quarta-feira, 18 de maio de 2011

Intimidade

A menina de vestido verde, sentada à mesa comendo pão e bebendo cerveja se divertia brincando com o cachorro. O chão frio segurava seu corpo que se movia constantemente para todos os lados possíveis. O homem a olhava enquanto fazia comida e correspondia os olhares da menina. O relógio tiquetateava calmamente, esperando o tempo chegar, esperando o tempo passar. A comida ficou pronta, o fogo apagou. A menina então, sentou ao lado do homem para comer. Olhava-o interessada, queria ver cada movimento, perceber cada momento e cada sentimento que perpassava por ele. Ele, muito ocupado com os talheres não percebeu o quanto ela o olhava. Os talheres foram finalmente postos de lado, ele a olhou e ela já era mulher novamente, o ar de menina travessa se escondeu por trás dos olhos que agora seduziam-no sem um pingo de escrúpulos. Não tinha medo e a intimidade que ia crescendo aos poucos preenchendo o vazio entre os dois aumentava e diminuia o espaço em branco que tanto queriam preencher. De fundo, o relógio insistia em tiquetatear, mas eles já não ouviam. Estavam em um tempo paralelo, encontraram-se na linha tênue dos tempo e do não-tempo e ficaram ali a trocar confissões com o olhar. Pela primeira vez aquele tipo de intimidade não a assustava, não a incomodava...


Paula Cristina.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Queria momentos, e só.

A menina no vestido azul passava tranquilamente pelo corredor fingindo não procurá-lo. Os quartos se abriam a medida que passava, mas todos vazios, pareciam caçoar do desejo escondido que tinha de encontrá-lo. Desistiu, sentou a um canto, quase corroendo-se por dentro e acabou por adormecer em cima de alguns livros caídos de pilhas e pilhas baseadas no chão. O cheiro de livro de biblioteca inundava seu corpo e dormiu ali, sonhando, sentindo o cheiro dele a cada expiração. Sentia o cheiro dos livros e o cheiro dele. Tudo se misturava em uma dança sensual. Acordou assustada, não se lembrava de adormecer. Pegou seu som portátil e se dirigiu à entrada da biblioteca. O barulho dos passos faziam-na olhar com a esperança cabulosa de ser ele, quando era óbvio que não seria, ele não frequentava ali, pelo menos, não até onde sabia. As músicas eram todas para ele. Desligou o som, estava tentando não pensar nele. A luz do dia estava diferente, tinha que comentar aquele fenômeno com ele. Não, ele não, de novo? "Não posso pensar nele", mas quanto mais se impedia, mais pensava. No final das contas desistiu de não pensar nele. Pensou, pensou muito. Pensou tanto que ligou. Ele do outro lado da linha dizia que sentia saudade. Ela pulou por dentro, o coração acelerado. Será que ele também esforçava-se para não pensar nela? Torcia que sim, fingia que não. Se acreditasse piamente nisso, as esperanças de serem um casal aumentariam e ela não queria criar esperanças, queria simplesmente viver aquele momento e poder dizer boa noite a ele quando for dormir. Queria momentos, e só.



Paula Cristina.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Só um bobo não perceberia

O telefone tocava denunciando as horas passadas. A mensagem na secretária eletrônica denunciava as batidas do coração que aceleravam a cada sílaba pronunciada. A voz dele era calma, suave, bonita. Gostava quando telefone tocava daquela forma, era ele mais uma vez... Quantas vezes odiou presença, agora adorava presença. Quantas vezes odiou elogios, agora torcia para os elogios ocorrerem. Quantas vezes odiou largar sua rotina, seu pijama regado a noites de filmes para sair, agora esperava impaciente o horário de pegar o carro e deixar aquele filme tão esperado para outro dia. Quando as mensagens chegavam era um pulo do coração a cada palavra lida e um sorriso a cada frase terminada. Estava mais paciente também. Será que foram as tantas lágrimas derramadas ou um simples amadurecimento, uma mudança de fase? Talvez fossem os dois... Ela sorria encabulada e ria um riso alegre e apaixonado. Ele ainda não sabia disso, não por completo, mas era óbvio, estava estampado no rosto, só um bobo não perceberia...


