quarta-feira, 13 de abril de 2011

Só para constar...

Você me faz tão bem que não importo de ter apenas você na minha vida. Você me faz tão bem que não importo de aprender a pensar em um futuro nós. Você me faz tão bem que o sono não me cansa, que os dias são mais bonitos e os amores são mais leves. Você me faz bem, me faz tão bem. Sei que não é exatamente você, mas o que eu sinto quando estou com você. Poderia ser com qualquer outro, mas é com você e enquanto isso durar eu estarei disposta a sorrisos e calmarias. Sei que isso é gostar porque ninguém concorda com isso, ninguém põe fé. Eu ponho e só...


Paula Cristina.

Pós-abismo II

Ela seguiu, olhava à volta desconhecendo todos os caminhos, escolheu o mais bonito para combinar com seu vestido de flores e renda. O chão macio, amortecia os passos que ela dava tão delicadamente pela estrada. A mangueira lá na frente ofereceu-lhe uma manga deliciosa, avermelhada, doce e suculenta e seus galhos e folhas a protegeram do sol que ofuscava sua visão. Parou por tempo sem conta e depois seguiu caminho, em direção a algum lugar que ela não sabia. Passou por festas e chás e reuniões e de cada um dos lugares que passava levava alguma lembrança e deixava um pouco de si pelo caminho, partes sua que já não mais servia. Virava volta e meia e mudava a rota que escolhia à medida que sentia ser o melhor, sempre passando por estradas bonitas e calmas. Passou por jardins, labirintos e encruzilhadas. De vez enquando parava para conversar com os transeuntes, ler um livro ou mesmo ficar ali, parada, sem nada para fazer, só observando. Chegou a uma cidadezinha calma, com umas pessoas tranquilas que a faziam sorrir, escolheu ficar ali por tempo indeterminado. Os dias foram passando e aquelas pessoas se tornaram família, carinho, cuidado. Os anos passaram e ali, naquela cidadezinha, ela fincou suas raízes. Em uma noite enluarada, a cidadezinha toda parou. A chegada de um homem que ela ansiava por conhecer. Um tempo antes dela chegar na cidade, um homem foi em busca do mundo e deixou a cidade na saudade. Volta e meia cartas chegavam dando notícias de seu paradeiro e de sua vida, mas ele nunca voltava, entretido com tantas outras coisas e tantas outras vidas. Finalmente ela conheceria o tão querido homem. Vestiu-se de um vestido azul turqueza lindo, os cabelos presos em um coque desarrumado de fios caindo por sobre seu rosto, a sandália prateada ajustada a seus pés, os brincos claros como a lua combinados ao colar caído sobre seu peito nu e o anel de pedra transparente. A maquiagem deixava seu rosto mais nítido e vibrante e os olhos contavam de amores e denunciavam sua ansiedade. Desceu a rua em direção à praça e já podia ouvir de longe a música tocando, comemorando a volta do homem estranho. Sentiu que uma pontada de calma e inquietação se misturavam como se algo inesperado fosse acontecer, mas não sabia o que era. A muito havia esquecido de seu dom intuitivo, de como o cheiro das coisas eram diferentes de acordo com a situação. Acostumou-se com o rotineiro e esquecera-se do sentimento do desconhecido. Foi então que ao chegar do outro lado da rua, já em frente à praça ela notou um homem bonito de costas, parecia-lhe conhecido, alguma coisa de familiar, de apaixonante. Reconheceu-o imediatamente, mesmo de costas, ele a empurrara no abismo, ele a tinha conduzido por estradas que não conhecia e deixou-a assustada e triste. As lágrimas tentavam descer por sobre seu rosto, mas ela era mais forte, anos de caminhada sozinha a fizeram assim, ele a ensinara bem a aguentar dores insuportaveis