segunda-feira, 20 de junho de 2011

Medo

Os homens debaixo daquelas capas escuras. Homens! Sim, homens! Nunca percebia e de repente "boom!"... a bomba sobre meus pés... meu medo era de homens, encapuzados, preconceituosos, desumanos, psicopatas, inconsequentes. Não tenho medo de coisas além, tenho medo do que estes homens se tornarão. Não tenho medo do desconhecido, mas da vida desconhecida destes homens. Não tenho medo do mundo, mas das atrocidades destes mesmos homens, que de tanto matar, brutalizar e incompreender trouxeram dor e horror ao mundo. Culpo um pouco demais os homens e coloco, sem querer, as mulheres como vítimas, mesmo que lá fundo, sei que essas perversidades são de ambos. São esses horrores que não me deixam pregar os olhos de noite, os horrores de histórias que poderiam acontecer pelo descuido e delinquência de tantos outros "humanos". E as capas escondem os rostos, representam o desconhecido, o horror, a escuridão de não enxergar nada além do tecido. Confesso ter medo de humanos. Tenho medo de minha própria raça, que de tanto desejo pelo poder e imortalidade esquecem que existem outros iguais, que vivem juntos e se ajudam. Me assusta a falta de respeito ao outro, o egoísmo exacerbado e a individualização doentia.
Ao descobrir que são homens, respiro fundo e enxergo o medo como um aliado que me alerta e me cuida tranquilamente para que eu possa fechar os olhos. Às vezes me esqueço que ele está ali para me proteger e então, nestes dias, eu não consigo pregar o olho. Tenho então, que achar meios para distrair minha cabeça tão imaginativa. Mas outros dias, deito no colo do medo e deixo que ele me nine e cuide dos meus sonhos para que meu sono seja pacífico e restaurador. E quando eu acordo, estou preparada para enfrentar os fantasmas que nós humanos criamos para nos manter vivos, fortes.


Paula Cristina.

domingo, 12 de junho de 2011

Um breve desconforto

Por um momento perdeu o chão, como podia ser tão burra? Será que não percebia que aquele tipo de assunto incomoda? Não... tinha que ser por completo sincera, contar para ele das dores de ser ignorada por pessoas que ele não compreendia ser importantes, simplesmente por serem queridas, sem fazer muita coisa, sem ter muito contato. Ele foi falando e ela nem escutava mais, viu o rosto dele contorcido (ela não sabia se de raiva, ciúmes ou uma leve irritação), a voz denunciava um leve desconforto por parte dele. Quando se deu conta, estava chorando. Chorando por ser tão estúpida de não pensar antes de falar. Está tão acostumada a falar sobre sua vida sem precisar se preocupar com o que os outros vão pensar que não raciocinou que desta vez deveria ser diferente, que talvez ele não compreendesse um carinho genuíno por um completo estranho. Ele desesperou quando viu as lágrimas derramando sobre seu rosto. O que ele deve ter pensado naquele momento? Falava, tentando aliviar a dor dela que nem ela sabia que sentiria ao perceber que tinha incomodado alguém, que tinha incomodado ele. As mãos dele perpassando o rosto dela, que se contorciam tentando não mostrar a dor, tentando segurar as lágrimas que insistiam cair enquanto passavam pensamentos mil de tudo que ele poderia estar pensando. Será que ele não percebia que ela escolhera ele? Será que ele não percebia que ele foi o único a entrar e modificar seus dias? Esperava que percebesse isso, esperava que percebesse o quanto ele significava para ela.


Paula Cristina.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Sem título, apenas um trecho "vazio" de letras

Quantos "eu te amo" recitei, quantos permaneceram amor? Quantos sorrisos eu dei, quantos permaneceram na dor? Quantos abraços apertei, quantos abraços ficaram? Apenas o essencial, pessoas de para sempre, amigos, irmãos de coração. Tantas as mudanças e tantos acontecimentos. O único costume que mantive foi sorrir diariamente, mesmo que para pessoas desconhecidas, mas o resto? Hoje já não consigo dizer "eu te amo" por mais que o queira a não ser que seja aquela pessoa de anos a fio, amiga do peito, parceira da vida. Não consigo abraçar por completo a não ser que seja de casa, íntimo, irmão de coração. Em mim ficou um vazio preenchido por cautela, cuidado pessoal e amor próprio. Não é um vazio triste, é um vazio feliz, realizado, bonito, sincero. É esse vazio que mantém as muralhas que me protegem das dores, é esse vazio que no final não é vazio, tem recheio líquido que às vezes transborda e incomoda alguns invejosos de plantão, mas isso não faz mal, quem sabe essas pessoas não aprendam a criar suas muralhas e usufruir de sua própria felicidade, ao invés de tentar roubar a dos outros...



Paula Cristina.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Seus mimos...

