domingo, 30 de janeiro de 2011

Um susto inexplicável

As horas passaram rápido e o tremor que da terra surgiu pesava. Os ponteiros "tiquetateavam" a procura de um tempo (ou seria de um ritmo) que os fizessem permanecer atados um ao outro. O pó que do chão subia embaçava a vista dos mais apitos à visão, a neblina que se instaurava amargurava a mais esperançosa das criaturas. E os raios solares que adentravam por entre as brechas das árvores se tornaram tristes, sem vida, opacos. Tudo virou insegurança, desconfiança, podridão. Por um minuto tudo permaneceu calado até que, então, tudo passou e de repente uma tranquilidade desentendida se fez presente. Foi tudo que aconteceu, minutos eternos antes da luz. A tempestade não se fez e assim, não houveram estragos maiores, apenas um leve desconforto de quem não sabe o que fazer depois de um susto inexplicável.


Paula Cristina.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Uma noite no navio

Sentada, os olhos ao mar captavam a imensidão da escuridão e do mar e do mundo. Era tão pequena diante de tudo aquilo, era tudo tão lindo, tão sedutor, tão pacífico! Uma mão a abraçou por trás, trazia junto de si uma certeza que talvez não fosse tão real quanto parecia ser. Sorriram, conversaram coisas perdidas por aí. Não sabiam nada uma do outro, mas mesmo assim a conversa fluía e os segurava um ao lado do outro. Os outros olhavam e diziam que eram lindos juntos, os dois olhavam e sorriam. A noite durou o tempo necessário para fazê-la perceber que ela era solteira e ela gostava disso mais uma vez. A noite durou tempo suficiente para ela olhar para si daquele jeito e amar tudo em si. A noite durou tempo suficiente para lembrar-se dele, mas pouco tempo para sentir sua falta. E assim, o dia raiou e eles se separaram e ela se sentiu feliz, em paz.


Paula Cristina.

sábado, 22 de janeiro de 2011

As vozes, suas amigas.

O toque seco da folha sob o chão duro confessava a tragédia escondida por trás da doçura estampada no rosto. Tudo fora remoído, removido. Era tudo tão louco, tão solto, tão doído. Era tudo tão lindo, tão óbvio, tão pesado. As lágrimas teimaram em descer enquanto a dor perfurava os pulmões impossibilitando o ar de entrar ou sair: era tudo ar, tudo se fundia e tudo se extinguia. O peso se tornou mortal, a leveza se tornou cúmplice e o olhar lançado a ela se tornou amaldiçoado. O rumo se perdeu de vista. O caminho estava escuro mais uma vez e as gotas de sangue cobriam todo o aposento. Perdera-se entre as facas lançadas a ela. O que a mantinha caminhando, tentando chegar ao caminho iluminado eram as vozes que a mantinham forte, as vozes que a impediam de desistir, as vozes que diziam "sim, você é diferente e nós a amamos por isso". As vozes que tanto protegeram-na voltavam para segurá-la mais uma vez e então um sorriso se escondia por trás dos lábios. Ela sabia que não mais estava sozinha, as vozes a mantinham forte, as vozes, suas amigas.
Paula Cristina.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

É só o que eu quero

Os olhos ardentes, pedintes de alguma coisa maior, algo melancólico, bonito, sensual. A boca molhada pedindo um beijo qualquer de tirar o fôlego. A brisa passando, arrepiando o corpo, fazendo-o pedir calor desses de arrebatar corações. A cena bonita, afrodisíaca que mexe com cada um de de forma diferente. Mas tudo se torna difuso se não tem você (alguém qualquer) para trazer harmonia a todos estes fatos. Você que me seduziria da forma mais doce. Você que traria seus olhos, sua boca, sua pele para se chocarem comigo. Você que tiraria meu ar, minha noção de espaço e de tempo e meu pudor. Você que me traria tudo em um pacote pequeno. Você que seria tema de tantos poemas e sonhos e desejos e pensamentos. Você me roubaria beijos e corpo e alma para que então, eu ficasse nua e trouxesse o luar para dentro do quarto. Você que eu não conheço, mas que amo tanto. Você. Sonho. Prazer. Paixão. Entrega. Você. Simplesmente você. É tudo o que eu quero. É só o que eu quero.


Paula Cristina.

domingo, 9 de janeiro de 2011

O para sempre é muito certo para uma vida tão imprecisa

Tantos amores passaram por mim, tantas realidades quebraram em meu rosto e tantas cicatrizes feitas que já nem sei contar mais e ainda assim, não aprendo a pronunciar adeus. A dor é grande e a falta daquilo que fez parte tão grande em minha vida, que cuidou para minhas lágrimas não caírem, que permaneceu ao meu lado quando eu sentia não ter ninguém. A falta por saber que jamais terei, mesmo que queira me faz pensar mil vezes antes de dar as costas e seguir em frente. Por isso eu acabo sempre voltando, por isso acabo por aceitar aqueles que voltam: eu não sei dizer adeus. Como se diz para alguém querido "vá embora e não volte mais"? O para sempre é muito certo para uma vida tão imprecisa. A imprecisão me toma conta, porque cada um que entra em minha vida tem um papel e se esse papel não for executado ou for executado pelas metades a pessoa voltará e eu devo simplesmente ignorar essa pessoa? Não sei, é tudo tão confuso...


Paula Cristina.