quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Por te amar

E quando não me acho, quando não me vejo, fico ali, parada com ar de quem não sabe, com ar de indefesa. Só ar, porque no final das contas nem faz tanta diferença. Tanto preconceito, tanto "o que eu gosto é melhor" que já nem sei se fico ou se vou. Não me importo de ser diferente, de gostar diferente. Cada um é cada um e essa mania de dizer o que é melhor deixe de lado, faça-me o favor. Não quero saber. Gosto assim, de me interessar pelo que eu me interesso e você pelo que você se interessa. É mais bonito, é mais real. E quando sentarmos em uma mesa para conversarmos, não se impressione por sermos diferentes, mas me ame por eu não ser você. E quando eu ficar ali parada parecendo estar alheia a um mundo que não é meu, regozije-se já que provavelmente eu só permaneço ali por te amar. E isso, por si só já é um grande feito sendo que eu nunca permaneço.


Paula Cristina.

Emprestar

Nem sempre o que se empresta é emprestado. Às vezes é dado com o nome de emprestado. Então eu te pergunto: Quando é que emprestar é realmente emprestar? Empresta-se a alma? Empresta-se a vida? Empresta-se o pensamento, o sentimento? E o contrário? E quando diz-se dado, mas foi emprestado? Afinal de contas, cadê a linha? O limite? Cadê o dar-se e o emprestar-se? E como é que se contrabalanceiam em uma relação humana? Acho que até o conceito disso aqui é emprestado. Ninguém quer. Pensa, passa, usa, joga fora e no final das contas pede-se de volta, como se fosse um iô-iô. E eu te faço outra pergunta: Porque você se empresta todos os dias?


Paula Cristina.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ritual

Passaram-se horas, o breu já havia tomado conta, a lua apontara no céu. Ela se dirigiu às extremidades do local limitado e acendeu uma vela atrás da outra, formando um círculo. Dirigiu-se ao seu centro, sentou confortavelmente e se deixou vaguear na escuridão. De súbito começou a sussurrar uma canção compassada e ficou ali, até se sentir por completo fora do estado de alfa ao qual se deixou vaguear minutos antes. Levantou-se, e apagou e remouveu as velas, uma por uma.


Paula Cristina.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

De mulengro a centro

Mulengro se apossa de mim de vez enquando, e quando isso acontece parece que adiquiro o dom de me culpar quando não devia e deixar a culpa tomar conta, mesmo quando não se pode fazer nada pra mudar. Adquiro o dom também de me vingar, mesmo sabendo que não há necessidade. Só mesmo para sentir o gosto de pensar que a dor não é só minha. Mas então o centro me engloba e o mulengro já não é chamativo e então vivo dessa ida e vinda. Alguns diriam que essa inconstância se chama bipolar. Não, eu a chamo de traço adquirido devido ao sistema, a cultura e a falta de crescimento emocional. E então me ponho a ir e vir e aprender a sempre ir para o centro e fugir do mulengro. Meu lado selvagem pode sim viver, mas viverá de uma forma livre e esperançosa. Não me quero olhando furtivamente por trás de meu ombro a cada passo que eu der. A vigilia é constante, mas saber confiar e amar e não deixar o mulengro adentrar é uma forma a mais de me acalmar, de me fazer sorrir.
Paula Cristina.

Psiquê

O labirinto mais bem elaborado teve nome, era mortal e virou imortal. Zeus programou essa reviravolta e Afrodite teve que ceder. Psiquê: essa subjetividade tão condensada e tão líquida diante dos julgamentos mais injustos a ela empregada. Não há nesse mundo ou em outro quem a consiga compreender por completo, tamanha é sua imensidão, tamanha é sua beleza. Não penses que digo apenas do mito. O mito é apenas uma forma de mostrar, de falar, de admirar Psiquê. Na verdade é uma desculpa esfarrapada para descrever sua formosura. A Psiquê tem seus altos e baixos, é senhora dos loucos e dos lúcidos também. É senhora de todos os sentimentos, sejam eles bons ou ruins no seu vocabulário. Para ela, não existe oposição e sim diferenciação, autenticidade. Psiquê é a forma mais feia do que de mais grotesco temos. É também a forma mais bela do que temos de mais sublime. É id, é ego, é superego juntos. É a combinação de mulengro e de centro. É vilão, é mocinho, é a treva e a luz, caçador e vítima, flecha do cupido e coração acertado. Psiquê é um estado, é um ser não sendo, é o espelho refletido de seu reflexo na água. É a mais bela complicação, a mais doce, a mais meiga, a mais venenosa e a mais atraente. Jamais Afrodite encontrará deusa tão rara e única como Psiquê e, portanto, é sua única inimiga.
Paula Cristina.

domingo, 15 de novembro de 2009

Você é

Você é os brinquedos que brincou, as gírias que usava. Você é os nervos à flor da pele no vestibular, os segredos que guardou. Você é a praia preferida, Garopaba, Maresias, Ipanema. Você é o renascido depois do acidente que escapou, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai. Você é o que você lembra.
Você é a saudade que sente da sua mãe, o sonho desfeito quase no altar, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas. Você é o que você chora.
Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, você é o pêlo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta. Você é as palavras ditas para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo. Você é o que você desnuda.
Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar. Você é o desprezo pelo o que os outros mentem, o desapontamento com o governo, o ódio que tudo isso dá. Você é aquele que rema, que cansado não desiste, você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta. Você é o que você queima.
Você é aquilo que reinvidica, o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta. Você é os direitos que tem, os deveres que se obriga. Você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca. Você é o que você pleiteia.
Martha Medeiros
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Você é todas as lágrimas derramadas e todos os sorrisos infiltrados. O mar que abraça o mundo, o estádio onde Deus e o Diabo jogam futebol. Você é a bebida mais quente e a mais fria também. Você é porto seguro e um vulcão prestes a erupção. Você é contradição, da mais pura, da mais real, da mais sincera, da mais traiçoeira. Você é metade. Metade mortal, metade imortal. Você é amor e ódio, esperança e desiluzão. Você é o filme de terror mascarado de canção de ninar. Você é a inocência brincando de esclarecimento. Você é tão puro quanto eu quero que seja e tão sujo quanto eu vejo. Você é o espelho disfarçado de realidade. Você é o Mestre Dos Magos. E quando pensam que não te desafiaria, é porque esquecem que sou mulher de Dumbledore. Não importa o que digam, você é o que eu vejo, e eu sou a dona deste mundo. No meu mundo esquizofrênico o fantoche é você. E então eu acordo, coloco os chinelos e sigo em frente, porque como eu, no mundo real, você é apenas você.
Paula Cristina.

Incansável

Não sei ao certo quantas coisas já pensei hoje, nem quantas coisas ainda estão por serem pensadas. Passei o dia pensando, repensando e re-repensando. Li, reli e pensei mais uma vez. E o ciclo não vai parar até que eu resolva me calar, me quietar. Mas eu não quero, não estou cansada e acho que falta muito para aquietar meu espírito por esses dias. Minha sede de mim mesma é extremamente crescente e incansável. Meu hiperativismo mental está a toda com tanta informação ao mesmo tempo. E assim eu medito, leio, penso, ajo, medito, leio, penso, ajo infinitamente. Até que uma hora meu corpo extremamente cansado me pára e eu me ponho a dormir para repor as energias.
Paula Cristina.

Carta a Amandinha

E hoje é seu dia e venho pensando em nós por muito tempo. Fiquei rindo: é seu dia e vou falar de nós? Sim, porque eu sei que amar é se mistu...