domingo, 19 de setembro de 2010

Ela ainda não se recorda

O celular tocou pausadamente, enquanto ela esperava ser atendida. não foi atendida, pegou a bolsa, batendo a porta às suas costas. A noite estava agradável. Os carros passavam alheios a ela. Perdida em seus próprios pensamentos parou diante de uma praça linda, foi até o barzinho da esqina, comprou uma cerveja e sentou em um banco da praça. Ele nunca retornou e ela esqueceu da ligação, esqueceu dele. Passados dois anos, ela ainda não se recorda. A paz se instaurara sem que percebesse. A praça ainda está lá e todos os dias, ela também, com a cerveja e o cigarro na mão.





Paula Cristina.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Os livros me ensinaram

Os livros me tiraram da cabeça e puseram no coração. Os livros me ensinaram a sorrir de novo e a viver de novo. Os livros me tiraram a solidão e colocaram saudades em meu coração. Os livros me ensinaram a esquecê-los de vez enquando para que eu me lembrasse de mim sempre. Os livros me ensinaram que apesar do medo, não adianta eu me esconder: eu estou ali, nua e crua, esperando ser amada e compreendida por ninguém mais que eu mesma. Os livros me ensinaram tanto, mas não me ensinaram a acostumar com as tristezas. Para eles, se eu me acostumar com as dores, esquecerei a sensação de sentir e o mais bonito da vida é sentir. Sentir o frescor da brisa que balança a copa da árvore, sentir o gosto da sua bebida favorita, sentir o toque de alguém especial, sentir o roçar das folhas em contato com o dedo, sentir a água percorrendo o corpo. Sentir, apenas sentir. Isso, os livros me ensinaram sublimemente e eu nunca esqueci.
Paula Cristina.

sábado, 11 de setembro de 2010

Que culpa eu tenho?

Que culpa eu tenho se me apaixonei por um canário? Que culpa eu tenho se não admito para ninguém? Que culpa eu tenho se o mundo espera uma coisa e eu só vivo outra? Que culpa eu tenho de não confiar se o mundo me ensina a fazê-lo? Que culpa eu tenho de viver confusa, assustada e completamente amordaçada? Que culpa eu tenho pelas culpas que carrego? Odeio me sentir culpada e, por ironia, sou culpada o dia inteiro, o tempo todo. Que culpa eu tenho?

terça-feira, 7 de setembro de 2010

O olhar

Há quanto tempo não existiam olhares como aquele. Ele olhou e o corpo dela arrepiou todo com um olhar. Era tão penetrante que não conseguia mantê-lo, por mais que quisesse. Lindo, sensual, atraente, engraçado, divertido, inteligente e... que olhar! Olhares nunca faltaram, mas este era diferente, era especial. Pela primeira vez, em anos, ela queria corresponder um olhar. Como foi divertido e emocionante, como a tempos não era. E foi assim o dia inteiro, a noite inteira, a manhã inteira. E a vontade de reencontrar aquele olhar? A vontade de se deixar levar era enorme. O obstáculo lançado e a perguntava não se calava: será que foi tudo imaginação, será que só ela queria? Talvez nunca saiba, talvez nunca mais o encontre. A idéia é torcer para que tudo dê certo, mesmo que nada indique que dará.
Paula Cristina.

sábado, 7 de agosto de 2010

A noite

O cigarro ardia, pedindo ser consumido por mãos ageis, lábios fortes. Ela arriscava uma olhada ao isqueiro por tempo suficiente e esmagador. A água esperando para ser tomada, o remédio em cima da pia. Todos esperando a decisão final. Levou a água a boca, jogou o remédio no ralo da pia. Consumiu as 510ml de água, pegou o cigarro, aproveitou e levou o maço consigo, pegou o isqueiro, sentou na varanda. A lua estava linda, dourada, esperando para ser adorada. Os pensamentos passavam calmamente por sua cabeça. Nada triste, desesperado, nada tirava a paz, nada a arrancava daquele estado. Lembrou das dores, mas já não doíam, eram apenas lembranças. Cigarro, boca, cigarro, boca, lua. Cigarro, boca, cigarro, boca, sorriso, lua. E foi assim a noite inteira. Noturna, sempre fora noturna. Hoje não importava, hoje era apenas uma qualidade, um modo de vida. O sol ia surgindo no horizonte, levantou e com um sorriso em seu rosto pronunciou "Bom dia mundo". O café sairia daqui a alguns minutos, o cansasso não mais existia.
Paula Cristina.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Uma nova cicatriz

Acordou com uma vontade súbita de se despir emocionalmente. Nunca fizera isso antes. Envergonhada comprou um picolé para ver se passava aquela vontade louca, estúpida, contida como sempre. Não passou. Caminhou pelas ruas da cidade, passou por praças, tirou fotos, observou pessoas, mas nada tirava aquela vontade insana da cabeça. Ouviu música, mexeu no computador, assistiu tevê e, ainda assim, a maldita da vontade estava lá. Aquele desejo incontrolável tomava cada vez mais posse do que era seu, esquecendo que existem pessoas e que pessoas não se importam com nada que seja muito emocional, a não ser que elas o sejam também. Jogou baralho, bebeu, fumou, passeou com os cachorros. Dirigiu, ensurdeceu, esqueceu o mundo, leu um livro, estudou. A vontade continuava forte, apertada no peito como um balão prestes a explodir. Procurou seu amante de sempre, quem sabe ele não tirava aquele desejo dentro do peito? Vontade e desejo é falta de coisas interessantes para fazer, quem sabe não fez nada de interessante pensando que fez? Não adiantou, para variar. Então se enconlheu em seu quarto, escondida de todos e se pôs a chorar. Chorou até não ter ar, até os soluços pararem por falta de força corporal, até o corpo se esgotar e dormir. Quem disse que desapegar é fácil, quando tudo que se queria é tudo que nunca se teve e de repente surge e some como um passe de mágica? Os olhos secaram, mas a ferida continua aberta, firme. Cicatrizes podem ser lindas, mas ainda assim doem ao cicatrizar.


Paula Cristina.

domingo, 1 de agosto de 2010

Dez dias

Dez dias. Sessenta e duas vidas entrelaçadas. Mal sabiam o que as esperavam. Cansasso, exaustão, cumplicidade, carinho, amizade, cuidado. Apenas palavras que não descrevem com exatidão o sentimento completo instaurado naquele grupo. O olhar vago e assustado de alguns se tornou forte e poderoso com o tempo, o olhar provocantes de uns inspirou outros. Todos se cuidaram pelos dias afora. As lágrimas caindo e molhando rostos, borrando-os, deixando-os um pouco difrente do que deveriam mostrar. Doía porque sabiam que tinham mudado, crescido, se sustentado ali. Por favor, tragam tudo de volta! O cansasso passa, as idéias fluem e tenho que praticar o desapego mais uma vez, como em tantas outras vezes. Mas a verdade é que praticar o desapego às vezes dói, porque é exatamente aquilo que sempre quis e nunca encontrou e de repente evapora das mãos como se nada existisse, a não ser a lembrança do que foi. E volta-se então, para aquela vida de sempre pacata, sombria, esperando ser algo que nunca foi, que será um dia, mas não se sabe quando ao certo. Como amei esses dez dias. Como chorei dentro da alma. Não, eu não soube praticar o desapego, não com os dez dias.
Paula Cristina.

Carta a Amandinha

E hoje é seu dia e venho pensando em nós por muito tempo. Fiquei rindo: é seu dia e vou falar de nós? Sim, porque eu sei que amar é se mistu...