quinta-feira, 21 de abril de 2011

Texto da Marla de Queiroz

"Ele não sabe mais (quase) nada sobre mim.
Não sabe que o aperto no meu peito diminuiu, que meu cabelo cresceu, que os meus olhos estão menos melancólicos, mas que tenho estado quieta, calada, concentrada numa vida prática, e sem aquela necessidade toda de ser amada.
Ele não sabe quantos livros puder ler em algumas semanas.
Não sabe quais são meus novos assuntos nem os filmes favoritos.
Ele não sabe (...) mas conservo alguma curiosidade em saber se o seu coração está mais tranquilo, se seu cabelo mudou, se o seu olhar continua inquieto. Ele nem imagina quanta coisa pude planejar durante esses dias e como me isolei pra tentar organizar todos os meus projetos.
Que tenho sentido mais sono e ainda assim, dormido pouco.
Que tenho escrito mais no meu caderno de sonhos.
Que aqui faz tanto frio, ele não sabe por mim.
Ele não sabe (...) que aprendi a não sobrecarregar meu coração, este órgão tão nobre.
Ele não sabe que eu entendi que se eu resolver a minha dor, ainda assim, poderei criar através da dor alheia sem precisar sofrer junto pra conceber um poema de cura.
Hoje foi um dia em que percebi quanta coisa em mim mudou e ele não sabe sobre nada disso.
Ele não sabe que tenho estado tão só sem a devastadora sensação de me sentir sozinha.
Ele não sabe que desde que não compartilhamos mais (quase) nada sobre nós, eu tive que me tornar minha melhor companhia: ele nem imagina que foi ele quem me ensinou esta alegria."

terça-feira, 19 de abril de 2011

Decepção

Eu me pergunto o que será de sua filha, que vive em uma casa onde o ódio simplesmente pelo ódio se faz presente. Não sei qual seria pior, ser molde ou não sê-lo nessa situação. A decepção que desce por meu corpo, pela minha alma escorre como um veneno infectando cada sorriso, cada cuidado. De onde vem tanta raiva? Tanta ignorância? Dói pensar que a cada dia que passa, nos distanciamos mais e mais, pelas atitudes, pelas idéias, pelo respeito. O que você fará quando eu fizer minha primeira tatuagem de tantas outras que eu farei? Qual será sua reação quando descobrir de tantas desejos e sonhos que estou para realizar que não condizem com a sua moral? Acho que já tenho a resposta estampada nas suas frases de ódio contido. Você me amará depois de tudo isso? Existirá respeito ou serei um ser a mais cuspido pelas forças do destino para fora de sua vida? Você não vê que o mundo mudou, que as diferenças são lindas, que cada um tem uma vida diferente, um estilo diferente? Esse seu ódio sem cabimento me afasta de você, me enoja. Eu, mais do que qualquer outro deveria compreender isso, sou estudante de psicologia. Mas quer saber? Eu não entendo, não entendo porque escolher o caos, quando é tão mais simples, tão mais bonito e tão mais pacífico escolher o respeito. Eu não sou você e, por isso, eu sou linda e vice-versa. Hoje lágrimas sangram do meu coração ao saber que a distancia aumenta. Só torço para que não chegue a esse ponto, ao ponto de perdermos o respeito como você perdeu noutro dia.


Paula Cristina.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

É uma pena que ele não se importe...

It's such a shame that you don't care; it's' such a shame that we're not there...

As horas se arrastavam enquanto você sumia por milésimos de segundos. A foto emoldurada na parede contava de um menino disfarçado de homem. Um menino tão indefeso no amor quanto a menina. Ambos fingiam não ser e ambos de tornavam meninos por causa disso. O homem e a mulher, o menino e a menina. Ela não sabia se ia ou se ficava, não porque não gostasse, mas porque ela sabia que talvez ele não ficaria. É uma pena que ele não soubesse que por ele, tudo mudava... ele só sabia da atração, da tentação...



Paula Cristina.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Sua despedida.

Gosto da sua despedida, me alivia e me pacifica seu "até mais tarde", significa para mim que você volta, que você quer voltar. É lindo. E nesse brincar de perceber significações eu descubro que posso ser interessante pro outro da mesma forma que o outro me é interessante. Ser humano é lindo, poético. E nesse brincar de perceber a mim eu descubro que psicologia é lindo, assim como a paixão camuflada que quase nunca deixo transparecer e que transborda com suas despedidas...


Paula Cristina.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Só para constar...

Você me faz tão bem que não importo de ter apenas você na minha vida. Você me faz tão bem que não importo de aprender a pensar em um futuro nós. Você me faz tão bem que o sono não me cansa, que os dias são mais bonitos e os amores são mais leves. Você me faz bem, me faz tão bem. Sei que não é exatamente você, mas o que eu sinto quando estou com você. Poderia ser com qualquer outro, mas é com você e enquanto isso durar eu estarei disposta a sorrisos e calmarias. Sei que isso é gostar porque ninguém concorda com isso, ninguém põe fé. Eu ponho e só...


Paula Cristina.

