passar na loja de ferramentas para olhar algumas coisas que ainda faltam ser organizadas. Quem sabe outro dia em que eu não esteja tão ocupado... - disse ele sem muitas delongas. Afinal de contas, ambos sabiam que estavam fartos de conversas enfadonhas e romantismos desnecessários.
- Tudo bem, como quiser. Só não demore muito, ontem chegou tão tarde que perdeu o almoço e quase também, o lanche da tarde. Me preocupo quando não come, pode ser que adoeça dessa forma. - respondeu ela com muito cuidado. Sabia que ultimamente estava extremamente sensível em relação a ajustes e compromissos.

Ele pegou sua carteira, o molho de chaves em cima do criado no corredor, deu um beijo na mulher e saiu andando de encontro com o mundo. A mulher ficou a olhar da janela até que o marido desaparecesse de vista na rua. Sorriu e se pôs a escrever freneticamente. Essas eram as melhores horas para escrever: não havia ninguém em casa e estava inspirada pelo homem que acabara de sair pela porta da frente.
As mãos dedilhavam levemente o teclado do computador, a música tocada era tão leve que lembrava um dia de domingo ensolarado em um campo aberto qualquer. As páginas pareciam ser escritas por si mesmas, sem mente pensante, sem dedos pulsantes, nem corações arrebatados. Apenas simples e puro milagre, como as obras deveriam ser (pelo menos, em sua cabeça).
A hora do almoço começava a se aproximar e ela então, pôs seu avental e fez o almoço mais caprichado que jamais fizera, afinal de contas valia o esforço. Arrumou o jardim, arrumou um buquê bonito de flores variadas no centro da mesa, escolheu o melhor vinho, colocou o melhor forro de mesa. Estava pronta para comemorar o aniversário de casamento. As horas foram passando, ele não chegava. Estava quase na hora do lanche e ainda assim, nada dele chegar (tudo bem, não fazia mal que tivesse esquecido, ele estava lá fora trabalhando e organizando para que a casa deles estivesse impecável). O lanche passou e no cair da noite a campainha toca (será que ele havia esquecido as chaves?).
Abriu a porta e não havia ninguém, apenas um bilhete dobrado em cima do tapete de boas-vindas. Nele estava escrito: "Minha querida, me desculpe. Durante o percurso de ida à loja de ferramentas descobri que não estou feliz nessa vida que levo. Amo-a muito, mas não sei viver com você. Não me esqueci do nosso aniversário, mas escolhi justamente este dia para que tenhamos vivido anos arrendondados juntos e assim nos poupe (a mim e a você) de contar os meses, os dias e as horas (nos casamos exatamente neste horário). E por meio dessa carta te aviso que só voltarei o dia que estiver feliz comigo, se nunca chegar a isto jamais voltarei. Com amor e saudades, seu sempre marido."
As lágrimas manchavam o papel. Ela o dobrou, pegou a melhor moldura que tinha na casa, tirou dela a foto, emoldurou a carta e colocou-a atrás da porta. Todas as vezes que a campainha tocava, ela olhava a moldura com a carta e com esperança abria a porta. Vezes sem conta nos primeiros meses fechava a porta e se punha a chorar. A escrita se tornou rara e inútil, as refeições nos jardins difíceis e pesadas. Até que um dia ignorou tudo aquilo e a moldura, ainda atrás da porta era lembrança de um passado lindo, as horas no jardins eram regadas de puro perdão e compreensão e as noites eram momentos de rendição ao fato de que ele nunca iria voltar. Era ela e ela e só. E todos os dias ela dormia com um anel de borboleta esperando que um dia ela também se transformaria na bela borboleta que fora a tempos, quando ele ainda pisava os chãos daquela casa...


Paula Cristina.

domingo, 6 de março de 2011

Só mais um dia sem medo era tudo que pedia...

