segunda-feira, 28 de março de 2011

Mistério

Se eu conseguisse escrever cada segundo de história que passa em minha cabeça, talvez assim, um livro se escreveria por si só contando horas e minutos a fio, declarando as minhas loucuras e os meus fascínios. Se conseguisse pôr em palavras cada pensamento meu, então estaria decifrada como um enigma fácil diante de um gênio. E se por final fosse decifrada o mistério acabaria, como a minha própria pessoa, porque de que adianta me mover com um destino traçado ou sem nada para ser descoberto? Por sermos enigmas de nós mesmos nos tornamos humanos e nos perdemos humanos e então o ciclo da vida continua, se mantendo a cada passo disposto a chegar ao final da jornada, à concretude do conhecimento. O mistério nos mantém vivos e só.



Paula Cristina.

história mórbida

Ele não sabia o que queria, como queria... tudo que sabia era simplesmente sentir aquele vazio que o atormentava. As ruas pareciam escuras, enegrecidas e o toque místico do vento sussurrando em seu ouvido quase causava um "frenesi" momentâneo que nunca chegava a se completar. O sangue escorrendo pelas mãos trêmulas de tanta força usada para mantê-las cerradas, o coração disparado condenava toda uma rua deserta pelas batidas surdas que se deixavam ouvir pelo corpo e ecoar pelo vazio. Qualquer um que visse aquela cena, pensaria em alguém perigoso com cara de psicopata como naqueles filmes clássicos de terror. Mas olhando por entre-linhas, ali estava um assustado, perdido, sofrido, embriagado pelas próprias emoções. Qualquer um que o visse diria que estava embriagado, mas as gotas de álcool que mais próximo chegaram foram aquelas que adentravam bocas outras ao seu lado, que não a dele. Olhou para trás e viu aquela mancha de sangue o seguindo e denunciando-o de seu paradeiro. Como queria sangue-sugas nesse momento para que lambessem o chão, e encobrissem seu crime. A consciência pesou. Uma hora dariam por falta do Leo e a primeira pessoa que procuraria, o primeiro suspeito seria ele, já que era seu melhor amigo. Virou na próxima esquina, distanciando-se de casa. Andou duas quadras inteiras até chegar à delegacia.

Matei um homem - disse em uma voz fria e controlada. A mulher atrás do balcão olhou-o assustada.
- Sente-se, por favor - e discando o telefone disse numa tentativa de aparentar calma - Senhor, há um homem aqui dizendo ter matado alguém. - Aguardou as instruções do outro lado da linha, desligou o telefone e sorriu forçadamente à ele.
- Tenho que pegar os dados do senhor, se não se importar. Protocolos. Sabe como é.
Ele a fitou calmamente, pegou os documentos e entregou à mão trêmula da mulher. "Ela trabalha em uma delegacia, lida com homicidas mentirosos o tempo todo e não consegue nem ao menos controlar o próprio medo?". Riu consigo pensando se seria tão perigoso quanto a mulher imaginava, concluiu que não e sorriu para a mulher.
O policial responsável por aquele turno incoveniente da madrugada apareceu por uma porta atrás da mulher, olhou a ficha do homicida e disse em uma voz seca - Você diz ter matado alguém?
- Sim, matei. Por motivo nenhum aparente.
- Precisarei de nome e lugar do corpo.
- Leonardo Guilherme Fontini. Está estirado dentro de sua própria casa, no chão da sala de estar.
A secretária se pôs a vasculhar o endereço do pobre indivíduo, mas ele não constava em nenhuma lista. - Senhor, não encontro registro de ninguém com esse nome, tem certeza de que esse era o nome?
- Tenho. Foi meu melhor amigo por 14 anos. - A mulher olhou assustada. Como alguém teria coragem de matar o melhor amigo?
- Pode me dizer o endereço, por favor? Quem sabe assim, o encontro?
- Rua 66 Qd. 40 Nº99
A mulher olhou pelo canto do olho para o policial, que foi logo ver o que ela olhava.
- Não consta nenhum Fontini nessa casa, senhor. Porque não nos leva até lá?
Outro policial já esperava à porta da delegacia com um carro logo atrás, algemaram-no e entraram no carro. Seguiram as direções dadas pelo homicida e chegaram ao portão de uma grande casa, com jardim na frente. O policial bateu na porta e uma mulher, como era de se esperar atendeu. O policial perguntou se alguém havia sido morto ali, mas ao contrário do que se esperava ela contou sobre um acontecimento estranho mais cedo.
Um homem entrou em sua casa completamente atordoado, mas passou direto por ela, como se não a visse. Chegou à sala de visitas e começou a gritar, ela correu em sua direção, com medo de que estive brigando com seus filhos, mas no mesmo instantes os três desciam as escadas para ver também o que estava acontecendo. Quando ela chegou à porta da sala, viu o estranho gritando com um nada à sua frente. Ele então começou a bater no ar, foi em direção à parede como se estivesse pressionando alguém contra ela, mas não havia ninguém ali, ele então começou a esmurrar a parede com força e gostas de sangue começaram a escorrer de sua mão. Olhou para o chão parecendo ver alguma coisa lá e pediu desculpas para alguém. Saiu da sala, passou pela mulher e as crianças parecendo não vê-los, abriu a porta e foi embora.
A madrugada estava fria, o carro voltou para a delegacia. O homem foi solto. Naquela noite alguém morreu, ninguém saberia quem era, nem mesmo ele. O corpo enterrado no jardim de sua própria casa, um pouco antes de sair pelas ruas sem rumo. Seu próprio filho, não registrado em um cartório. Uma aberração da natureza. Matara sua mãe quando nasceu e por catorze anos fora trancado no porão da casa em que vivia. O sangue escorrendo pelas paredes foram lavados e a raiva fora camuflada por leves tons de cinza.O homem se matou naquela mesma noite. A casa estava assombrada.



