domingo, 23 de abril de 2017

Cheiro de Café (uma associação livre)

                                                O cheiro de café.




E essa vontade de escrever que se apossa de mim e me amordaça, mas não faz sair aquilo que está na ponta da mente, querendo surgir e não aparece. Não aparece por que de alguma forma dói. Incomoda. Quero dizer algo que não sai, simples assim. É preciso coragem do meu eu mais selvagem. Mas meu eu mais selvagem não quer lutar. Não hoje. Talvez nunca. Meu eu mais selvagem se emudeceu, escondeu, pediu trégua do mundo. Precisa descansar, nem que seja um pouco. Talvez amanhã ele volte com força para lutar, quando tiver descansado de tanta dor. Mas quando ela vai passar? As paredes fecham sobre ele, o mundo se tornou pequeno, os sorrisos se tornaram frouxos, os dias se tornaram vazios. O cinza tomou conta. Deixe-me dormir só mais um pouco. Deixe-me abrir um pote de café e sentir o cheiro tomar conta da sala, tomar conta de mim. Deixe-me respirar cheiros bons que me tragam de volta para casa. Tragam-me de volta a mim. Devolvam-me. Que eu me devolva com uma xícara de café recém passado que recendeia sob meu nariz. Fecho os olhos e sorrio. Quem sabe dormir?Alguma coisa pra me fazer dormir, aquietar a mente. O cheiro de café resolve. Só o cheiro. Não precisa tomar.                      



                  Só o cheiro                                                          serve. 

                                                  O cheiro de café. 

Cheiro.                      Café.                          Recendeia.                      Cheiro.


Café... me deixa dormir...

Café. Cheiro de Café.



Paula Arrais

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Precisava saber como era.

Luna sentou na borda da sacada. Os braços apoiados no parapeito, os pés soltos a balançar para fora, o olhar distante. Estava na hora de agir. Durante meses se viu em uma luta constante com seu coração. Deu-se alguns meses para acostumar à sua nova situação. Precisava saber se o interesse naquele outro homem era genuíno ou apenas efeito de uma vida que não ia bem. Concluiu, finalmente: era genuíno.
Foram dias, meses, anos de flertes ininterruptos, olhares furtivos, mensagens trocadas, noites sem dormir, sorrisos e toques sutis. Estava finalmente na hora de agir. Marcou com ele. A espera. A es-pe-ra. Que ideia foi essa de marcar horário? Podia ter esperado um daqueles dias que sempre o encontrava, mas não! Tinha que marcar com ele. Agora estava presa a uma ansiedade sem fim, que parecia, não acabaria nunca.
As mãos tremiam. O coração palpitava tanto que faltava saltar pela boca. Suava frio.
Vagou pelo pensamento, procurando lembrar tudo que tinha ensaiado na frente do espelho. Agora já não lembrava de tudo que planejara e algumas coisas soavam ridículas. Não teria tempo de mudar, teria que improvisar. Só que improvisar quando se está nervosa nunca foi seu forte. Respirou fundo. "Inspira. Expira." dizia a si mesma. E nessa tentativa de se acalmar não o percebeu chegando. Sobressaltou-se ao ouvi-lo chamá-la. Agradeceu por não ter pensado em voz alta, não sabia à quanto tempo ele estava lá.
Luna levantou, cumprimentou e em questão de segundos avaliou a situação, preferiu dar um beijo na boca dele. "Precisava saber como era." disse em desabafo. Era tudo que ele precisava saber. Era tudo que ela precisava saber... E assim foi o dia na borda da sacada.


Paula Arrais