Sempre aquela sensação de estar incomodando. Mandava uma carta, mas logo vinha a desconfiança de entrar no espaço alheio. Ligava e ali, bem na esquina o sentimento de importunação, de que não queriam aquela ligação. Chamava para sair e a impressão que tinha até ele chegar é de estar forçando entrada no mundo dele e, por consequência, ele iria embora um dia cansado de tanta bajulação, de tanta procura, de tanta insistência. Mas o que fazer? A saudade era mais forte, não dava tempo nem dele respirar e lá estava ela ligando de novo. Não que fosse sempre, mas para ela, que nunca fazia isso, era muito, muito mesmo e o sentimento a preenchia como o ar preenche os pulmões. O medo de perdê-lo a aterrorizava e aquela sensação de "ligo, não ligo" pesava sobre seu coração. Não sabia ser meio termo, tinha que aprender. Mas porque aprender justo com ele? Ele, que permanecia ao seu lado e que era tão amado. Ele, justo ele, a fazia enlouquecer nos mínimos detalhes. Não sabia se ligava, se contava, se perguntava, se calava... Não sabia como agir ao lado dele, procurava ser como sempre, mas isso já não funcionava. O contrário também não funcionava e tinha que inventar um jeito totalmente novo para mantê-lo ao lado dela. E isso a desesperava, ela não sabia sorrir diferente, nem falar diferente e ele a amava por isso (será mesmo? Não sabia se acreditava nisso. Não tinha certeza, talvez por enlouquecer por completo pensava isso enquanto estavam separados). Como fazer tanta loucura simplesmente desaparecer durante i percurso? não sabia ser normal e ele não se importava com isso, ao contrário, compreendia muito bem, até bem demais às vezes. E mais uma vez ela parava de pé, em frente àquelas paisagens, a cerveja na mão, torcendo para que ele voltasse e a acalmasse contando que não iria embora. Só mais um dia sem medo era tudo que pedia.


Paula Cristina.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

a algum qualquer?

Não sei se você me ignora ou ignora o fato de que me sinto ignorada. Não sei se você sente a falta que faz ou faz de propósito pra me pirraçar. Não sei se isso tudo passa ou se vai ficar, só sei que os dias passam e mais confusa, mais perdida, mais centrada em loucuras e neuroses eu fico. A cabeça roda, mas não dói. Nada dói. É como um vazio, uma falta de mim, uma falta de você, uma falta de nós. Pode ser loucura, pode ser perdição temporária, pode ser até uma falta de compreensão de um contexto maior e pode ser apenas saudade. O fato é que tudo mistura e eu misturo você a mim, mas não parece certo nos misturar, o bonito seria o encontro, sem comuns nem afins, apenas encontro e vontade de estar. Não sinto isso de você, talvez eu é que não tenha em mim e não sei disso, mas isso seria muita loucura e muita falta de mim...


Paula Cristina.