Paula Cristina.

quinta-feira, 24 de março de 2011

no final das contas...

Sentei no meio fio, procurando alguma mão para segurar, alguém para me dizer que as coisas não são assim tão cinzas, tão leves a ponto do vento levar, tão embaçadas para não enxergarmos por dentro. Doía tanto, mas de todo jeito quantas vezes já não havia doído? A carta que eu nunca entreguei, na mão, já estava toda amassada de tanto aperto, de tanta angústia contida. Você não estava em casa, eu sabia, fui apenas para deixar a maldita carta na caixa de correio. Não tive coragem. Meus medos sempre me ameaçaram, meus medos insensatos. Sou tão corajosa para tanta coisa, mas para despedidas nunca fui boa, a sensação de solidão me dói a mente, o corpo, a respiração falha e as lágrimas tendem a cair freneticamente. O poste da rua apagou sozinho e eu me mantive ali, impassível, procurando uma forma de olhar para aqueles portões uma última vez. Não soube fazê-lo. As mãos trêmulas rasgaram a carta em mil pedaços e deixaram ali, no lixo da casa. Assim eu podia fingir ter entregado e então, seria apenas uma lembrança ruim de afastamento inevitável. No final das contas lá estava eu, parada sozinha em uma rua deserta pensando qual o próximo passo a dar em direção ao novo presente... eu não sabia, não sabia caminhar mais de tanto engatinhar por ruas escuras e sem saída. As pernas tremiam, os ossos ardiam por dentro, a cabeça latejava. Peguei o carro e dirigi para um boteco qualquer. A dose de gim que pedi deixou claro a qualquer um que ali estava de que eu havia deixado no passado alguma coisa. A despedida é sempre com gim. Eu ofereço a ele um gim, se ele estiver lendo isso agora. Mas como a carta, ele provavelmente não vai saber que este texto existe e se algum dia alguma parte do que escrevi para ele for descoberta, torço que seja a parte do "eu te amo", porque no final das contas, eu o amo apesar de tudo.


Paula Cristina.

sábado, 19 de março de 2011

a noite do outro?