Pós-abismo II

Ela seguiu, olhava à volta desconhecendo todos os caminhos, escolheu o mais bonito para combinar com seu vestido de flores e renda. O chão macio, amortecia os passos que ela dava tão delicadamente pela estrada. A mangueira lá na frente ofereceu-lhe uma manga deliciosa, avermelhada, doce e suculenta e seus galhos e folhas a protegeram do sol que ofuscava sua visão. Parou por tempo sem conta e depois seguiu caminho, em direção a algum lugar que ela não sabia. Passou por festas e chás e reuniões e de cada um dos lugares que passava levava alguma lembrança e deixava um pouco de si pelo caminho, partes sua que já não mais servia. Virava volta e meia e mudava a rota que escolhia à medida que sentia ser o melhor, sempre passando por estradas bonitas e calmas. Passou por jardins, labirintos e encruzilhadas. De vez enquando parava para conversar com os transeuntes, ler um livro ou mesmo ficar ali, parada, sem nada para fazer, só observando. Chegou a uma cidadezinha calma, com umas pessoas tranquilas que a faziam sorrir, escolheu ficar ali por tempo indeterminado. Os dias foram passando e aquelas pessoas se tornaram família, carinho, cuidado. Os anos passaram e ali, naquela cidadezinha, ela fincou suas raízes. Em uma noite enluarada, a cidadezinha toda parou. A chegada de um homem que ela ansiava por conhecer. Um tempo antes dela chegar na cidade, um homem foi em busca do mundo e deixou a cidade na saudade. Volta e meia cartas chegavam dando notícias de seu paradeiro e de sua vida, mas ele nunca voltava, entretido com tantas outras coisas e tantas outras vidas. Finalmente ela conheceria o tão querido homem. Vestiu-se de um vestido azul turqueza lindo, os cabelos presos em um coque desarrumado de fios caindo por sobre seu rosto, a sandália prateada ajustada a seus pés, os brincos claros como a lua combinados ao colar caído sobre seu peito nu e o anel de pedra transparente. A maquiagem deixava seu rosto mais nítido e vibrante e os olhos contavam de amores e denunciavam sua ansiedade. Desceu a rua em direção à praça e já podia ouvir de longe a música tocando, comemorando a volta do homem estranho. Sentiu que uma pontada de calma e inquietação se misturavam como se algo inesperado fosse acontecer, mas não sabia o que era. A muito havia esquecido de seu dom intuitivo, de como o cheiro das coisas eram diferentes de acordo com a situação. Acostumou-se com o rotineiro e esquecera-se do sentimento do desconhecido. Foi então que ao chegar do outro lado da rua, já em frente à praça ela notou um homem bonito de costas, parecia-lhe conhecido, alguma coisa de familiar, de apaixonante. Reconheceu-o imediatamente, mesmo de costas, ele a empurrara no abismo, ele a tinha conduzido por estradas que não conhecia e deixou-a assustada e triste. As lágrimas tentavam descer por sobre seu rosto, mas ela era mais forte, anos de caminhada sozinha a fizeram assim, ele a ensinara bem a aguentar dores insuportaveis e a enfrentar desafios dos mais variados. Não fazia diferença, estavam ambos na mesma cidade e ela não poderia deixar de acolhê-lo, aquelas pessoas que ela tanto amava o amavam também, como um dia ela o amou, como secretamente ela ainda o amava. Respirou fundo e pôs-se a andar da forma mais calma possível, não queria que percebessem o nervosismo que pesava suas pernas, que disparava seu coração. Parou em frente a um banco e sentou, conversando com a menina vestida de renda e flores, como ela se vestira também um dia. De repente, seus olhos não aguentaram e dirigiram-se a ele e foram pegos de surpresa, ele a olhava de longe e sorriu um sorriso tão bonito, tão real que ela não pode deixar de retribuir e segurar para não demonstrar que aquele sorriso quebrara todas as defesas que ela havia feito. Percebeu isso e se prometeu, naquele exato momento, que o evitaria o máximo possível para não cair na tentação de sofrer novamente como havia sofrido a tempos atrás. Como não podia deixar de ser, sua amiga mais íntima procurou sua mão -"venha, quero que o conheça, você vai adorá-lo"- impossível fugir. Se cumprimentaram e ficaram ali, na mesma roda, ela evitando seu olhar, ele procurando chamar sua atenção o máximo possível. A festa inteira ficaram um ao lado do outro, ela tentando se desvencilhar, ele tentando se aproximar. Sentia-se numa teia de aranha, não tinha saída, estava presa e quanto mais tentava sair da teia, mais presa e enrolada ficava. Percebeu que não tinha mais jeito, parou de tentar fugir e ficou a observar as pessoas a sua volta, procurando distrair sua mente. Da festa, foram para o bar da cidade, queria sentar-se o mais longe possível, mas foi a última a sentar e nessa brincadeira, sua cadeira era justamente a do lado da dele (o destino prega peças às vezes, que ninguém entende, pensou). A ansiedade tomava proporções descomunais e agora já não era possível escondê-la, ela não sabia o que fazer, tudo que pensava era "porque você foi embora, porque você me deixou, porque você voltou e porque você está aqui ao meu lado, tentando chamar minha atenção? Não vê que eu morreria por dentro se você partisse? E você vai partir, você sempre parte..." Tomava um drinque e outro, tentando disfarçar, mas não adiantava, ele percebeu, insistiu, sabia o que queria. Sua amiga olhou o horário e pediu para que eles a esperassem no bar, ia ali buscar o irmão na praça. Só podia ser brincadeira, ela não queria ficar sozinha com ele, sabia o que sentia e sabia no que ia dar tudo aquilo, não tinha como fugir, a teia estava bem feita, pronta para qualquer tentativa de escape. Olhava para os lados em uma tentativa frustrada de fingir não ver o que estava acontecendo, mas ele foi mais esperto, prendeu sua atenção em um piscar de olhos e então a perdição se fez presente, ela sabia que se debater não adiantava mais, nem queria mais fazê-lo e ficou contando os segundos para que ele a beijasse de uma vez e a fizesse esquecer por um minuto que o mundo existia como tantas outras vezes o fez. E assim, a noite se alastrou e o beijo dele trouxe uma paz inexplicável, como se nada fosse tão certo naquele momento. O medo já não mais paralizava, mas dava asas para que ela pudesse escolher seu próximo passo. Ela podia perder-se amando-o ou podia amá-lo pacificamente como uma árvore no jardim, esperando seu pássaro preto voltar para dormir em seus galhos. Escolheu a segunda alternativa. O futuro? Não mais a amedrontava, como tantas outras vezes, escolheu o caminho mais bonito, mais tranquilo. Naquele dia, o caminho levava a ele.



