sexta-feira, 23 de abril de 2010

Um tipo de amor.

A mesa posta, a conversa em dia, sorrisos e confissões. A noite que poderia ser rotineira e "enfurnante" de repente se torna mil maravilhas. Dá subitamente um orgulho de si, uma auto-estima cresce espontaneamente dentro do peito. A comida e a bebida descem mais redondas, mais gostosas, mais acomodadas. É assim que se sabe que amizade é isso. Vai além de relacionar-se, vai de um encontro de almas que se aceitam, se amam, se compreendem. Amizade é aquela pura parte da gente que aquece quando não tem nada para aquecer e que torna os dias suportáveis enquanto aquilo que se quer ser ainda não se desforrou e aquele amor que um dia gostaria de viver ainda não se revelou. Amizade é o acalento de saber que mesmo que não se tenha tido um amor romântico, no final da vida vai poder dizer que amou. Porque amor de amizade é um tipo único e raro de amor.
Paula Cristina.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Funeral.

O véu escondendo seu rosto maquiado e borrado. O buraco no chão esperando para ser preenchido com os restos dele. Os soluços silenciosos obrigam as lágrimas a escorrerem pelo seu rosto. Os olhos ardendo, a garganta seca, a boca murmura palavras embaralhadas de tempos perdidos. Ele se foi e não há mais nada a fazer. O luto permite que se feche por alguns dias, precisa de si, de reorganizar todas as idéias e planos feitos. Mudar algumas coisas de lugar, jogar outras fora, viver para si dói muito. É mais fácil ter suas decisões tomadas quando se pensa em alguém a quem deve alguma coisa. Os abraços não acalentam, aliás não entende porque a abraçam, não quer abraços, nem palavras confortantes (elas não trazem realmente conforto). O lenço já não serve para enxugar as lágrimas de tão molhado que está. A noite chega, o cemitério fica vazio, não quer ir embora. O guarda a avisa que vai fechar e que ela tem que ir embora. Dirige, sem saber por onde está andando. Não vê nada além de suas lágrimas embaçando a visão. É aniversário dele. Entra no apartamento. Finalmente sozinha, toma um banho, senta na mesa para tomar uma xícara de café, acaba tomando café irlandês. Lê seu livro favorito para passar o tempo, dorme com a cabeça em cima da página que mais gosta, as lágrimas ainda escorrendo. Ele nunca mais fará parte de sua vida e ela seguirá em frente e aprenderá o que jamais aprendeu, apesar de afirmar tantas vezes que sim: amar-se. As lágrimas secarão eventualmente.
Paula Cristina.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Sabedoria.

Sou reservada em alguns aspectos, mas sejamos sinceros aqui: alguém já conheceu alguém que canta, dança e interpreta não querer se mostrar? Sou narcísica e não sou. Para variar uma contradição. E é o meu lado narcísico que vem lhes contar minha descoberta. Os sábios não fantasiam. Esteve sempre ali, na minha frente, mas nunca em toda a minha vida havia me tocado disso. Dá até aquela vergonha de admitir que não se sabia. Mas não dizem que quando não se sabe é quando começa a saber? Pois hoje eu torço para que eu tenha começado a descobrir a parte que não percebia. Quero ser sábia sim! Mas para ser sábio é necessário coragem para admitir os erros, humildade para aprender, mesmo quando achava que sabia e paixão para jogar a cara no mundo, nas pessoas, nos sentimentos, nos estudos e nas teorias. Meus mestres são por completo diferentes e estravagantes. Alguns não existem, a não ser no papel. Outros existem, mas não falam comigo. Outros ainda existem, falam comigo e não se dão conta de quem são para mim. Outros sabem exatamente que estão ali para me ajudar a amadurecer. Outros tantos são meus eu líricos, desconhecidos ou não, que se põem a me fazer perceber quando saio do meu caminho. Se sou louca? Talvez, ainda não me decidi quanto a isso. Às vezes sim, às vezes não. A linha entre a loucura e a lucidez é mínima, invisível, irresistível.
Paula Cristina.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A parte

