sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ao léu

A noite escura, os passos largos, o banco da praça escondido pelas sombras, a cerveja numa mão, o cigarro na outra. Soltou o cabelo, a medalinha na mão. Riu de si e de seus meros surtos, aqueles tão antigos que nem se lembra quando foi a última vez que os deixou se apoderarem. Fechou os olhos e recitou, utilizando toda a energia restante, aquele poema tão antigo quanto sempre soubera. Enquanto recitava bebericava da garrafa de cerveja, sentindo o líquido escorrer pela garganta, leve, solto, ondulante. Cansou do cigarro, mas deixou-o ali, queimando, apenas para sentir o cheiro da fumaça dançando sobre seu corpo. Lembrou daquela canção que cantava quando estava feliz, riu-se. Onde já se viu: triste, lembrar de momentos felizes. Não fazia um pingo de sentido, mas mais uma vez, nunca fez sentido, nem mesmo para si. Assistiu a morte chegando devagar e impossibilitando um gato na rua. Não moveu um músculo, não se importava, pelo menos não hoje. Fuzilou a noite com um olhar avassalador. Quem a noite pensa que é para encobrir suas pegadas dessa forma? Absurdo, atrocidade, exaustão. Nada mais faz sentido, nem importa. Levanta, anda, a cerveja ainda na sua mão. O cigarro é arremessado para dentro da lata de lixo. Tira o casaco, a noite está quente. Anda horas a fio, sem saber para onde, sem saber quanto tempo se passou. Pára em frente a uma casa cheia de plantas, senta na calçada e fica a observar cada centímetro. Nunca havia notado uma entradinha com cara de jardim secreto ao lado da casa. Nem nota quando a moça do brinco de pérola olha pela cortina da janela aquela estranha parada na porta de sua casa. Uma lágrima pousa em sua bochecha: lágrima de anjo. Continua andando. Ao longe a casa cheia de plantas se torna escura, agora existe outra casa, ela não pára, não quer mais parar, quer correr, gritar. Não faz nada disso, ao invés tira as roupas e se atira no lago mais próximo. Sempre teve medo de lagos, mas que se dane, chegou ao fundo do posso e ou é isso ou é jogar a medalinha fora. Sai do lago, pega suas roupas, mas não as veste. Vai andando assim: seminua para casa. Já não sabe mais o caminho de casa, deparou com a casa cheia de plantas mais uma vez. A casa cheia de plantas não é sua casa, onde está sua casa? Continua andando, encontra-a finalmente, entra na casa, senta exausta no sofá e adormece ali mesmo, o sol já nascia lá fora, as pessoas iam acordando aos poucos. Ela, começava a dormir, perderia mais um dia de trabalho. Mais um dia perdido. Mas então, o que não era perdido em sua vida? Ela nem se lembrava do caminho de casa, chegou por uma mera coincidência, uma mera ocasião. Boa noite mundo.
Paula Cristina.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Uma noite.

A taça vermelha de contraste com a toalha branca. Os dedos ágeis esperando o momento oportuno para mudar de direção. A água passava levemente por seu corpo e tudo parecia diferente, afetado. Era tudo lindo, inusitado, fácil. Era fácil ficar ali, esperando, olhando, observando, absorvendo cada detalhe, cada pedaço de tempo, de momento, de paixão descontrolada que a abordava como um temporal. Vulnerável da forma mais louca, da forma mais surreal, na realidade mais obscura e sem futuro certo. Não importava, desde o sussurro saindo de seus lábios ou de seu olhar penetrante. Ele sabia quem ela era, mesmo quando ela pensava estar escondida dele. Não importava aquilo agora, nada importava além da sensação de extrema calma que a invadia. A cautela não existia por um momento, não porque havia sumido, mas porque não precisava dela. Fechou os olhos, sentiu o cheiro. Abriu os olhos, sentiu a luz. Falou, ouviu, riu, emudeceu. Era muito fácil ser ao lado dele, era muito fácil estar com ele.
Paula Cristina.

domingo, 31 de outubro de 2010

Eu te amo, só por hoje.