Paula Cristina.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Texto da Marla de Queiroz

"Ele não sabe mais (quase) nada sobre mim.
Não sabe que o aperto no meu peito diminuiu, que meu cabelo cresceu, que os meus olhos estão menos melancólicos, mas que tenho estado quieta, calada, concentrada numa vida prática, e sem aquela necessidade toda de ser amada.
Ele não sabe quantos livros puder ler em algumas semanas.
Não sabe quais são meus novos assuntos nem os filmes favoritos.
Ele não sabe (...) mas conservo alguma curiosidade em saber se o seu coração está mais tranquilo, se seu cabelo mudou, se o seu olhar continua inquieto. Ele nem imagina quanta coisa pude planejar durante esses dias e como me isolei pra tentar organizar todos os meus projetos.
Que tenho sentido mais sono e ainda assim, dormido pouco.
Que tenho escrito mais no meu caderno de sonhos.
Que aqui faz tanto frio, ele não sabe por mim.
Ele não sabe (...) que aprendi a não sobrecarregar meu coração, este órgão tão nobre.
Ele não sabe que eu entendi que se eu resolver a minha dor, ainda assim, poderei criar através da dor alheia sem precisar sofrer junto pra conceber um poema de cura.
Hoje foi um dia em que percebi quanta coisa em mim mudou e ele não sabe sobre nada disso.
Ele não sabe que tenho estado tão só sem a devastadora sensação de me sentir sozinha.
Ele não sabe que desde que não compartilhamos mais (quase) nada sobre nós, eu tive que me tornar minha melhor companhia: ele nem imagina que foi ele quem me ensinou esta alegria."

terça-feira, 19 de abril de 2011

Decepção

Eu me pergunto o que será de sua filha, que vive em uma casa onde o ódio simplesmente pelo ódio se faz presente. Não sei qual seria pior, ser molde ou não sê-lo nessa situação. A decepção que desce por meu corpo, pela minha alma escorre como um veneno infectando cada sorriso, cada cuidado. De onde vem tanta raiva? Tanta ignorância? Dói pensar que a cada dia que passa, nos distanciamos mais e mais, pelas atitudes, pelas idéias, pelo respeito. O que você fará quando eu fizer minha primeira tatuagem de tantas outras que eu farei? Qual será sua reação quando descobrir de tantas desejos e sonhos que estou para realizar que não condizem com a sua moral? Acho que já tenho a resposta estampada nas suas frases de ódio contido. Você me amará depois de tudo isso? Existirá respeito ou serei um ser a mais cuspido pelas forças do destino para fora de sua vida? Você não vê que o mundo mudou, que as diferenças são lindas, que cada um tem uma vida diferente, um estilo diferente? Esse seu ódio sem cabimento me afasta de você, me enoja. Eu, mais do que qualquer outro deveria compreender isso, sou estudante de psicologia. Mas quer saber? Eu não entendo, não entendo porque escolher o caos, quando é tão mais simples, tão mais bonito e tão mais pacífico escolher o respeito. Eu não sou você e, por isso, eu sou linda e vice-versa. Hoje lágrimas sangram do meu coração ao saber que a distancia aumenta. Só torço para que não chegue a esse ponto, ao ponto de perdermos o respeito como você perdeu noutro dia.


Paula Cristina.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

É uma pena que ele não se importe...

It's such a shame that you don't care; it's' such a shame that we're not there...

As horas se arrastavam enquanto você sumia por milésimos de segundos. A foto emoldurada na parede contava de um menino disfarçado de homem. Um menino tão indefeso no amor quanto a menina. Ambos fingiam não ser e ambos de tornavam meninos por causa disso. O homem e a mulher, o menino e a menina. Ela não sabia se ia ou se ficava, não porque não gostasse, mas porque ela sabia que talvez ele não ficaria. É uma pena que ele não soubesse que por ele, tudo mudava... ele só sabia da atração, da tentação...



Paula Cristina.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Sua despedida.

Gosto da sua despedida, me alivia e me pacifica seu "até mais tarde", significa para mim que você volta, que você quer voltar. É lindo. E nesse brincar de perceber significações eu descubro que posso ser interessante pro outro da mesma forma que o outro me é interessante. Ser humano é lindo, poético. E nesse brincar de perceber a mim eu descubro que psicologia é lindo, assim como a paixão camuflada que quase nunca deixo transparecer e que transborda com suas despedidas...


Paula Cristina.

Carta a Amandinha

E hoje é seu dia e venho pensando em nós por muito tempo. Fiquei rindo: é seu dia e vou falar de nós? Sim, porque eu sei que amar é se mistu...