A conversa

Os olhos atenderam àquela forma indiscreta de observação. Foi literalmente engolida até a alma, as roupas do corpo tentando esconder o pouco que escondiam por baixo daqueles olhos de raio-x. Queria sair dali, mas o orgulho não a deixava se desvencilhar. Escondeu um sorriso de divertimento por trás dos olhos fugazes e escorregadios que não deixavam ninguém encará-los por muito tempo. Segurou a ponta do vestido e, mantendo a conversa longa suficiente, ficou ali a rir de coisas que não tinham graça e a falar apenas o bastante para manter uma conversa meio fajuta e se manter em evidência como sempre dava um jeito de estar. Não tinha graça não estar em evidência. Gostava de ser o centro, falava baixo pra manter a pessoa atenta, sem tirar os olhos e se a pessoa desvencilhava, mudava um pouco o tom para ela se interessar de novo. O sorriso era para chamar os interessados (e os desinteressados também). O olhar para manter aqueles que gostavam do "olho-a-olho" e um pouco sedutor às vezes quando percebia um certo quê de interesse por parte da outra pessoa. Procurava sempre agradar, não porque precisava da aprovação, mas porque agradando, era mais fácil ter o olhar deles em cima de si. Procurava saber sobre coisas só para manter conversas (mesmo que chatas) e procurava esconder saber quando também não sabiam. Utilizava máscaras para se manter querida e esconder seu ser, sua essência. Às vezes isso gerava problemas, já que de tanto se esconder, se esquecia e tinha que começar todo um trabalho árduo de auto conhecimento, o que se tornou constante e necessário. Não conhecia ninguém por completo, mas fingia muito bem conhecer. Andava sempre sozinha (é mais fácil conhecer pessoas novas quando se está só) e as pessoas acabavam por acreditar que era solitária. Não se importava com isso, sabia que não era. Ouvia todos os estilos de músicas possíveis e com o tempo, acabou por gostar de todos eles. Se tornou fácil de agradar pelo gosto eclético que foi adquirindo durante os anos. Das bebidas, todas a agradavam, menos variações de refrigerante (refrigerante é coca-cola e ponto!). Gostava de filmes também e de livros, todos variados. Andava horas e horas em um silêncio profundo, conversando consigo em um divertimento profundo. Gostava da água passando por seu corpo, limpando tudo e relaxando cada músculo enervado. De repente acordou de seu devaneio sobre seu jeito com os olhos dele nos dela. Riu de novo e percebeu o perigo de estar ali, tentando se manter em um grupo que nem ao menos conhecia direito. As mãos já suando frio e agora, todos tentavam lê-la, se manter em uma conversa que ela não sabia quando tinham entrado. Disfarçando o desconforto, devolveu a pergunta a ela dirigida com outra pergunta mais ousada ainda. Não queria sorrir, mas o costume não a deixaria parar. Estava confusa e sem graça com o rumo da conversa, precisava mais uma vez de estar só para poder rir da situação sozinha e criar mundos e histórias novas a partir de uma simples fala, de uma simples conversa que não levava a lugar nenhum.


Paula Cristina.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ele.

Sem saber o que era, deixou-se abrir para um mundo desconhecido e agora, assustada, deixava o medo tomar conta. Engoliu o medo e ligou, era a melhor forma de resolver as coisas. Não sabia o que sentia. Ele atendeu, estava ocupado, mas insistiu em falar. Ela compreendeu o cuidado a ela dirigido e acalmou os nervos. Porque sentia tanta falta dele? Ao invés de ignorar, deixou todos os pensamentos se acentarem e fazerem parte daquela vivência, realmente saber o que estava acontecendo, o que estava sentindo. Deitada na beira da piscina, olhou o céu e ficou a observar as nuvens, tentando compreender aquilo tudo e se deu conta de que certamente estava apaixonada. A falta que ele fazia não era falta de "estou sozinha, alguém sente ao meu lado". Não. Era mais que isso, era a falta do sorriso, do silêncio, do abraço, da voz, do beijo, da presença (mesmo que fosse apenas uma presença de endereço). Saber que ele estava ali, olhá-lo. O sentimento de tê-lo ali, simplesmente por ter, sem precisar dele, mas querendo-o ao seu lado. O sentimento de uma mulher apaixonada, de uma pessoa apaixonada. Era ele, não o príncipe encantado, ou o homem ideal. Apenas ele, com as brincadeiras desconcertantes, as inúmeras piadas, o estresse repugnante de algo que ele não concordava, a falta de escrúpulos ao dizer o que pensa, o carinho a ela destinado, o modo como não estava nem aí para o que pensavam, o olhar. Era tudo ele, daquele jeito que só ele sabe ser, daquele jeito que ninguém poderia copiar. E ele com todas as características foi quem a prendeu, ele que jamais fora o cara perfeito, tornara-se o cara que encaixava na sua vida, aquele que a fazia sorrir só de pensar nele. O estranho perfeito, sem sombra de dúvidas que sabe vê-la e percebê-la como nenhum outro conseguiu. Ele que a fez se apaixonar, ele que mudou a forma como ela via o mundo, a forma como ela lidava com o mundo. Ele promoveu mudanças. E ela, que espera que tenha provocado mudanças nele também. Eles formam um lindo casal, dizem as línguas. E tudo que ela espera é que ele sinta o mesmo e que ele fique ao seu lado e que o casal se mantenha enquanto puder, enquanto convir. Ele. Quem sabe um "eles" finalmente?