e a enfrentar desafios dos mais variados. Não fazia diferença, estavam ambos na mesma cidade e ela não poderia deixar de acolhê-lo, aquelas pessoas que ela tanto amava o amavam também, como um dia ela o amou, como secretamente ela ainda o amava. Respirou fundo e pôs-se a andar da forma mais calma possível, não queria que percebessem o nervosismo que pesava suas pernas, que disparava seu coração. Parou em frente a um banco e sentou, conversando com a menina vestida de renda e flores, como ela se vestira também um dia. De repente, seus olhos não aguentaram e dirigiram-se a ele e foram pegos de surpresa, ele a olhava de longe e sorriu um sorriso tão bonito, tão real que ela não pode deixar de retribuir e segurar para não demonstrar que aquele sorriso quebrara todas as defesas que ela havia feito. Percebeu isso e se prometeu, naquele exato momento, que o evitaria o máximo possível para não cair na tentação de sofrer novamente como havia sofrido a tempos atrás. Como não podia deixar de ser, sua amiga mais íntima procurou sua mão -"venha, quero que o conheça, você vai adorá-lo"- impossível fugir. Se cumprimentaram e ficaram ali, na mesma roda, ela evitando seu olhar, ele procurando chamar sua atenção o máximo possível. A festa inteira ficaram um ao lado do outro, ela tentando se desvencilhar, ele tentando se aproximar. Sentia-se numa teia de aranha, não tinha saída, estava presa e quanto mais tentava sair da teia, mais presa e enrolada ficava. Percebeu que não tinha mais jeito, parou de tentar fugir e ficou a observar as pessoas a sua volta, procurando distrair sua mente. Da festa, foram para o bar da cidade, queria sentar-se o mais longe possível, mas foi a última a sentar e nessa brincadeira, sua cadeira era justamente a do lado da dele (o destino prega peças às vezes, que ninguém entende, pensou). A ansiedade tomava proporções descomunais e agora já não era possível escondê-la, ela não sabia o que fazer, tudo que pensava era "porque você foi embora, porque você me deixou, porque você voltou e porque você está aqui ao meu lado, tentando chamar minha atenção? Não vê que eu morreria por dentro se você partisse? E você vai partir, você sempre parte..." Tomava um drinque e outro, tentando disfarçar, mas não adiantava, ele percebeu, insistiu, sabia o que queria. Sua amiga olhou o horário e pediu para que eles a esperassem no bar, ia ali buscar o irmão na praça. Só podia ser brincadeira, ela não queria ficar sozinha com ele, sabia o que sentia e sabia no que ia dar tudo aquilo, não tinha como fugir, a teia estava bem feita, pronta para qualquer tentativa de escape. Olhava para os lados em uma tentativa frustrada de fingir não ver o que estava acontecendo, mas ele foi mais esperto, prendeu sua atenção em um piscar de olhos e então a perdição se fez presente, ela sabia que se debater não adiantava mais, nem queria mais fazê-lo e ficou contando os segundos para que ele a beijasse de uma vez e a fizesse esquecer por um minuto que o mundo existia como tantas outras vezes o fez. E assim, a noite se alastrou e o beijo dele trouxe uma paz inexplicável, como se nada fosse tão certo naquele momento. O medo já não mais paralizava, mas dava asas para que ela pudesse escolher seu próximo passo. Ela podia perder-se amando-o ou podia amá-lo pacificamente como uma árvore no jardim, esperando seu pássaro preto voltar para dormir em seus galhos. Escolheu a segunda alternativa. O futuro? Não mais a amedrontava, como tantas outras vezes, escolheu o caminho mais bonito, mais tranquilo. Naquele dia, o caminho levava a ele.



