sábado, 7 de agosto de 2010

A noite

O cigarro ardia, pedindo ser consumido por mãos ageis, lábios fortes. Ela arriscava uma olhada ao isqueiro por tempo suficiente e esmagador. A água esperando para ser tomada, o remédio em cima da pia. Todos esperando a decisão final. Levou a água a boca, jogou o remédio no ralo da pia. Consumiu as 510ml de água, pegou o cigarro, aproveitou e levou o maço consigo, pegou o isqueiro, sentou na varanda. A lua estava linda, dourada, esperando para ser adorada. Os pensamentos passavam calmamente por sua cabeça. Nada triste, desesperado, nada tirava a paz, nada a arrancava daquele estado. Lembrou das dores, mas já não doíam, eram apenas lembranças. Cigarro, boca, cigarro, boca, lua. Cigarro, boca, cigarro, boca, sorriso, lua. E foi assim a noite inteira. Noturna, sempre fora noturna. Hoje não importava, hoje era apenas uma qualidade, um modo de vida. O sol ia surgindo no horizonte, levantou e com um sorriso em seu rosto pronunciou "Bom dia mundo". O café sairia daqui a alguns minutos, o cansasso não mais existia.
Paula Cristina.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Uma nova cicatriz

Acordou com uma vontade súbita de se despir emocionalmente. Nunca fizera isso antes. Envergonhada comprou um picolé para ver se passava aquela vontade louca, estúpida, contida como sempre. Não passou. Caminhou pelas ruas da cidade, passou por praças, tirou fotos, observou pessoas, mas nada tirava aquela vontade insana da cabeça. Ouviu música, mexeu no computador, assistiu tevê e, ainda assim, a maldita da vontade estava lá. Aquele desejo incontrolável tomava cada vez mais posse do que era seu, esquecendo que existem pessoas e que pessoas não se importam com nada que seja muito emocional, a não ser que elas o sejam também. Jogou baralho, bebeu, fumou, passeou com os cachorros. Dirigiu, ensurdeceu, esqueceu o mundo, leu um livro, estudou. A vontade continuava forte, apertada no peito como um balão prestes a explodir. Procurou seu amante de sempre, quem sabe ele não tirava aquele desejo dentro do peito? Vontade e desejo é falta de coisas interessantes para fazer, quem sabe não fez nada de interessante pensando que fez? Não adiantou, para variar. Então se enconlheu em seu quarto, escondida de todos e se pôs a chorar. Chorou até não ter ar, até os soluços pararem por falta de força corporal, até o corpo se esgotar e dormir. Quem disse que desapegar é fácil, quando tudo que se queria é tudo que nunca se teve e de repente surge e some como um passe de mágica? Os olhos secaram, mas a ferida continua aberta, firme. Cicatrizes podem ser lindas, mas ainda assim doem ao cicatrizar.


Paula Cristina.

domingo, 1 de agosto de 2010

Dez dias

Dez dias. Sessenta e duas vidas entrelaçadas. Mal sabiam o que as esperavam. Cansasso, exaustão, cumplicidade, carinho, amizade, cuidado. Apenas palavras que não descrevem com exatidão o sentimento completo instaurado naquele grupo. O olhar vago e assustado de alguns se tornou forte e poderoso com o tempo, o olhar provocantes de uns inspirou outros. Todos se cuidaram pelos dias afora. As lágrimas caindo e molhando rostos, borrando-os, deixando-os um pouco difrente do que deveriam mostrar. Doía porque sabiam que tinham mudado, crescido, se sustentado ali. Por favor, tragam tudo de volta! O cansasso passa, as idéias fluem e tenho que praticar o desapego mais uma vez, como em tantas outras vezes. Mas a verdade é que praticar o desapego às vezes dói, porque é exatamente aquilo que sempre quis e nunca encontrou e de repente evapora das mãos como se nada existisse, a não ser a lembrança do que foi. E volta-se então, para aquela vida de sempre pacata, sombria, esperando ser algo que nunca foi, que será um dia, mas não se sabe quando ao certo. Como amei esses dez dias. Como chorei dentro da alma. Não, eu não soube praticar o desapego, não com os dez dias.
Paula Cristina.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Na vida, tudo depende