Deixe-me apaixonar por você como alguém que nunca amou. Não quero perdas de tempo, apenas toques, sorrisos, confissões, brincadeiras... O cheiro da brisa que incendeia meu coração quando o vento balança meus cabelos em meio às árvores me mantém calma, focada, pacificada. Você mima meu coração com cerejas recheadas de olhares e toques e palavras, você mima meu coração com filmes e cervejas e comidas, você mima meu coração com seu jeito só seu de sorrir e viver e ser. Você me mima, você me faz dormir...


Paula Cristina.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Intimidade

A menina de vestido verde, sentada à mesa comendo pão e bebendo cerveja se divertia brincando com o cachorro. O chão frio segurava seu corpo que se movia constantemente para todos os lados possíveis. O homem a olhava enquanto fazia comida e correspondia os olhares da menina. O relógio tiquetateava calmamente, esperando o tempo chegar, esperando o tempo passar. A comida ficou pronta, o fogo apagou. A menina então, sentou ao lado do homem para comer. Olhava-o interessada, queria ver cada movimento, perceber cada momento e cada sentimento que perpassava por ele. Ele, muito ocupado com os talheres não percebeu o quanto ela o olhava. Os talheres foram finalmente postos de lado, ele a olhou e ela já era mulher novamente, o ar de menina travessa se escondeu por trás dos olhos que agora seduziam-no sem um pingo de escrúpulos. Não tinha medo e a intimidade que ia crescendo aos poucos preenchendo o vazio entre os dois aumentava e diminuia o espaço em branco que tanto queriam preencher. De fundo, o relógio insistia em tiquetatear, mas eles já não ouviam. Estavam em um tempo paralelo, encontraram-se na linha tênue dos tempo e do não-tempo e ficaram ali a trocar confissões com o olhar. Pela primeira vez aquele tipo de intimidade não a assustava, não a incomodava...


Paula Cristina.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Queria momentos, e só.

A menina no vestido azul passava tranquilamente pelo corredor fingindo não procurá-lo. Os quartos se abriam a medida que passava, mas todos vazios, pareciam caçoar do desejo escondido que tinha de encontrá-lo. Desistiu, sentou a um canto, quase corroendo-se por dentro e acabou por adormecer em cima de alguns livros caídos de pilhas e pilhas baseadas no chão. O cheiro de livro de biblioteca inundava seu corpo e dormiu ali, sonhando, sentindo o cheiro dele a cada expiração. Sentia o cheiro dos livros e o cheiro dele. Tudo se misturava em uma dança sensual. Acordou assustada, não se lembrava de adormecer. Pegou seu som portátil e se dirigiu à entrada da biblioteca. O barulho dos passos faziam-na olhar com a esperança cabulosa de ser ele, quando era óbvio que não seria, ele não frequentava ali, pelo menos, não até onde sabia. As músicas eram todas para ele. Desligou o som, estava tentando não pensar nele. A luz do dia estava diferente, tinha que comentar aquele fenômeno com ele. Não, ele não, de novo? "Não posso pensar nele", mas quanto mais se impedia, mais pensava. No final das contas desistiu de não pensar nele. Pensou, pensou muito. Pensou tanto que ligou. Ele do outro lado da linha dizia que sentia saudade. Ela pulou por dentro, o coração acelerado. Será que ele também esforçava-se para não pensar nela? Torcia que sim, fingia que não. Se acreditasse piamente nisso, as esperanças de serem um casal aumentariam e ela não queria criar esperanças, queria simplesmente viver aquele momento e poder dizer boa noite a ele quando for dormir. Queria momentos, e só.



Paula Cristina.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Só um bobo não perceberia

O telefone tocava denunciando as horas passadas. A mensagem na secretária eletrônica denunciava as batidas do coração que aceleravam a cada sílaba pronunciada. A voz dele era calma, suave, bonita. Gostava quando telefone tocava daquela forma, era ele mais uma vez... Quantas vezes odiou presença, agora adorava presença. Quantas vezes odiou elogios, agora torcia para os elogios ocorrerem. Quantas vezes odiou largar sua rotina, seu pijama regado a noites de filmes para sair, agora esperava impaciente o horário de pegar o carro e deixar aquele filme tão esperado para outro dia. Quando as mensagens chegavam era um pulo do coração a cada palavra lida e um sorriso a cada frase terminada. Estava mais paciente também. Será que foram as tantas lágrimas derramadas ou um simples amadurecimento, uma mudança de fase? Talvez fossem os dois... Ela sorria encabulada e ria um riso alegre e apaixonado. Ele ainda não sabia disso, não por completo, mas era óbvio, estava estampado no rosto, só um bobo não perceberia...


Paula Cristina.

Carta a Amandinha

E hoje é seu dia e venho pensando em nós por muito tempo. Fiquei rindo: é seu dia e vou falar de nós? Sim, porque eu sei que amar é se mistu...