sábado, 26 de fevereiro de 2011

a algum qualquer?

Não sei se você me ignora ou ignora o fato de que me sinto ignorada. Não sei se você sente a falta que faz ou faz de propósito pra me pirraçar. Não sei se isso tudo passa ou se vai ficar, só sei que os dias passam e mais confusa, mais perdida, mais centrada em loucuras e neuroses eu fico. A cabeça roda, mas não dói. Nada dói. É como um vazio, uma falta de mim, uma falta de você, uma falta de nós. Pode ser loucura, pode ser perdição temporária, pode ser até uma falta de compreensão de um contexto maior e pode ser apenas saudade. O fato é que tudo mistura e eu misturo você a mim, mas não parece certo nos misturar, o bonito seria o encontro, sem comuns nem afins, apenas encontro e vontade de estar. Não sinto isso de você, talvez eu é que não tenha em mim e não sei disso, mas isso seria muita loucura e muita falta de mim...


Paula Cristina.

A conversa

Os olhos atenderam àquela forma indiscreta de observação. Foi literalmente engolida até a alma, as roupas do corpo tentando esconder o pouco que escondiam por baixo daqueles olhos de raio-x. Queria sair dali, mas o orgulho não a deixava se desvencilhar. Escondeu um sorriso de divertimento por trás dos olhos fugazes e escorregadios que não deixavam ninguém encará-los por muito tempo. Segurou a ponta do vestido e, mantendo a conversa longa suficiente, ficou ali a rir de coisas que não tinham graça e a falar apenas o bastante para manter uma conversa meio fajuta e se manter em evidência como sempre dava um jeito de estar. Não tinha graça não estar em evidência. Gostava de ser o centro, falava baixo pra manter a pessoa atenta, sem tirar os olhos e se a pessoa desvencilhava, mudava um pouco o tom para ela se interessar de novo. O sorriso era para chamar os interessados (e os desinteressados também). O olhar para manter aqueles que gostavam do "olho-a-olho" e um pouco sedutor às vezes quando percebia um certo quê de interesse por parte da outra pessoa. Procurava sempre agradar, não porque precisava da aprovação, mas porque agradando, era mais fácil ter o olhar deles em cima de si. Procurava saber sobre coisas só para manter conversas (mesmo que chatas) e procurava esconder saber quando também não sabiam. Utilizava máscaras para se manter querida e esconder seu ser, sua essência. Às vezes isso gerava problemas, já que de tanto se esconder, se esquecia e tinha que começar todo um trabalho árduo de auto conhecimento, o que se tornou constante e necessário. Não conhecia ninguém por completo, mas fingia muito bem conhecer. Andava sempre sozinha (é mais fácil conhecer pessoas novas quando se está só) e as pessoas acabavam por acreditar que era solitária. Não se importava com isso, sabia que não era. Ouvia todos os estilos de músicas possíveis e com o tempo, acabou por gostar de todos eles. Se tornou fácil de agradar pelo gosto eclético que foi adquirindo durante os anos. Das bebidas, todas a agradavam, menos variações de refrigerante (refrigerante é coca-cola e ponto!). Gostava de filmes também e de livros, todos variados. Andava horas e horas em um silêncio profundo, conversando consigo em um divertimento profundo. Gostava da água passando por seu corpo, limpando tudo e relaxando cada músculo enervado. De repente acordou de seu devaneio sobre seu jeito com os olhos dele nos dela. Riu de novo e percebeu o perigo de estar ali, tentando se manter em um grupo que nem ao menos conhecia direito. As mãos já suando frio e agora, todos tentavam lê-la, se manter em uma conversa que ela não sabia quando tinham entrado. Disfarçando o desconforto, devolveu a pergunta a ela dirigida com outra pergunta mais ousada ainda. Não queria sorrir, mas o costume não a deixaria parar. Estava confusa e sem graça com o rumo da conversa, precisava mais uma vez de estar só para poder rir da situação sozinha e criar mundos e histórias novas a partir de uma simples fala, de uma simples conversa que não levava a lugar nenhum.


Paula Cristina.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ele.