Paula Cristina.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Fragmento de pensamentos

É uma pena que não vá dar certo, e que você já tenha escolhido não dar... é uma pena que eu possa apenas falar com você pensando que somos amigos, enquanto você olha para mim e pensa em ser algo no meio entre ser amigos e ser namorados. É uma pena que você não sinta suficiente falta de mim e que eu não sinta o mesmo por você. É uma pena, porque no final das contas, você ainda passa pelo fundo da minha mente, a idéia de duas pessoas caminhando caminhos diferentes e dividindo segredos conjuntos. É uma pena que eu seja mulher e você seja homem, é uma pena que pensemos tão diferente. É uma pena o que eu sinto, porque o que eu sinto é vazio, é impossibilidade. É uma pena cada fragmento de vida que se perde toda vez que minha dor toca no fundo do poço por você...



Paula Cristina.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

trecho conjunto

Acho que parte de você estava certo. Você era mais amigo que amante para mim. Você não era o desejo reprimido, era o alívio imediato. O medo do que os outros pensariam a respeito de nós dois era enorme, medo inconsciente (será?) de nos verem como casal. Você era meu melhor amigo. Tenho 22 anos e até hoje confundo amizade com estar apaixonado. Que coisa louca, que coisa louca. Contar sobre meu dia é reconfortante, falar com você, mas não essa coisa louca de ouvir sua voz. Meu beijo é mais leve com outro. Meu beijo é mais beijo com outro do que com você. Eu fui muito mais mulher com qualquer outro que tenha aparecido, então como isso poderia ser amor? Não, nãe é, nunca foi. Foi diversão, entusiasmo, foi fim de dia, o nome que você quiser, mas amor, meu bem, ficou muito distante de mim, de você, de nós.



Paula Cristina e M.A.

sábado, 2 de abril de 2011

Enterro

Já estive em seu enterro tantas vezes em março que desconfio que os anos passaram e eu não notei. Olho o calendário e o ano continua o mesmo. Você vem e volta e eu o mato tantas outras vezes. Não sei se consigo lidar um dia sequer com essa loucura camuflada. Você me confunde, eu me confundo. Eu te confundo, você se confunde. É tudo tão nebuloso, tão obscuro. E aqui estou eu, finalmente em abril em luto por você mais uma vez e tudo que me vem à cabeça é se você realmente morreu, se vou aguentar mais uma ressurreição e morte desavisada. Eu não sei, mas como sempre, eu nunca sei. Você me machuca, eu me machuco. Eu choro e o eco não responde. EU CHORO SOZINHA.
Não vou beber, não hoje, estou de luto. Não vou sair, não hoje, estou de luto. Vou sorrir e lembrar uma última vez. Lembranças pertencem ao passado e é lá que eu espero que fique (controvérsias à parte, você não vê meus gestos rápidos condenando a mentira que acabo de contar tentando convencer principalmente a mim). Amanhã eu vou acordar e vai ser um novo dia, com novas horas e novas histórias. Amanhã meu rosto vai acordar inchado, mas há sorrisos e maquiagens para esconder as marcas das dores de hoje. E quando amanhã eu acordar, você terá sido enterrado e eu terei chorado. Amanhã, porque hoje as lágrimas escorrem e caem para as novas cicatrizes que você, tão arduamente planejou.
O amanhã chegou e o alivio não passou...


Paula Cristina.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Mistério

Se eu conseguisse escrever cada segundo de história que passa em minha cabeça, talvez assim, um livro se escreveria por si só contando horas e minutos a fio, declarando as minhas loucuras e os meus fascínios. Se conseguisse pôr em palavras cada pensamento meu, então estaria decifrada como um enigma fácil diante de um gênio. E se por final fosse decifrada o mistério acabaria, como a minha própria pessoa, porque de que adianta me mover com um destino traçado ou sem nada para ser descoberto? Por sermos enigmas de nós mesmos nos tornamos humanos e nos perdemos humanos e então o ciclo da vida continua, se mantendo a cada passo disposto a chegar ao final da jornada, à concretude do conhecimento. O mistério nos mantém vivos e só.



Paula Cristina.

história mórbida

Ele não sabia o que queria, como queria... tudo que sabia era simplesmente sentir aquele vazio que o atormentava. As ruas pareciam escuras, enegrecidas e o toque místico do vento sussurrando em seu ouvido quase causava um "frenesi" momentâneo que nunca chegava a se completar. O sangue escorrendo pelas mãos trêmulas de tanta força usada para mantê-las cerradas, o coração disparado condenava toda uma rua deserta pelas batidas surdas que se deixavam ouvir pelo corpo e ecoar pelo vazio. Qualquer um que visse aquela cena, pensaria em alguém perigoso com cara de psicopata como naqueles filmes clássicos de terror. Mas olhando por entre-linhas, ali estava um assustado, perdido, sofrido, embriagado pelas próprias emoções. Qualquer um que o visse diria que estava embriagado, mas as gotas de álcool que mais próximo chegaram foram aquelas que adentravam bocas outras ao seu lado, que não a dele. Olhou para trás e viu aquela mancha de sangue o seguindo e denunciando-o de seu paradeiro. Como queria sangue-sugas nesse momento para que lambessem o chão, e encobrissem seu crime. A consciência pesou. Uma hora dariam por falta do Leo e a primeira pessoa que procuraria, o primeiro suspeito seria ele, já que era seu melhor amigo. Virou na próxima esquina, distanciando-se de casa. Andou duas quadras inteiras até chegar à delegacia.