Entraram. Eram tantos: tantas histórias, tantas vidas, tantas decepções, tantos amores, tantos agrados. Olharam-se, cumprimentaram-se. Um por um foram ocupando espaços, bons ou ruins, ainda eram espaços. Conversaram, riram, falaram de si. Algumas amizades se fortaleceram, outras nem tanto ficaram para trás com uma vontade de quero mais reprimida que deixaria marcas, feridas e indiferenças por toda a vida. Tudo depende de um olhar, tudo depende de um sorriso, tudo depende de uma palavra. As circunstâncias mudaram, as pessoas mudaram, os relacionamentos mudaram. No final das contas, na vida, tudo depende das circuntâncias, de cada pessoa, do clima. Tudo depende, tudo interliga, tudo é muito complexo. Sempre tem dois lados, sempre tem, pelo menos, dois fatos. Tudo depende.


Paula Cristina.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O estranho

E os olhos, os olhos.... é tudo que sei dizer daquilo que não foi dito. Fiquem cegos, por favor e me deixem dormir. A noite cala abertamente e tudo que se sabe são as horas incertas de momentos perdidos e os surtos constantes de quem vive à procura de um centro. Qual a linha de reciocínio que se deve tomar? Qual o caminho a seguir? Tudo tão incerto, tão fora do destino. Não faz mal, destino é para os fracos de espírito que não sabem fazer de suas atitudes momentos perdidos. Seja bem vindo, o jardim é logo ali atrás. Não, não quero que entres, mas sinto que não tenho escolha. A piscina vazia, o copo na mão. Quem é você, estranho que não me deixa dormir? Que não me deixa passar e simplesmente ouvir a música que não vou lembrar ter escutado? Quem é você para entrar na minha casa e sujar minhas cortinas? Vá embora, não te quero aqui. A porta bate e eu vou dormir. Boa noite.
Paula Cristina

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O problema do amor

O problema do amor é que você entra pra ganhar ou perder e nunca sabe as chances que tem realmente. É como jogar na loteria, ou aplicar na bolsa de valores, é uma montanha russa esquisita. Primeiro porque você tem que se acostumar com uma pessoa se enfiando na sua vida; segundo porque você tem que se enfiar na vida de uma outra pessoa; terceiro porque existe expectativas dos dois lados e nunca são realistas; quarto porque se você se machucar vai ser MUITO e vai doer muito e se você se separar da pessoa, uma parte sua vai com ela. É uma responsabilidade e uma loucura mútua e completamente arriscada . Uma vez que se ama, se ama para sempre. Aquela parte sua vai embora com a outra pessoa. Já não é só uma parte, mas uma comunhão de partes e, a não ser que se esteja realmente certa da imortalidade, porque tentar se estraçalhar? Mas porque, mesmo assim, procurar amor? Amor não se procura, se acha. Mas e se não for amor? E se for algo menos ou algo mais? Existe algo mais? Se existe, digo que quem achou é um felizardo. E no final das contas, o maior problema do amor e justamente deixar as pessoas assim, sem ar, sem lugar, até que se ache um amor.
Paula Cristina.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A voz no telefone

O telefone tocou uma, duas, três vezes e do outro lado uma voz diferente, mas conhecida atendeu. Estava tão perdida em pensamentos e barulhos externos e internos que não conseguia raciocinar de quem era a voz. "Quer falar com quem?" - perguntou. Responde o nome da amiga. "Ela não está aqui agora, quem é?". "Mary Anne." a voz responde: "Mary Anne? Quando ela voltar, aviso que você ligou. É o Thomas quem está falando." Ela responde "Quem?", ele: "Thomas". Ficou sem reação. Ele sabia que era ela, tinha certeza agora. A pergunta foi mais uma forma para dizer quem falava. O coração bateu acelerado. Será que era ele mesmo? Existem tantos Thomas no mundo. Mas não, devia ser ele! Só podia ser ele! Desligou o telefone, ainda sem reação. O sorriso se alargou na face. Que saudade. Que saudade.
Paula Cristina.

Carta a Amandinha

E hoje é seu dia e venho pensando em nós por muito tempo. Fiquei rindo: é seu dia e vou falar de nós? Sim, porque eu sei que amar é se mistu...