terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Adeus meu porto seguro

Eu vou sempre valorizar tudo que vivemos. Você foi necessário, peça importantíssima para o meu crescimento. Mas a vida passa, as coisas mudam, o mundo muda, e juntos mudamos também. Eu mudei, você mudou. Não temos os mesmos ideais, os mesmos sonhos, os mesmos projetos. Sinto muito por fazê-lo assistir meus surtos. Você viu minhas feridas abertas, foi meu porto seguro quando eu pensava não ter ninguém ao meu lado. Agora eu preciso dizer adeus, lembrá-lo que não era para ser. Nosso relacionamento foi feito com um prazo de validade e este prazo chegou ao final. Você foi sorrisos, amores, olhares, alegrias, dores também, mas dores fazem parte. Minha falta de crescimento pessoal me fez procurar a parte destrutiva e você era a vávula que a ligava e a que desligava também. Você me desafiou a ser melhor do que eu mesma acreditava ser, mas chegou, passou e agora é hora de dizer adeus. Adeus ao meu antigo porto seguro, aos meus medos e superstições, aos amores mal amados. Adeus a você que dizia tanto me amar, mas me amando, jamais fez parte por completo desse redemoinho que era minha vida. Você foi contradição e a contradição ainda permanece em mim, mas bem menos real, bem menos presente e dela eu vou levar saudades de um tempo em que você era parte fundamental dos meus sorrisos.
Paula Cristina.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

O jardim

As rosas murchas do jardim desbotado trocaram luzes de cores brilhantes. Os pássaros cantavam uma cantiga alegre, calma, quente. O silêncio se fazia quebrado pela queda da água da bica no piso tão bem montado para varanda de dias tristes. Tristes, porque geralmente só se procura calma quando se está desesperado e não se lembra mais da sensação de tranquilidade. A inquietação se apossa por alguns segundos, mas logo é esquecida e logo a varanda não se torna alvo de observação, mas apenas um lugar onde se senta, lê, conversa, come, bebe, descansa. E assim vai o ciclo. Todas as estações, algumas mais, algumas menos, trocam-se as luzes no jardim para se aquietar o espírito que não pára, que muda, que simplesmente é. Só pela idéia de ser.
Paula Cristina.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Caminho

Os olhos pesam, o cansaço é tudo que se tem de noites mal dormidas. A cabeça lateja uma dor sem graça, tímida. O corpo tem vontade de correr para acordar mais esbelto e renovado. O dia se torna mágico sendo cinza e o nervosismo se faz parte de um todo maltratado, esfarrapado, mal-dormido. Levanta, segue em frente, fecha os olhos e caminha. É tudo que tem por agora, mas só por agora. Daqui alguns anos será tuo diferente. O caminho se faz caminhando.



domingo, 7 de fevereiro de 2010

Se eu pertenço

Se eu pertenço, eu não sei a que lugar. Se eu sorrio, é um sorriso enviezado, meio perdido, de quem sorri sem saber como, usando só a alma. Se eu ando, é com passos despassados, que é pra ver se eu arranjo um passo que me faça pertencer. Se eu falo, é com gírias e sotaques e palavreados meus, que é pra ver se eu pertenço a algum lugar. Se eu enfrento as idéias e tento impor as minhas é porque eu não conheço nada além do meu terreno. É porque eu só pertenço a mim e a meus vários personagens que se permutam para tentar me fazer pertencer a alguma coisa, a algum lugar. E se eu sinto que pertenço finalmente, então eu fico, esperando que aquilo a que pertenço permaneça e jamais me deixe ir.


Paula Cristina.

A balada

O salto quebrado na mão, a maquiagem borrada e um sentimento de vitória sem sê-lo realmente. Ele nunca percebeu seu carinho, ela nunca explicitou. Não que fizesse sentido, ou mesmo, tivesse razão, mas era assim que era. Ela o notou, ele não percebeu. A música tocando e até mesmo a sensação dele olhando, mas nada, nem um simples comportamento que fizesse sentido ela dizer que tudo vai mudar e provavelmente não vai. Ela só queria que fosse diferente, mas seu orgulho é desmedido, descabido e completamente surreal, mas ainda sim é como uma explosão no espaço. Deu tudo errado e tudo certo no final.
Paula Cristina.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ela não viu

Demorou uma eternidade para que sentasse em frente a lareira, esperando que alguém a alcançasse, mesmo que em pensamento. Sentou, entornou o café, acendeu um cigarro, colocou-o em cima do cinzeiro e deixou seu cheiro tomar conta do aposento. Quanta falta fazia esse cheiro. Cheiro de casa, de lar, de patida e chegada. Ela deitou a cabeça nos joelhos e adormeceu. O eclipse aconteceu. Ela não viu. Desiludiu. Os sonhos eram mais bonitos.
Paula Cristina.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Alucinação

A muito não se escrevia bonito, nem tentava passar a beleza do mundo por entre papéis de cetim. Não fazia tanta diferença, a sua loucura havia tomado conta mais uma vez como em tantas outras. Até as vozes que insistia em ouvir agora eram lembranças falsas de um dia não vivido. As crises quase esquizofrênicas eram praticamente o modo mais seguro que tinha naquele tempo em que psicologia ainda não era ciência, não para religiosos. Sentada no canto escuro da sala, ela voltou a sentir a respiração compassada dele em sua nuca. Sabia que ele não estava ali, que era apenas imaginação. Aprendera que não deveria confiar em sua cabeça, não cem por cento e por isso calava quase sempre. Olhava em volta para ter certeza que sua alucinação era apenas isso, o hálito ainda permanecia, mas não havia ninguém. Acendeu a luz, sentou no chão e se pôs a meditar, como a muito não fazia. Não queria dormir, ainda sentia a presença dele em sua cama e isso a amedrontava. Só passando das cinco da madrugada sentiu que não precisava mais temer, a alucinação passara e ela podia dormir em paz.
Paula Cristina.

Carta a Amandinha

E hoje é seu dia e venho pensando em nós por muito tempo. Fiquei rindo: é seu dia e vou falar de nós? Sim, porque eu sei que amar é se mistu...