Dizem que quando a gente sente que não vai dar certo acaba não dando mesmo, mas isso complica um pouco, porque é muito fácil ser otimista e encontrar desculpas para tudo mas quando é que a confiança é certa, quando é que você não está se iludindo? São tantos pensamentos incertos em sua cabeça que ela não sabe como lidar com eles. O que ela vê? O que significa? O que ela pode fazer? É tudo tão diferente do que deveria ser em sua cabeça, sempre foi. Parou, respirou por um minuto, não queria sair, mas saiu mesmo assim. Sabia que era bem vinda e querida naquele lugar desconhecido e foi dito e feito, todos as receberam de braços abertos e ela se sentiu em casa como se fossem amigos de data, companheiros de vidas. Esqueceu pela primeira vez da dor que ele causava nela sem saber (ou será que sabia?). Com o passar das horas vai conversa, vem conversa, vai olhares, vem olhares e lá estavam eles praticamente abraçados sem que ela ao menos percebesse o que estava acontecendo. De repente, o beijo inesperado, o que fazer? Ele não parecia, mas e se importasse? Eles não estavam sérios ou estavam? Tudo que sabia era de sua confusão, em qualquer outra ocasião ficaria, manteria o beijo a salvo em seus lábios, mas era diferente dessa vez, ele estava em sua vida, ele existia em sua vida... o que fazer? Tomou a decisão, não se arrependeu, mas sabe que em breve provavelmente terá que tomar uma decisão, enquanto não pode fazê-la aguarda calmamente que ele se toque de que ela exitou, coisa que nunca havia acontecido antes e se ela tivesse certeza do que estava acontecendo entre eles e fosse sério, ela não teria só exitado, teria deixado o beijo morrer ali, sem mais nem menos, talvez nem tivesse precisado abraçá-lo...


Paula Cristina.

sábado, 12 de março de 2011

De novo

Como era de se esperar, ultimamente ela estava em constante entrave com suas emoções. Vivia a chorar sem motivo algum (quer dizer, motivo tinha, mas energia pra chorar nunca teve até agora). Ele a viu chorar como sempre e ficou a se perguntar "porque, porque ela chora tanto?" e ela sem saber respondia silenciosa "eu não sei, alguma coisa mudou, alguma coisa em mim que me faz tão naturalmente triste e tão naturalmente louca e tão naturalmente feliz". Cada sentimento surgia atropelando o outro contando dos medos e inseguranças que nem ela mesma percebia ter dentro de si, por tanto tempo escondidos vida afora. Agora essa mudança repentina a fazia se perguntar quem a mudou: ela, o mundo ou ele? De acordo com ele, ninguém muda, só desconhece, mas sua vida, suas experiências e seus estudos levavam-na a questionar isso. Todo mundo muda, é uma questão de querer. E a pergunta continuava. Mas ultimamente duvidava até de si, das verdades que veio construindo e do mundo que pintou tão bem. Não acreditava em nada, mas acreditava em tudo e a contradição a confundia a cada passo que dava. O que fazer quando não se tinha a resposta mais simples. Não sabia nem ao menos o que queria. E o mundo dando voltas, não espera ela resolver e assim ela vê que não só o mundo dá voltas, ela também. E o dia vai, as horas vêm e a confusão mental sempre encontra um meio de começar de novo e de novo e de novo....


Paula Cristina.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Uma história de amor?

A luz do sol refletida na xícara de café em cima da mesa denunciava as oito horas da manhã em que o café da manhã era pontualmente servido no jardim. Ela segurava o jornal em frente ao seu rosto de modo a ver toda a extensão do mesmo sem precisar mover um músculo além dos olhos para cima e para baixo, de um lado para o outro.

- O dia está muito bonito para uma caminhada. - disse ele, com uma voz triste e rotineira.
-Sim está, quer que eu o acompanhe? Estamos mesmo precisando de um tempo para nós, não acha? - ela respondeu.
- Não sei se agora seria um momento oportuno para você. Além do mais tenho que passar na loja de ferramentas para olhar algumas coisas que ainda faltam ser organizadas. Quem sabe outro dia em que eu não esteja tão ocupado... - disse ele sem muitas delongas. Afinal de contas, ambos sabiam que estavam fartos de conversas enfadonhas e romantismos desnecessários.
- Tudo bem, como quiser. Só não demore muito, ontem chegou tão tarde que perdeu o almoço e quase também, o lanche da tarde. Me preocupo quando não come, pode ser que adoeça dessa forma. - respondeu ela com muito cuidado. Sabia que ultimamente estava extremamente sensível em relação a ajustes e compromissos.