Paula Cristina.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O objeto de seu afeto

Os olhos procuravam com uma avidez por descobrir e não via, não percebia, não sentia. Era tudo incógnita. Ele cansou de procurar, ignorou os desejos de sua própria alma, focou em si. O puro egoísmo da solidão. Mas quem disse que o amor é reciprocidade? O amor é mais um meio termo de gostar e querer manter, mas de um egoísmo escondido, disfarçado de cuidado altruísta. Perdeu tudo, inclusive a dignidade para ter que reconstruir de novo. Alguém veio e o informou de que de nada adiantava tudo aquilo (e de fato essa pessoa estava certa). Fez então do amor um objeto fugidio, ridículo, esquecido - e esqueceu mesmo. Não sabia que aquele comichão era desejo, oprimira-o por dentro das roupas, da pele, dos ossos. Ninguém sabia que era o que o mantinha em pé, nem mesmo ele. Esqueceu assim, de si mesmo. Não fazia mal, não percebera até aquele ponto. Então em uma noite qualquer, descobriu querendo uma pessoa em especial, satisfez seu desejo, mas, ainda sim não foi suficiente, queria mais daquela pessoa. Manteve os encontros e então em uma noite qualquer, esse ser que surgiu do lugar menos esperado contou a ele sobre ele. Tirou o véu do desconhecimento pessoal e lhe contou que sabia do desejo dentro de seus ossos. Aquilo o abalou profundamente. Alguém o via e o devolvia para ele. Alguém passou e o viu, segurou-o e quase prometeu se manter ali. E ele então percebeu em um mero momento que se apaixonara e oferecera um lírio e este foi aceito com a maior das boas vontades. Foi assim que o amor voltou ao seu ser, foi assim que o amor adentrou cada poro de seu corpo e supriu todas as dores e medos e anseios. Foi assim que ele voltou a ser humano. Ele era humano e o objeto tinha sido encontrado. O objeto de seu afeto.


Paula Cristina.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Trecho

Acordou e se deparou com o edredom puxado do outro lado. Sorriu, pensava ter sonhado, mas não, ele estava ali, deitado com o o lençol nos pés. Os olhos serrados faziam acreditar que ele estava dormindo, mas alguma coisa a fazia acreditar que ele não estava dormindo. Mexeu um pouco na cama e os olhos dele abriram calmos. Virou de lado e passou a mão sobre seu rosto. Era tão bom, tão simples. Sorriu. Beijou os lábios dele suavemente. Deitou a cabeça sobre seu peitoral e ficou tempo sem conta apenas deitada abraçada a ele, deixando sua mão percorrer sobre o corpo dele.


Paula Cristina.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Dessa vez...

Sentei ao seu lado na mesa e aquilo era no mínimo constrangedor, mas era lindo também. Eu olhava pra você e tive certeza que era ali que eu queria estar. Podia morrer de vergonha, me embaraçar toda, parecer louca e passar a impressão errada (o que sou tão boa em fazer nos momentos menos oportunos), mas no final das contas eu estaria com você. No final das contas era só você. Saímos dali, conversamos, rimos, nos tornamos um pouco mais íntimos, um pouco mais próximos e minha sensação de certeza foi aumentando a medida que a noite sumia e deixava vestígios de uma madrugada silenciosa e pacífica. Você leu meus sentimentos, mudou meu humor, eu estava ali, indefesa, sem saber o que fazer, as lágrimas teimando em cair. Você me viu chorar silenciosamente, você viu meu mais fundo ser sem entender o que era ou porque era. E tudo que vinha na minha mente quando você me fazia perguntas era "estou apaixonada por você", mas nada saía como sempre. Esse meu medo de me abrir. Tenho coragem de pular de um penhasco, de ficar entre uma arma e um alvo, de enfrentar as coisas mais inimagináveis, mas tenho medo de que vejam meu ser calejado, cicatriza(n)do, sangra(n)do, deixando hemorragias internas. E você viu, como tantos outros. Mas dessa vez eu não queria fugir, não afastei, queria estar ali, abraçar, olhar nos seus olhos e dizer como doía, contar tudo de uma vez por todas e deixar que entrassem nesse meu mundo secreto que ninguém conhece, esse meu mundo secreto desabitado como uma ilha desconhecida. Dessa vez, só dessa vez eu fechei meus olhos e soube que eu não fugiria. Não mais. E torço para que você permaneça ao meu lado.