"Não. Não vou sorrir sorrisos de beija-flores diversos, muito menos cantar uma ópera celestina. Vou sentar aqui e ficar apreciando as cores do vento, o olhar das flores e o andar das folhas." Foi tudo que me disseste naquele dia sombreado, ralo de tanto chover. E então bateu aquela vontade de sentar embaixo da árvore e esperar a maçã cair em minha cabeça. Sentei, esperei e nada! Nem uma folhinha sequer para aquietar o espírito e me dar esperanças. Cansei, peguei um livro e fiquei ali a folheá-lo. A idéia nunca veio, mas a falta passou. Você sentado em uma mesa de bar, eu em uma praça mal iluminada. Você conversando, eu lendo. Você continua o mesmo, mas eu mudei. E agora sentas do meu lado como quem não quer nada. Eu rio, porque é tudo que tenho para disfarçar a minha raiva, dor e alegria contidos em uma só emoção. Você não entende, me chama de louca. Eu bebo outro gole do ponche, você me olha. Levanto, encho o copo e vou embora. O amor é tudo que restou de nós e é a parte que você não vai tirar de mim.
Paula Cristina.

domingo, 11 de abril de 2010

Dos meus repente e desatinos.

Uma cor, um quebra-cabeça, uma mola, um cobertor. Um sapato, um dinheiro, um sorriso, um desprezo. Um batom, um anel, um livro, uma dança. Das loucuras inflingidas, dos riscos gastos em papéis surrados, não se tem notícia: apenas fatos amordaçados e escondidos pelo tempo. A sinceridade inescrutável se desgasta com o tempo e tudo que se torna é silêncio disfarçado de barreira protetora. Se olham, se vêem, mas será mesmo que enchergam além? O sangue escorrendo pelo corpo da mulher amordaçam a idéia de proteção que se fez a tanto tempo. O que é a solidão quando se está em meio a tantas pessoas e o que é o sentir-se junto quando se está sozinho? Não seria pois um caso de sentir a si? Não seria o caso de amar a solidão e a socialização dos outros? Não seria também, ser um pouco egocêntrico, em um nível que não magoe o próximo? Não seria então uma contradição que se constrói todos os dias? O que leva um indivíduo a sentir a dor de um outro qualquer que nunca tinha conhecido, nem visto, nem ouvido até aquele dia? Será que estavam certos aqueles que ajudaram a passar aquele texto dizendo que somos anjos de uma asa só? Aprendemos a amar, porque essa é a única forma de preencher o vazio, seja lá o que ele for. Os mais desavisados perguntariam: "Porque então machucamos o próximo?" Porque pensamos ser senhores do mundo. Esquecemos dessa humanidade que nos permite chegar ao nosso sintoma. Somos humanos porque perdemos parte de nossa asa, estamos enfermos, aleijados, limitados. Mas isso não nos impede de nos tornar melhores e até mesmo sair desta ala hospitalar. Não seremos por completo curados, mas seremos sim, divinos. Senão deuses, ao menos anjos. Particularmente quereria ser um unicórnio alado. Gosto do perigo e do poder. Gosto mais, porque me permite lembrar de responsabilidades e me torna mais forte. Mas essa não é a questão. Nem sei se compreendo a questão, ou se até consigo passar as dúvidas que passam pela minha cabeça como um vendaval, levando tudo consigo. Não sei nem se este texto faz sentido. Quereria eu, agora, ter a sabedoria de Gandhi, de Sidarta, de Dumbledore, de Merlim, de Morgana, de Maria, de José, de Sabath e de tantos outros que, juntos, se tornaram parte de minha alma. Gostaria eu, de permanecer em pleno estado de paz, mas isso não me foi possível, AINDA. Sabedoria se adquire, amadurece. E de tanto sonhar, perdi a linha de raciocínio e termino o texto com palavras ao vento. Não faz mal, quem lê meus textos já se acostumou com meus repentes e desatinos. Hoje eles estão presentes mais uma vez.
Paula Cristina.