Ele pegou sua carteira, o molho de chaves em cima do criado no corredor, deu um beijo na mulher e saiu andando de encontro com o mundo. A mulher ficou a olhar da janela até que o marido desaparecesse de vista na rua. Sorriu e se pôs a escrever freneticamente. Essas eram as melhores horas para escrever: não havia ninguém em casa e estava inspirada pelo homem que acabara de sair pela porta da frente.
As mãos dedilhavam levemente o teclado do computador, a música tocada era tão leve que lembrava um dia de domingo ensolarado em um campo aberto qualquer. As páginas pareciam ser escritas por si mesmas, sem mente pensante, sem dedos pulsantes, nem corações arrebatados. Apenas simples e puro milagre, como as obras deveriam ser (pelo menos, em sua cabeça).
A hora do almoço começava a se aproximar e ela então, pôs seu avental e fez o almoço mais caprichado que jamais fizera, afinal de contas valia o esforço. Arrumou o jardim, arrumou um buquê bonito de flores variadas no centro da mesa, escolheu o melhor vinho, colocou o melhor forro de mesa. Estava pronta para comemorar o aniversário de casamento. As horas foram passando, ele não chegava. Estava quase na hora do lanche e ainda assim, nada dele chegar (tudo bem, não fazia mal que tivesse esquecido, ele estava lá fora trabalhando e organizando para que a casa deles estivesse impecável). O lanche passou e no cair da noite a campainha toca (será que ele havia esquecido as chaves?).
Abriu a porta e não havia ninguém, apenas um bilhete dobrado em cima do tapete de boas-vindas. Nele estava escrito: "Minha querida, me desculpe. Durante o percurso de ida à loja de ferramentas descobri que não estou feliz nessa vida que levo. Amo-a muito, mas não sei viver com você. Não me esqueci do nosso aniversário, mas escolhi justamente este dia para que tenhamos vivido anos arrendondados juntos e assim nos poupe (a mim e a você) de contar os meses, os dias e as horas (nos casamos exatamente neste horário). E por meio dessa carta te aviso que só voltarei o dia que estiver feliz comigo, se nunca chegar a isto jamais voltarei. Com amor e saudades, seu sempre marido."
As lágrimas manchavam o papel. Ela o dobrou, pegou a melhor moldura que tinha na casa, tirou dela a foto, emoldurou a carta e colocou-a atrás da porta. Todas as vezes que a campainha tocava, ela olhava a moldura com a carta e com esperança abria a porta. Vezes sem conta nos primeiros meses fechava a porta e se punha a chorar. A escrita se tornou rara e inútil, as refeições nos jardins difíceis e pesadas. Até que um dia ignorou tudo aquilo e a moldura, ainda atrás da porta era lembrança de um passado lindo, as horas no jardins eram regadas de puro perdão e compreensão e as noites eram momentos de rendição ao fato de que ele nunca iria voltar. Era ela e ela e só. E todos os dias ela dormia com um anel de borboleta esperando que um dia ela também se transformaria na bela borboleta que fora a tempos, quando ele ainda pisava os chãos daquela casa...


Paula Cristina.

domingo, 6 de março de 2011

Só mais um dia sem medo era tudo que pedia...

Sempre aquela sensação de estar incomodando. Mandava uma carta, mas logo vinha a desconfiança de entrar no espaço alheio. Ligava e ali, bem na esquina o sentimento de importunação, de que não queriam aquela ligação. Chamava para sair e a impressão que tinha até ele chegar é de estar forçando entrada no mundo dele e, por consequência, ele iria embora um dia cansado de tanta bajulação, de tanta procura, de tanta insistência. Mas o que fazer? A saudade era mais forte, não dava tempo nem dele respirar e lá estava ela ligando de novo. Não que fosse sempre, mas para ela, que nunca fazia isso, era muito, muito mesmo e o sentimento a preenchia como o ar preenche os pulmões. O medo de perdê-lo a aterrorizava e aquela sensação de "ligo, não ligo" pesava sobre seu coração. Não sabia ser meio termo, tinha que aprender. Mas porque aprender justo com ele? Ele, que permanecia ao seu lado e que era tão amado. Ele, justo ele, a fazia enlouquecer nos mínimos detalhes. Não sabia se ligava, se contava, se perguntava, se calava... Não sabia como agir ao lado dele, procurava ser como sempre, mas isso já não funcionava. O contrário também não funcionava e tinha que inventar um jeito totalmente novo para mantê-lo ao lado dela. E isso a desesperava, ela não sabia sorrir diferente, nem falar diferente e ele a amava por isso (será mesmo? Não sabia se acreditava nisso. Não tinha certeza, talvez por enlouquecer por completo pensava isso enquanto estavam separados). Como fazer tanta loucura simplesmente desaparecer durante i percurso? não sabia ser normal e ele não se importava com isso, ao contrário, compreendia muito bem, até bem demais às vezes. E mais uma vez ela parava de pé, em frente àquelas paisagens, a cerveja na mão, torcendo para que ele voltasse e a acalmasse contando que não iria embora. Só mais um dia sem medo era tudo que pedia.


Paula Cristina.