Paula Cristina.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Acordei um dia...

Acordei um dia e me percebi pensando na próxima vez que te veria, não queria me preocupar com outro e me deparei com uma falta sua, pausada, bonita, poética. Me incomodei com isso, não costuma acontecer esse tipo de coisa comigo, mas chega um momento que parece que a vida resolve fazê-las ou será minha própria consciência brincando comigo? Não tenho certeza de nada, a não ser de que nesse momento estou online achando que você não vai entrar no msn, mas ainda estou aqui torcendo que eu esteja errada e que me surpreenda para que não tenha sido em vão esse dia que eu entrei só para falar com você. Me peguei pensando em você durante uma aula interessante (o que é no mínimo bizarro, porque aulas interessantes nos mantém focados...). Mas tem alguma coisa de bonito, de misterioso na forma que você olha ou até fala comigo - ou será que vejo assim porque estou começando a criar sentimentos em torno da sua pessoa? - . Algo escondido, um querer contido, um respeito, um cuidado. Não sei se estou me apaixonando, mas alguma coisa acontece. Alguma coisa mascarada, bonita de se ver. Consigo ver seu sorriso em frente a mim e já vejo você a me abraçar e isso é estranho, diferente, medonho (um medo bom, um medo ansioso, esperando para acontecer... um medo de ser já sendo). E então a noite cai, vai e o dia chega e você não entrou e eu aqui esperando, esperando e você não sabe. Você não sabe.... ou sabe?


Paula Cristina.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Jogar tudo pro alto

Acordou suada da noite quente e mal iluminada. Desceu até a cozinha e preparou um chá de limao. Deixou esfriar um pouco, sentou na rede de balanço da varanda. Olhou o relógio eram quatro horas da manhã e perdera o sono. Sorriu, lembrou-se dele e percebeu que começava a gostar dele em sua vida, gostava do toque da mão na sua e quando ficava a observá-la e quando ela o olhava ele já estava preparado para dar um beijo ou para fazer tudo que ela quisesse que ele fizesse. Gostava de poder escolher o que fazer (mesmo que na maioria das vezes nunca escolhesse por opção). Adorava quando ele a abraçava e mais ainda quando a fazia rir, mesmo quando não tinha graça nenhuma. Achava a décima maravilha do mundo poder simplesmente ficar ali, em silêncio. Queria ligar e dizer tudo aquilo e mais para ele, mas não faria isso. Gostava dele e provavelmente estava gostando cada dia mais e mais, mesmo que negasse para si por medo ou algo parecido. A verdade é que ao mesmo tempo que tinha um pouco de medo, ela estava entrando com tudo, se entregando e isso era loucura, sempre foi loucura. Talvez um pouco de um drink qualquer voltasse sua cabeça para o lugar e o medo tomasse conta. Era estranho não ter medo, essa sensação de que tudo ia dar certo a assustava e a mantinha ao seu lado. Dessa vez, ela queria pagar para ver, atirar de um penhasco, jogar tudo pro alto....