Sem saber o que era, deixou-se abrir para um mundo desconhecido e agora, assustada, deixava o medo tomar conta. Engoliu o medo e ligou, era a melhor forma de resolver as coisas. Não sabia o que sentia. Ele atendeu, estava ocupado, mas insistiu em falar. Ela compreendeu o cuidado a ela dirigido e acalmou os nervos. Porque sentia tanta falta dele? Ao invés de ignorar, deixou todos os pensamentos se acentarem e fazerem parte daquela vivência, realmente saber o que estava acontecendo, o que estava sentindo. Deitada na beira da piscina, olhou o céu e ficou a observar as nuvens, tentando compreender aquilo tudo e se deu conta de que certamente estava apaixonada. A falta que ele fazia não era falta de "estou sozinha, alguém sente ao meu lado". Não. Era mais que isso, era a falta do sorriso, do silêncio, do abraço, da voz, do beijo, da presença (mesmo que fosse apenas uma presença de endereço). Saber que ele estava ali, olhá-lo. O sentimento de tê-lo ali, simplesmente por ter, sem precisar dele, mas querendo-o ao seu lado. O sentimento de uma mulher apaixonada, de uma pessoa apaixonada. Era ele, não o príncipe encantado, ou o homem ideal. Apenas ele, com as brincadeiras desconcertantes, as inúmeras piadas, o estresse repugnante de algo que ele não concordava, a falta de escrúpulos ao dizer o que pensa, o carinho a ela destinado, o modo como não estava nem aí para o que pensavam, o olhar. Era tudo ele, daquele jeito que só ele sabe ser, daquele jeito que ninguém poderia copiar. E ele com todas as características foi quem a prendeu, ele que jamais fora o cara perfeito, tornara-se o cara que encaixava na sua vida, aquele que a fazia sorrir só de pensar nele. O estranho perfeito, sem sombra de dúvidas que sabe vê-la e percebê-la como nenhum outro conseguiu. Ele que a fez se apaixonar, ele que mudou a forma como ela via o mundo, a forma como ela lidava com o mundo. Ele promoveu mudanças. E ela, que espera que tenha provocado mudanças nele também. Eles formam um lindo casal, dizem as línguas. E tudo que ela espera é que ele sinta o mesmo e que ele fique ao seu lado e que o casal se mantenha enquanto puder, enquanto convir. Ele. Quem sabe um "eles" finalmente?


Paula Cristina.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O objeto de seu afeto

Os olhos procuravam com uma avidez por descobrir e não via, não percebia, não sentia. Era tudo incógnita. Ele cansou de procurar, ignorou os desejos de sua própria alma, focou em si. O puro egoísmo da solidão. Mas quem disse que o amor é reciprocidade? O amor é mais um meio termo de gostar e querer manter, mas de um egoísmo escondido, disfarçado de cuidado altruísta. Perdeu tudo, inclusive a dignidade para ter que reconstruir de novo. Alguém veio e o informou de que de nada adiantava tudo aquilo (e de fato essa pessoa estava certa). Fez então do amor um objeto fugidio, ridículo, esquecido - e esqueceu mesmo. Não sabia que aquele comichão era desejo, oprimira-o por dentro das roupas, da pele, dos ossos. Ninguém sabia que era o que o mantinha em pé, nem mesmo ele. Esqueceu assim, de si mesmo. Não fazia mal, não percebera até aquele ponto. Então em uma noite qualquer, descobriu querendo uma pessoa em especial, satisfez seu desejo, mas, ainda sim não foi suficiente, queria mais daquela pessoa. Manteve os encontros e então em uma noite qualquer, esse ser que surgiu do lugar menos esperado contou a ele sobre ele. Tirou o véu do desconhecimento pessoal e lhe contou que sabia do desejo dentro de seus ossos. Aquilo o abalou profundamente. Alguém o via e o devolvia para ele. Alguém passou e o viu, segurou-o e quase prometeu se manter ali. E ele então percebeu em um mero momento que se apaixonara e oferecera um lírio e este foi aceito com a maior das boas vontades. Foi assim que o amor voltou ao seu ser, foi assim que o amor adentrou cada poro de seu corpo e supriu todas as dores e medos e anseios. Foi assim que ele voltou a ser humano. Ele era humano e o objeto tinha sido encontrado. O objeto de seu afeto.