Paula Cristina.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Fragmento de pensamentos

É uma pena que não vá dar certo, e que você já tenha escolhido não dar... é uma pena que eu possa apenas falar com você pensando que somos amigos, enquanto você olha para mim e pensa em ser algo no meio entre ser amigos e ser namorados. É uma pena que você não sinta suficiente falta de mim e que eu não sinta o mesmo por você. É uma pena, porque no final das contas, você ainda passa pelo fundo da minha mente, a idéia de duas pessoas caminhando caminhos diferentes e dividindo segredos conjuntos. É uma pena que eu seja mulher e você seja homem, é uma pena que pensemos tão diferente. É uma pena o que eu sinto, porque o que eu sinto é vazio, é impossibilidade. É uma pena cada fragmento de vida que se perde toda vez que minha dor toca no fundo do poço por você...



Paula Cristina.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

trecho conjunto

Acho que parte de você estava certo. Você era mais amigo que amante para mim. Você não era o desejo reprimido, era o alívio imediato. O medo do que os outros pensariam a respeito de nós dois era enorme, medo inconsciente (será?) de nos verem como casal. Você era meu melhor amigo. Tenho 22 anos e até hoje confundo amizade com estar apaixonado. Que coisa louca, que coisa louca. Contar sobre meu dia é reconfortante, falar com você, mas não essa coisa louca de ouvir sua voz. Meu beijo é mais leve com outro. Meu beijo é mais beijo com outro do que com você. Eu fui muito mais mulher com qualquer outro que tenha aparecido, então como isso poderia ser amor? Não, nãe é, nunca foi. Foi diversão, entusiasmo, foi fim de dia, o nome que você quiser, mas amor, meu bem, ficou muito distante de mim, de você, de nós.



Paula Cristina e M.A.

sábado, 2 de abril de 2011

Enterro

Já estive em seu enterro tantas vezes em março que desconfio que os anos passaram e eu não notei. Olho o calendário e o ano continua o mesmo. Você vem e volta e eu o mato tantas outras vezes. Não sei se consigo lidar um dia sequer com essa loucura camuflada. Você me confunde, eu me confundo. Eu te confundo, você se confunde. É tudo tão nebuloso, tão obscuro. E aqui estou eu, finalmente em abril em luto por você mais uma vez e tudo que me vem à cabeça é se você realmente morreu, se vou aguentar mais uma ressurreição e morte desavisada. Eu não sei, mas como sempre, eu nunca sei. Você me machuca, eu me machuco. Eu choro e o eco não responde. EU CHORO SOZINHA.
Não vou beber, não hoje, estou de luto. Não vou sair, não hoje, estou de luto. Vou sorrir e lembrar uma última vez. Lembranças pertencem ao passado e é lá que eu espero que fique (controvérsias à parte, você não vê meus gestos rápidos condenando a mentira que acabo de contar tentando convencer principalmente a mim). Amanhã eu vou acordar e vai ser um novo dia, com novas horas e novas histórias. Amanhã meu rosto vai acordar inchado, mas há sorrisos e maquiagens para esconder as marcas das dores de hoje. E quando amanhã eu acordar, você terá sido enterrado e eu terei chorado. Amanhã, porque hoje as lágrimas escorrem e caem para as novas cicatrizes que você, tão arduamente planejou.
O amanhã chegou e o alivio não passou...


Paula Cristina.