Paula Cristina.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Caminhos separados

As lágrimas queriam escorrer e então ela se virou e de raiva prometeu que jamais olharia para trás de volta. Domando o que restava de controle, impediu que seu corpo tremesse enquanto se dirigia ao carro (e foi difícil cada passo). Então, como se não bastasse ele gritou palavras lindas, mas que soavam vazias ao toque doce do sentimento. "Adoro que você observe todos os meus passos e não admita por orgulho. Adoro quando você finge que não sabe quem eu sou e, de repente, como se nunca tivesse me visto olha nos meus olhos e parece ler até minha alma. Adoro que você vá e volte e que fique. Adoro como você se mantém leal às pessoas, mesmo quando elas não se importam de forma alguma. Adoro também como você finge não se importar agora e fica de costas para que eu não veja suas lágrimas queimarem seu rosto. Adoro que você se esforce para que ninguém se machuque. Mas odeio uma coisa em você. Odeio que você vá embora agora, principalmente porque sei que dessa vez, mesmo doendo, você não voltará." A porta do carro abriu, as mãos dela escorregavam da maçaneta até a parte de dentro da porta. Sentou, fechou o carro. Ele não sabia (ou menos ela gostava de acreditar que não), mas ela sabia que ele estava parado daquele mesmo jeito de sempre, com um copo em uma mão, a outra solta ao lado do corpo fingindo não se importar que ela estivesse indo embora. Ligou o som, uma música bonita, dolorida, agitada para manter a aparência de leve descontração. Girou a chave na ignição, acelerou, olhou pelo retrovisor e o viu olhando, sem mover um músculo sequer. Não sabia se ele derramaria lágrimas, nem se sentiria sua falta e isso a incomodava porque ela sabia com uma leve certeza que sentiria falta dele e derramaria lágrimas de saudade. E ele, misterioso como sempre fora, não contava para ela o que sentia, o que pensava e ela ficava no escuro tentando encontrar uma forma de chegar a ele sem que ele percebesse. Ela aprendeu a se importar com ele. Chegou em casa, tirou as sandálias, abriu a geladeira para pegar uma cerveja. O clique ao abrir trouxe lembranças de quando ele sentava ao seu lado e abria uma lata ao lado dela. Teve vontade de chorar. Foi até o quarto e escolheu o melhor biquíni, a melhor toalha, tirou os brincos, o colar e os anéis e desceu. Sentou na beirada com os pés na água, a cerveja descia trazendo calma e leveza. Terminou de beber, pôs a lata de lado e afundou sentindo todo o corpo libertar energia. Nadou de um lado a outro, sentou na parte mais rasa e ficou olhando a lua. Fez uma prece silenciosamente e só quando tranquilizou a mente e o corpo saiu. Tomou um banho demorado, colocou um roupão e desceu para fazer yakissoba. O telefone não tocava, ele não ia ligar, ela sabia, mas insistia em esperar. "Porque fez aquela estúpida promessa para si? Não queria deixá-lo de lado, queria estar junto dele, mas era necessário seguir em frente". Comeu, bebeu, leu um livro, as horas passaram e ela nunca mais soube dele. Enquanto isso, ele sabia todos os passos dela, mas eram diferentes demais, eram pessoas separadas. Ele a amava e ela estava bem e isso bastava só por aqueles dias.

Paula Cristina.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Um susto inexplicável

As horas passaram rápido e o tremor que da terra surgiu pesava. Os ponteiros "tiquetateavam" a procura de um tempo (ou seria de um ritmo) que os fizessem permanecer atados um ao outro. O pó que do chão subia embaçava a vista dos mais apitos à visão, a neblina que se instaurava amargurava a mais esperançosa das criaturas. E os raios solares que adentravam por entre as brechas das árvores se tornaram tristes, sem vida, opacos. Tudo virou insegurança, desconfiança, podridão. Por um minuto tudo permaneceu calado até que, então, tudo passou e de repente uma tranquilidade desentendida se fez presente. Foi tudo que aconteceu, minutos eternos antes da luz. A tempestade não se fez e assim, não houveram estragos maiores, apenas um leve desconforto de quem não sabe o que fazer depois de um susto inexplicável.


