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Mostrando postagens de Março, 2011

Mistério

Se eu conseguisse escrever cada segundo de história que passa em minha cabeça, talvez assim, um livro se escreveria por si só contando horas e minutos a fio, declarando as minhas loucuras e os meus fascínios. Se conseguisse pôr em palavras cada pensamento meu, então estaria decifrada como um enigma fácil diante de um gênio. E se por final fosse decifrada o mistério acabaria, como a minha própria pessoa, porque de que adianta me mover com um destino traçado ou sem nada para ser descoberto? Por sermos enigmas de nós mesmos nos tornamos humanos e nos perdemos humanos e então o ciclo da vida continua, se mantendo a cada passo disposto a chegar ao final da jornada, à concretude do conhecimento. O mistério nos mantém vivos e só.


Paula Cristina.

história mórbida

Ele não sabia o que queria, como queria... tudo que sabia era simplesmente sentir aquele vazio que o atormentava. As ruas pareciam escuras, enegrecidas e o toque místico do vento sussurrando em seu ouvido quase causava um "frenesi" momentâneo que nunca chegava a se completar. O sangue escorrendo pelas mãos trêmulas de tanta força usada para mantê-las cerradas, o coração disparado condenava toda uma rua deserta pelas batidas surdas que se deixavam ouvir pelo corpo e ecoar pelo vazio. Qualquer um que visse aquela cena, pensaria em alguém perigoso com cara de psicopata como naqueles filmes clássicos de terror. Mas olhando por entre-linhas, ali estava um assustado, perdido, sofrido, embriagado pelas próprias emoções. Qualquer um que o visse diria que estava embriagado, mas as gotas de álcool que mais próximo chegaram foram aquelas que adentravam bocas outras ao seu lado, que não a dele. Olhou para trás e viu aquela mancha de sangue o seguindo e denunciando-o de seu paradeiro. Co…

no final das contas...

Sentei no meio fio, procurando alguma mão para segurar, alguém para me dizer que as coisas não são assim tão cinzas, tão leves a ponto do vento levar, tão embaçadas para não enxergarmos por dentro. Doía tanto, mas de todo jeito quantas vezes já não havia doído? A carta que eu nunca entreguei, na mão, já estava toda amassada de tanto aperto, de tanta angústia contida. Você não estava em casa, eu sabia, fui apenas para deixar a maldita carta na caixa de correio. Não tive coragem. Meus medos sempre me ameaçaram, meus medos insensatos. Sou tão corajosa para tanta coisa, mas para despedidas nunca fui boa, a sensação de solidão me dói a mente, o corpo, a respiração falha e as lágrimas tendem a cair freneticamente. O poste da rua apagou sozinho e eu me mantive ali, impassível, procurando uma forma de olhar para aqueles portões uma última vez. Não soube fazê-lo. As mãos trêmulas rasgaram a carta em mil pedaços e deixaram ali, no lixo da casa. Assim eu podia fingir ter entregado e então, seria…

a noite do outro?

Dizem que quando a gente sente que não vai dar certo acaba não dando mesmo, mas isso complica um pouco, porque é muito fácil ser otimista e encontrar desculpas para tudo mas quando é que a confiança é certa, quando é que você não está se iludindo? São tantos pensamentos incertos em sua cabeça que ela não sabe como lidar com eles. O que ela vê? O que significa? O que ela pode fazer? É tudo tão diferente do que deveria ser em sua cabeça, sempre foi. Parou, respirou por um minuto, não queria sair, mas saiu mesmo assim. Sabia que era bem vinda e querida naquele lugar desconhecido e foi dito e feito, todos as receberam de braços abertos e ela se sentiu em casa como se fossem amigos de data, companheiros de vidas. Esqueceu pela primeira vez da dor que ele causava nela sem saber (ou será que sabia?). Com o passar das horas vai conversa, vem conversa, vai olhares, vem olhares e lá estavam eles praticamente abraçados sem que ela ao menos percebesse o que estava acontecendo. De repente, o beij…

De novo

Como era de se esperar, ultimamente ela estava em constante entrave com suas emoções. Vivia a chorar sem motivo algum (quer dizer, motivo tinha, mas energia pra chorar nunca teve até agora). Ele a viu chorar como sempre e ficou a se perguntar "porque, porque ela chora tanto?" e ela sem saber respondia silenciosa "eu não sei, alguma coisa mudou, alguma coisa em mim que me faz tão naturalmente triste e tão naturalmente louca e tão naturalmente feliz". Cada sentimento surgia atropelando o outro contando dos medos e inseguranças que nem ela mesma percebia ter dentro de si, por tanto tempo escondidos vida afora. Agora essa mudança repentina a fazia se perguntar quem a mudou: ela, o mundo ou ele? De acordo com ele, ninguém muda, só desconhece, mas sua vida, suas experiências e seus estudos levavam-na a questionar isso. Todo mundo muda, é uma questão de querer. E a pergunta continuava. Mas ultimamente duvidava até de si, das verdades que veio construindo e do mundo que pi…

Uma história de amor?

A luz do sol refletida na xícara de café em cima da mesa denunciava as oito horas da manhã em que o café da manhã era pontualmente servido no jardim. Ela segurava o jornal em frente ao seu rosto de modo a ver toda a extensão do mesmo sem precisar mover um músculo além dos olhos para cima e para baixo, de um lado para o outro.
- O dia está muito bonito para uma caminhada. - disse ele, com uma voz triste e rotineira. -Sim está, quer que eu o acompanhe? Estamos mesmo precisando de um tempo para nós, não acha? - ela respondeu. - Não sei se agora seria um momento oportuno para você. Além do mais tenho que passar na loja de ferramentas para olhar algumas coisas que ainda faltam ser organizadas. Quem sabe outro dia em que eu não esteja tão ocupado... - disse ele sem muitas delongas. Afinal de contas, ambos sabiam que estavam fartos de conversas enfadonhas e romantismos desnecessários. - Tudo bem, como quiser. Só não demore muito, ontem chegou tão tarde que perdeu o almoço e quase também, o lanch…

Só mais um dia sem medo era tudo que pedia...

Sempre aquela sensação de estar incomodando. Mandava uma carta, mas logo vinha a desconfiança de entrar no espaço alheio. Ligava e ali, bem na esquina o sentimento de importunação, de que não queriam aquela ligação. Chamava para sair e a impressão que tinha até ele chegar é de estar forçando entrada no mundo dele e, por consequência, ele iria embora um dia cansado de tanta bajulação, de tanta procura, de tanta insistência. Mas o que fazer? A saudade era mais forte, não dava tempo nem dele respirar e lá estava ela ligando de novo. Não que fosse sempre, mas para ela, que nunca fazia isso, era muito, muito mesmo e o sentimento a preenchia como o ar preenche os pulmões. O medo de perdê-lo a aterrorizava e aquela sensação de "ligo, não ligo" pesava sobre seu coração. Não sabia ser meio termo, tinha que aprender. Mas porque aprender justo com ele? Ele, que permanecia ao seu lado e que era tão amado. Ele, justo ele, a fazia enlouquecer nos mínimos detalhes. Não sabia se ligava, se …