Matei um homem - disse em uma voz fria e controlada. A mulher atrás do balcão olhou-o assustada.
- Sente-se, por favor - e discando o telefone disse numa tentativa de aparentar calma - Senhor, há um homem aqui dizendo ter matado alguém. - Aguardou as instruções do outro lado da linha, desligou o telefone e sorriu forçadamente à ele.
- Tenho que pegar os dados do senhor, se não se importar. Protocolos. Sabe como é.
Ele a fitou calmamente, pegou os documentos e entregou à mão trêmula da mulher. "Ela trabalha em uma delegacia, lida com homicidas mentirosos o tempo todo e não consegue nem ao menos controlar o próprio medo?". Riu consigo pensando se seria tão perigoso quanto a mulher imaginava, concluiu que não e sorriu para a mulher.
O policial responsável por aquele turno incoveniente da madrugada apareceu por uma porta atrás da mulher, olhou a ficha do homicida e disse em uma voz seca - Você diz ter matado alguém?
- Sim, matei. Por motivo nenhum aparente.
- Precisarei de nome e lugar do corpo.
- Leonardo Guilherme Fontini. Está estirado dentro de sua própria casa, no chão da sala de estar.
A secretária se pôs a vasculhar o endereço do pobre indivíduo, mas ele não constava em nenhuma lista. - Senhor, não encontro registro de ninguém com esse nome, tem certeza de que esse era o nome?
- Tenho. Foi meu melhor amigo por 14 anos. - A mulher olhou assustada. Como alguém teria coragem de matar o melhor amigo?
- Pode me dizer o endereço, por favor? Quem sabe assim, o encontro?
- Rua 66 Qd. 40 Nº99
A mulher olhou pelo canto do olho para o policial, que foi logo ver o que ela olhava.
- Não consta nenhum Fontini nessa casa, senhor. Porque não nos leva até lá?
Outro policial já esperava à porta da delegacia com um carro logo atrás, algemaram-no e entraram no carro. Seguiram as direções dadas pelo homicida e chegaram ao portão de uma grande casa, com jardim na frente. O policial bateu na porta e uma mulher, como era de se esperar atendeu. O policial perguntou se alguém havia sido morto ali, mas ao contrário do que se esperava ela contou sobre um acontecimento estranho mais cedo.
Um homem entrou em sua casa completamente atordoado, mas passou direto por ela, como se não a visse. Chegou à sala de visitas e começou a gritar, ela correu em sua direção, com medo de que estive brigando com seus filhos, mas no mesmo instantes os três desciam as escadas para ver também o que estava acontecendo. Quando ela chegou à porta da sala, viu o estranho gritando com um nada à sua frente. Ele então começou a bater no ar, foi em direção à parede como se estivesse pressionando alguém contra ela, mas não havia ninguém ali, ele então começou a esmurrar a parede com força e gostas de sangue começaram a escorrer de sua mão. Olhou para o chão parecendo ver alguma coisa lá e pediu desculpas para alguém. Saiu da sala, passou pela mulher e as crianças parecendo não vê-los, abriu a porta e foi embora.
A madrugada estava fria, o carro voltou para a delegacia. O homem foi solto. Naquela noite alguém morreu, ninguém saberia quem era, nem mesmo ele. O corpo enterrado no jardim de sua própria casa, um pouco antes de sair pelas ruas sem rumo. Seu próprio filho, não registrado em um cartório. Uma aberração da natureza. Matara sua mãe quando nasceu e por catorze anos fora trancado no porão da casa em que vivia. O sangue escorrendo pelas paredes foram lavados e a raiva fora camuflada por leves tons de cinza.O homem se matou naquela mesma noite. A casa estava assombrada.



Paula Cristina.

Carta a Amandinha

E hoje é seu dia e venho pensando em nós por muito tempo. Fiquei rindo: é seu dia e vou falar de nós? Sim, porque eu sei que amar é se mistu...