Paula Cristina.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Trecho

Acordou e se deparou com o edredom puxado do outro lado. Sorriu, pensava ter sonhado, mas não, ele estava ali, deitado com o o lençol nos pés. Os olhos serrados faziam acreditar que ele estava dormindo, mas alguma coisa a fazia acreditar que ele não estava dormindo. Mexeu um pouco na cama e os olhos dele abriram calmos. Virou de lado e passou a mão sobre seu rosto. Era tão bom, tão simples. Sorriu. Beijou os lábios dele suavemente. Deitou a cabeça sobre seu peitoral e ficou tempo sem conta apenas deitada abraçada a ele, deixando sua mão percorrer sobre o corpo dele.


Paula Cristina.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Dessa vez...

Sentei ao seu lado na mesa e aquilo era no mínimo constrangedor, mas era lindo também. Eu olhava pra você e tive certeza que era ali que eu queria estar. Podia morrer de vergonha, me embaraçar toda, parecer louca e passar a impressão errada (o que sou tão boa em fazer nos momentos menos oportunos), mas no final das contas eu estaria com você. No final das contas era só você. Saímos dali, conversamos, rimos, nos tornamos um pouco mais íntimos, um pouco mais próximos e minha sensação de certeza foi aumentando a medida que a noite sumia e deixava vestígios de uma madrugada silenciosa e pacífica. Você leu meus sentimentos, mudou meu humor, eu estava ali, indefesa, sem saber o que fazer, as lágrimas teimando em cair. Você me viu chorar silenciosamente, você viu meu mais fundo ser sem entender o que era ou porque era. E tudo que vinha na minha mente quando você me fazia perguntas era "estou apaixonada por você", mas nada saía como sempre. Esse meu medo de me abrir. Tenho coragem de pular de um penhasco, de ficar entre uma arma e um alvo, de enfrentar as coisas mais inimagináveis, mas tenho medo de que vejam meu ser calejado, cicatriza(n)do, sangra(n)do, deixando hemorragias internas. E você viu, como tantos outros. Mas dessa vez eu não queria fugir, não afastei, queria estar ali, abraçar, olhar nos seus olhos e dizer como doía, contar tudo de uma vez por todas e deixar que entrassem nesse meu mundo secreto que ninguém conhece, esse meu mundo secreto desabitado como uma ilha desconhecida. Dessa vez, só dessa vez eu fechei meus olhos e soube que eu não fugiria. Não mais. E torço para que você permaneça ao meu lado.


Paula Cristina.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Acordei um dia...

Acordei um dia e me percebi pensando na próxima vez que te veria, não queria me preocupar com outro e me deparei com uma falta sua, pausada, bonita, poética. Me incomodei com isso, não costuma acontecer esse tipo de coisa comigo, mas chega um momento que parece que a vida resolve fazê-las ou será minha própria consciência brincando comigo? Não tenho certeza de nada, a não ser de que nesse momento estou online achando que você não vai entrar no msn, mas ainda estou aqui torcendo que eu esteja errada e que me surpreenda para que não tenha sido em vão esse dia que eu entrei só para falar com você. Me peguei pensando em você durante uma aula interessante (o que é no mínimo bizarro, porque aulas interessantes nos mantém focados...). Mas tem alguma coisa de bonito, de misterioso na forma que você olha ou até fala comigo - ou será que vejo assim porque estou começando a criar sentimentos em torno da sua pessoa? - . Algo escondido, um querer contido, um respeito, um cuidado. Não sei se estou me apaixonando, mas alguma coisa acontece. Alguma coisa mascarada, bonita de se ver. Consigo ver seu sorriso em frente a mim e já vejo você a me abraçar e isso é estranho, diferente, medonho (um medo bom, um medo ansioso, esperando para acontecer... um medo de ser já sendo). E então a noite cai, vai e o dia chega e você não entrou e eu aqui esperando, esperando e você não sabe. Você não sabe.... ou sabe?