Paula Cristina.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Uma noite no navio

Sentada, os olhos ao mar captavam a imensidão da escuridão e do mar e do mundo. Era tão pequena diante de tudo aquilo, era tudo tão lindo, tão sedutor, tão pacífico! Uma mão a abraçou por trás, trazia junto de si uma certeza que talvez não fosse tão real quanto parecia ser. Sorriram, conversaram coisas perdidas por aí. Não sabiam nada uma do outro, mas mesmo assim a conversa fluía e os segurava um ao lado do outro. Os outros olhavam e diziam que eram lindos juntos, os dois olhavam e sorriam. A noite durou o tempo necessário para fazê-la perceber que ela era solteira e ela gostava disso mais uma vez. A noite durou tempo suficiente para ela olhar para si daquele jeito e amar tudo em si. A noite durou tempo suficiente para lembrar-se dele, mas pouco tempo para sentir sua falta. E assim, o dia raiou e eles se separaram e ela se sentiu feliz, em paz.


Paula Cristina.

sábado, 22 de janeiro de 2011

As vozes, suas amigas.

O toque seco da folha sob o chão duro confessava a tragédia escondida por trás da doçura estampada no rosto. Tudo fora remoído, removido. Era tudo tão louco, tão solto, tão doído. Era tudo tão lindo, tão óbvio, tão pesado. As lágrimas teimaram em descer enquanto a dor perfurava os pulmões impossibilitando o ar de entrar ou sair: era tudo ar, tudo se fundia e tudo se extinguia. O peso se tornou mortal, a leveza se tornou cúmplice e o olhar lançado a ela se tornou amaldiçoado. O rumo se perdeu de vista. O caminho estava escuro mais uma vez e as gotas de sangue cobriam todo o aposento. Perdera-se entre as facas lançadas a ela. O que a mantinha caminhando, tentando chegar ao caminho iluminado eram as vozes que a mantinham forte, as vozes que a impediam de desistir, as vozes que diziam "sim, você é diferente e nós a amamos por isso". As vozes que tanto protegeram-na voltavam para segurá-la mais uma vez e então um sorriso se escondia por trás dos lábios. Ela sabia que não mais estava sozinha, as vozes a mantinham forte, as vozes, suas amigas.
Paula Cristina.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

É só o que eu quero

Os olhos ardentes, pedintes de alguma coisa maior, algo melancólico, bonito, sensual. A boca molhada pedindo um beijo qualquer de tirar o fôlego. A brisa passando, arrepiando o corpo, fazendo-o pedir calor desses de arrebatar corações. A cena bonita, afrodisíaca que mexe com cada um de de forma diferente. Mas tudo se torna difuso se não tem você (alguém qualquer) para trazer harmonia a todos estes fatos. Você que me seduziria da forma mais doce. Você que traria seus olhos, sua boca, sua pele para se chocarem comigo. Você que tiraria meu ar, minha noção de espaço e de tempo e meu pudor. Você que me traria tudo em um pacote pequeno. Você que seria tema de tantos poemas e sonhos e desejos e pensamentos. Você me roubaria beijos e corpo e alma para que então, eu ficasse nua e trouxesse o luar para dentro do quarto. Você que eu não conheço, mas que amo tanto. Você. Sonho. Prazer. Paixão. Entrega. Você. Simplesmente você. É tudo o que eu quero. É só o que eu quero.


Paula Cristina.

domingo, 9 de janeiro de 2011

O para sempre é muito certo para uma vida tão imprecisa

Tantos amores passaram por mim, tantas realidades quebraram em meu rosto e tantas cicatrizes feitas que já nem sei contar mais e ainda assim, não aprendo a pronunciar adeus. A dor é grande e a falta daquilo que fez parte tão grande em minha vida, que cuidou para minhas lágrimas não caírem, que permaneceu ao meu lado quando eu sentia não ter ninguém. A falta por saber que jamais terei, mesmo que queira me faz pensar mil vezes antes de dar as costas e seguir em frente. Por isso eu acabo sempre voltando, por isso acabo por aceitar aqueles que voltam: eu não sei dizer adeus. Como se diz para alguém querido "vá embora e não volte mais"? O para sempre é muito certo para uma vida tão imprecisa. A imprecisão me toma conta, porque cada um que entra em minha vida tem um papel e se esse papel não for executado ou for executado pelas metades a pessoa voltará e eu devo simplesmente ignorar essa pessoa? Não sei, é tudo tão confuso...


Paula Cristina.