Você veio, você partiu, mas voltou. Sonhei todos os dias para esse dia voltar, mesmo que não admitisse (admitir que se ama quando não se percebe correspondido dói muito...). Virei as costas, revoltei, jurei para eu mesma que jamais voltaria a amar. Não porque não quisesse, mas porque não achava que valia a pena a dor. Passei noites a fio escondendo de mim o quanto queria um romance, o quanto queria amar e ser amada. Não sei se já o sou, mas você voltou e quebrou todo o gelo que eu tinha construído com tanto trabalho pesado, noites insones, lágrimas em vão. Você voltou e tudo que já não mais era natural se tornou de uma naturalidade ridiculamente impressionante. Acordei e me percebi em um mar de alegrias que já não mais conhecia. O mundo tinha mudado com um piscar de olhos. O sorriso insiste em aparecer no rosto, mesmo quando se tenta contê-lo. Mas isso também me traz medo. E se você me machucar de novo? Terá tudo isso valido a pena? E se você se for? Na verdade, no final das contas já não faz tanta diferença. Você me faz bem. Você me faz tão bem que eu nem acredito.
Sinto sua falta e nem passou um dia direito. Sua voz me acalma e sua presença me matém em plena serenidade. Se eu pudesse, manteria você ao meu lado para sempre. Mas eu aprendi que às vezes as pessoas seguem caminhos diferentes, mesmo quando pensavam que não o fariam. Não quero que isso aconteça entre a gente, mas confesso que uma parte de mim morre de medo desse dia chegar e eu não estar preparada para deixá-lo ir. Se isso acontecer vai doer, doer muito. Mas você sempre teve essa mania de cuidar de mim, de me proteger, de me alertar e, quem sabe se algum dia viermos a nos separar você terá me preparado para isso.
Mas chega de tanto medo, de tanta preparação para coisas sem sentido. Esse texto não foi para falar de meus medos infantis, mas do quanto eu te amo mais do que pensei poder amar e do quanto espero ser correspondida. Você mesmo, talvez, nunca chegue a ler isso e, se ler, será porque você não se foi, você ficou e isso já me deixa mais calma, feliz e com certeza mais apaixonada. Quem sabe você será meu maior amor? Quem sabe você será meu romance mais lindo?
Eu te amo, só por hoje.


Paula Cristina.

sábado, 30 de outubro de 2010

Onde está o inusitado?

Por favor, comprem uma bengala decente para o indivíduo de boné à minha frente. Alguma coisa marcante, bonita, polida, entre "não estou nem aí, mas olhem para mim, assim mesmo."Algo de exibicionista por natureza, mas que mantenha o mistério. Por favor, tragam o mistério de volta ao mundo. Existe algo de extraordinário no mistério, talvez porque as pessoas insistem em ignorá-lo por completo. Não se vê mais o interesse por coisas que o despertam, que nos deixa intrigados, interessados. O mundo está anestesiado. Onde está o mistério, a descoberta, o burlesco, o mágico, o bonito, o diferente dentro de nós? Eu quero o inusitado! Onde está o inusitado?
Paula Cristina.

O jantar

Acordou, escolheu a melhor lingerie, tomou um banho, vestiu uma roupa, tomou café, fumou um cigarro. Resolveu ir ao mercado e comprar ingredientes para uma refeição deliciosa e para sobremesa, também. Ligou para o primeiro nome que veio em sua cabeça e convidou a voz do outro da linha para um jantar. Organizou tudo, deu comida para o gato, decorou a mesa, cozinhou, tomou um banho, vestiu o corselet, abriu a porta de casa e, com o copo de whisky na mão, esperou sua visita chegar. O jantar foi agradável e a conversa extremamente calorosa, Amigos fazem bem. Deitou a cabeça na almofada do sofá e adormeceu. Já passava do meio-dia.
Paula Cristina.

sábado, 23 de outubro de 2010

Lugar vago

O telefone tocou e um suspiro agudo saiu das gargantas, pesando o ar a volta. doeu no peito, nos olhos, nos ouvidos e deixou muda a boca que tanto falava. Lá fora, o céu de um azul radiante contrastava com a notícia que ouvia. Aos poucos todas as lembranças foram se tornando opacas, embassadas, distorcidas e tudo mudou de um vermelho para um cinza tão claro que era quase impossível notar.O barco, antes à deriva, agora posto ao mar, navegando, distanciando daquela terra que tanto se pensou. Algum lugar além daquele alguma coisa esperava por ele. Alguma coisa que ninguém jamais soube o que era. A luz do farol se apagou, ele jamais voltaria, por escolha também dela. As cortinas foram fechadas e o jantar posto à mesa, como sempre fora. Agora com uma simples diferença, o lugar estava vago e fora tomado.


Paula Cristina.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A inconstância que flui como vida no ar que respiro

Minha insconstância às vezes me prega peças de mal gosto. Falo algo que realmente penso do fundo de meu ser, mas em cinco minutos provavelmente não lembrarei e não concordarei com aquilo que pensei como mais verdadeiro e que pronunciei como se fosse imutável. A única coisa que não muda em mim com o tempo é o amor, o carinho que sinto. A forma de expressá-los pode mudar e, com certeza, vai mudar, mas o sentimento fica ali imutável, estável. O resto é passageiro, imoral, perdido no tempo e no espaço. O que fui a nove minutos atrás deixou de ser. Isso causa rebuliço e revolta naqueles que tem o espírito estável. Nunca entendi pessoas que morrem sem mudar de idéia, de vida, de mundos. Parece que nunca aprendem, que não sabem o que é ser de outra forma e isso é triste (assim EU o penso). Queria dizer a essas pessoas que sinto muito por ser tão inconstante, mas a verdade é que estaria mentindo pra elas. Adoro essa dialética que nunca me deixa parada, asfixiada, esquecendo de mim e de todas as personalidades que fui, que sou e que serei um dia.
Paula Cristina.

Carta a Amandinha

E hoje é seu dia e venho pensando em nós por muito tempo. Fiquei rindo: é seu dia e vou falar de nós? Sim, porque eu sei que amar é se mistu...