Paula Cristina.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Jogar tudo pro alto

Acordou suada da noite quente e mal iluminada. Desceu até a cozinha e preparou um chá de limao. Deixou esfriar um pouco, sentou na rede de balanço da varanda. Olhou o relógio eram quatro horas da manhã e perdera o sono. Sorriu, lembrou-se dele e percebeu que começava a gostar dele em sua vida, gostava do toque da mão na sua e quando ficava a observá-la e quando ela o olhava ele já estava preparado para dar um beijo ou para fazer tudo que ela quisesse que ele fizesse. Gostava de poder escolher o que fazer (mesmo que na maioria das vezes nunca escolhesse por opção). Adorava quando ele a abraçava e mais ainda quando a fazia rir, mesmo quando não tinha graça nenhuma. Achava a décima maravilha do mundo poder simplesmente ficar ali, em silêncio. Queria ligar e dizer tudo aquilo e mais para ele, mas não faria isso. Gostava dele e provavelmente estava gostando cada dia mais e mais, mesmo que negasse para si por medo ou algo parecido. A verdade é que ao mesmo tempo que tinha um pouco de medo, ela estava entrando com tudo, se entregando e isso era loucura, sempre foi loucura. Talvez um pouco de um drink qualquer voltasse sua cabeça para o lugar e o medo tomasse conta. Era estranho não ter medo, essa sensação de que tudo ia dar certo a assustava e a mantinha ao seu lado. Dessa vez, ela queria pagar para ver, atirar de um penhasco, jogar tudo pro alto....


Paula Cristina.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Caminhos separados

As lágrimas queriam escorrer e então ela se virou e de raiva prometeu que jamais olharia para trás de volta. Domando o que restava de controle, impediu que seu corpo tremesse enquanto se dirigia ao carro (e foi difícil cada passo). Então, como se não bastasse ele gritou palavras lindas, mas que soavam vazias ao toque doce do sentimento. "Adoro que você observe todos os meus passos e não admita por orgulho. Adoro quando você finge que não sabe quem eu sou e, de repente, como se nunca tivesse me visto olha nos meus olhos e parece ler até minha alma. Adoro que você vá e volte e que fique. Adoro como você se mantém leal às pessoas, mesmo quando elas não se importam de forma alguma. Adoro também como você finge não se importar agora e fica de costas para que eu não veja suas lágrimas queimarem seu rosto. Adoro que você se esforce para que ninguém se machuque. Mas odeio uma coisa em você. Odeio que você vá embora agora, principalmente porque sei que dessa vez, mesmo doendo, você não voltará." A porta do carro abriu, as mãos dela escorregavam da maçaneta até a parte de dentro da porta. Sentou, fechou o carro. Ele não sabia (ou menos ela gostava de acreditar que não), mas ela sabia que ele estava parado daquele mesmo jeito de sempre, com um copo em uma mão, a outra solta ao lado do corpo fingindo não se importar que ela estivesse indo embora. Ligou o som, uma música bonita, dolorida, agitada para manter a aparência de leve descontração. Girou a chave na ignição, acelerou, olhou pelo retrovisor e o viu olhando, sem mover um músculo sequer. Não sabia se ele derramaria lágrimas, nem se sentiria sua falta e isso a incomodava porque ela sabia com uma leve certeza que sentiria falta dele e derramaria lágrimas de saudade. E ele, misterioso como sempre fora, não contava para ela o que sentia, o que pensava e ela ficava no escuro tentando encontrar uma forma de chegar a ele sem que ele percebesse. Ela aprendeu a se importar com ele. Chegou em casa, tirou as sandálias, abriu a geladeira para pegar uma cerveja. O clique ao abrir trouxe lembranças de quando ele sentava ao seu lado e abria uma lata ao lado dela. Teve vontade de chorar. Foi até o quarto e escolheu o melhor biquíni, a melhor toalha, tirou os brincos, o colar e os anéis e desceu. Sentou na beirada com os pés na água, a cerveja descia trazendo calma e leveza. Terminou de beber, pôs a lata de lado e afundou sentindo todo o corpo libertar energia. Nadou de um lado a outro, sentou na parte mais rasa e ficou olhando a lua. Fez uma prece silenciosamente e só quando tranquilizou a mente e o corpo saiu. Tomou um banho demorado, colocou um roupão e desceu para fazer yakissoba. O telefone não tocava, ele não ia ligar, ela sabia, mas insistia em esperar. "Porque fez aquela estúpida promessa para si? Não queria deixá-lo de lado, queria estar junto dele, mas era necessário seguir em frente". Comeu, bebeu, leu um livro, as horas passaram e ela nunca mais soube dele. Enquanto isso, ele sabia todos os passos dela, mas eram diferentes demais, eram pessoas separadas. Ele a amava e ela estava bem e isso bastava só por aqueles dias.

Paula Cristina.