sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Fim do dia.

E as nuvens estão lindas... os dias passados em branco se tornam papel de cetim raro e o sorriso se torna quase amável e de tão perdido torna-se assustadoramente real e pertubadoramente intrigante. Ela entra debaixo do chuveiro, fecha os olhos, sente a água escorrer pelo seu corpo. É tudo de mais puro que tem agora. Fica horas debaixo dágua. Desliga o chuveiro, deita na cama e adormece, nua. Espera-se sonhar bonito. É tudo que ela tem daquele dia.
Paula Cristina.

Alguém percebe?

E eu juro que tem dias que não entendo o que faço nesse mundo. Fico a me perguntar se pertenço de algum modo a essa vida que eu escolhi. A solidão às vezes é arrasadora e tudo que me resta são livros, cenas, músicas. É o que me mantém sã. Não me entenda como uma culta antisocial. Quero conversar, conhecer, socializar, mas tudo que tenho é um medo intenso de parecer diferente. Sei que o sou, mas quando vêem eu me torna alienígena. Meu medo é esse e me arrasa. Será que percebem a vergonha?
Paula Cristina.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Identidade

Ela acende um cigarro, desvia o olhar, traga. Encara o jornalista. "Não sei se compreendi, assumo papéis porque é assim que tem que ser. Não dá para vivenciar, entrar em um mundo específico se não encaro o papel por completo." O jornalista a fita por alguns segundos e mantém a tensão ao máximo continuando a entrevista. "Acho, Clarice, que sua necessidade de assumir papéis é a tentativa de manter sua identidade oculta. Você quer que pensem que é do jeito que quiser, quando quiser e da forma que quiser. Seu íntimo permanece intacto, escondido, enquanto seu social parece por si só aberto. Você quer e não quer se fazer conhecer, mas tem medo das consequências". Ela olha desconfiada para o jornalista, apaga o cigarro, vai em direção ao carrinho de bebidas e prepara uma taça de gim com azeitona no fundo. Dá um gole, volta sua atenção ao jornalista e com um sorriso estampado no rosto acrescenta: "se já tem uma idéia formulada do que eu devo dizer, não importa o que eu responda, o que eu acrescente, ainda assim, chegaria a conclusão de que seu pensamento está correto. Portanto, não vejo razão de me fazer explicar idéias quando já as tem resolvidas em sua mente.". Abriu a porta do escritório e caminhou até seu carro. O dia estava lindo de morrer.


Paula Cristina.

Ele

Ela acordou cansada do sonho que teve na noite anterior. Raras vezes ela sonhava com alguém que fizesse parte de sua vida, principalmente que fosse tão amado. Não queria acordar, queria ver os acontecimentos desenrolarem, mas tudo que ela tinha era o que ela percebia do que já havia ocorrido. Por um milagre qualquer isso a fez amá-lo mais e mais quando tudo que ela queria era dar um jeito de não mais pensar e sentir todos os sentimentos que vinham junto com a volta dele à sua vida. Não queria conversar, nem sair, nem nada. Tudo que queria era ficar ali parada, esperando que algo mudasse. Ela não sabia o que fazer mais. Ele fazia falta mais uma vez em sua vida.
Paula Cristina.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Pássaro de asas quebradas

Aprisiona-mes em teu ventre, esperando que eu renasça como era. Impressionante é o amor falsiário que não percebe nunca que, aprisionado, o pássaro não canta, o pássaro voa, mas machuca-se nas grades. Seu amor incomoda. Amor que é amor, compreende, deixa livre, segue em frente. Mas esse amor é ideal e por compreendê-lo e vivê-lo a meu modo sou eu o pássaro preso na gaiola de teias de aranha.


Paula Cristina.

Minha terra do nunca.

Não sei amadurecer. Confeço ser por completo criança. Sou birrenta, mimada, osso duro, teimosa. Se não consigo, finjo conseguir e de tanto finjir, consigo. Não há uma alma viva que me faça mudar de idéia. Mudo porque quero, quando acho necessário. Escrever faz parte da minha parte perdida, verde, que insiste permanecer infantil. Não sei escrever de outra forma, a forma que escrevo é extensão de mim. Nunca compreendi pessoas que escrevem coisas que não são pessoais. Tudo que se é, se pensa, se age, é próprio, pessoal, infindável para ser colocado em palavras distantes, impessoais. Porque fugir de si, quando dizem que permanecer em si é forma de amadurecer? Eu infelizmente, nunca entendi, como funciona isso. Para mim, permanecer em si, é como ter o egocentrismo aflorado, é a forma mais linda de se infantilizar. As pessoas fogem de si, porque querem continuar crianças, eu permaneço em mim, porque quero eternizar criança. Amo não ser madura, é parte da graça de ser humano. Sou por completo criança e furtivamente adulta. Ai de quem tentar roubar isso de mim.
Paula Cristina.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Adeus meu porto seguro

Eu vou sempre valorizar tudo que vivemos. Você foi necessário, peça importantíssima para o meu crescimento. Mas a vida passa, as coisas mudam, o mundo muda, e juntos mudamos também. Eu mudei, você mudou. Não temos os mesmos ideais, os mesmos sonhos, os mesmos projetos. Sinto muito por fazê-lo assistir meus surtos. Você viu minhas feridas abertas, foi meu porto seguro quando eu pensava não ter ninguém ao meu lado. Agora eu preciso dizer adeus, lembrá-lo que não era para ser. Nosso relacionamento foi feito com um prazo de validade e este prazo chegou ao final. Você foi sorrisos, amores, olhares, alegrias, dores também, mas dores fazem parte. Minha falta de crescimento pessoal me fez procurar a parte destrutiva e você era a vávula que a ligava e a que desligava também. Você me desafiou a ser melhor do que eu mesma acreditava ser, mas chegou, passou e agora é hora de dizer adeus. Adeus ao meu antigo porto seguro, aos meus medos e superstições, aos amores mal amados. Adeus a você que dizia tanto me amar, mas me amando, jamais fez parte por completo desse redemoinho que era minha vida. Você foi contradição e a contradição ainda permanece em mim, mas bem menos real, bem menos presente e dela eu vou levar saudades de um tempo em que você era parte fundamental dos meus sorrisos.
Paula Cristina.

Carta a Amandinha

E hoje é seu dia e venho pensando em nós por muito tempo. Fiquei rindo: é seu dia e vou falar de nós? Sim, porque eu sei que amar é se mistu...